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Domingo, Outubro 24, 2021

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“Bandeja”, por Armando Fernandes

No futebol é comum os locutores dizerem: o Ronaldo foi servido de bandeja – o tão vistoso como sempre muito falado craque aproveita as ofertas e marca golos. Se o leitor consultar a Internet dela colherá informações acerca de vários tipos de bandejas, dos múltiplos materiais utilizados na sua construção, todavia acerca das suas origens já não será assim.

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Estamos familiarizados com bandejas de alumínio, de ferro, de aço inoxidável, de plástico, de tela, de madeira, de lousa, porém, no dia-a-dia, bandejas grandes, altas (com rebordos para não deixarem escorregar as coisas), de madeira lacada com incrustações de madrepérola ou metais preciosos só raramente são vislumbradas, muito menos por nós utilizadas. E no entanto, na China e na Índia de onde provêm estas bandejas ressaltam nas casas de gente de posses e deixam-se apreciar nos Museus e casas de móveis de luxo.

Ora, o rei Luís XIV de França foi obsequiado com uma destas bandejas pelo rei do Sião (verifiquem onde fica este reino onde os nossos ancestrais estiveram, entre eles o famoso Fernão Mendes Pinto), e por isso mesmo as bandejas tornaram-se famosas na Europa.

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Se o leitor já visitou uma ourivesaria e solicitou ver determinada peça, a mesma aparece na sua presença colocada numa bandeja, por um lado é mais seguro surgir desta forma, por outro o interessado observa-a em melhores condições.

Nos cafés, cervejarias, restaurantes e casas de comeres as bandejas transportam bebidas e comeres, além de utensílios e guardanapos. Em muitos restaurantes onde se pratica a modalidade bufete as bandejas compridas competem com as mesas na colocação de bandejas menores e/ou dos alimentos apresentados para as refeições.

Nas casas ricas de outrora exibiam-se bandejas em ouro, prata e marfim, com e sem galerias, agora tais exibições são mais raras, não só porque a cobiça é sentimento perigoso, mas também devido ao custoso trabalho de as limpar sem lhes colocar defeitos na superfície, rebordos e pegas.

Muitos empregados de café eram exímios no transportar de chávenas e copos sem colocar em perigo os conteúdos, alguns até entravam em competições. Nestes tempos correntes esses executantes são raros, são muitos os desordenados para consternação dos clientes cujas roupas ficam conspurcadas, como um «capitão de Abril» ficou quando uma bandeja descarregou em cima da sua farda uma travessa de arroz.

Protestos com bandejas também acontecem. Há um ror de anos na cervejaria Solmar ao fim da tarde uma tertúlia onde imperava o escritor Manuel da Fonseca decilitrava cerveja e vinho, no momento de começar a cantar os empregados deixavam cair propositadamente as bandejas ao chão. Acabava a cantoria ali, prosseguia na rua. Bons tempos!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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