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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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“Balanço”, por Armando Fernandes

Balanço não de balancé, sim de anotações acerca de acontecimentos ocorridos no ano passado enchem as agendas das redacções dos órgãos de comunicação social. Também me ocorreu balançar passivos e activos no tocante a comeres e beberes em nos concelhos de influência do Médio-Tejo, ainda relativo à gastronomia, a nona Arte, que ali e acolá se pratica. Não fulanizarei porque posso provocar azias a pessoas do nicho da exaltação de pseudos-saberes escorados na dourada ignorância.

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Há dias Pacheco Pereira aludiu à nova ignorância variante da velha e relha, no intuito de apimentar a crónica aludo à Douta Ignorância, obra maior do formidável polemistas, humanista, filósofo e cardeal Nicolau de Cusa. Se empresários, proprietários, chefes e demais pessoal da área da hotelaria, restauração e afins tivesse paciência para estudar um poucochinho (o termo está em moda) algumas observações contidas na célebre obra perceberiam quão perigoso é julgarem-se instruídos ou sabedores só porque obtiveram um elogio, uma menção ou um talher classificativo o qual confundem com uma estrela porque lhe dá jeito e às vezes proveito.

A maioria das ementas que leio aduzem como especialidades as receitas locais, observando melhor logo verificamos o logro pois entram referências vindas dali e de acolá, da serra e da falperra, inclusive de países equatoriais e tropicais. Um forrobodó!

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A mesma análise no respeitante às técnicas culinárias executadas nos sítios onde nos amesendamos revelam pobreza nas cozeduras empregues, disformidades no respeito pelas sazonalidades, atropelo nos tempos de execução prevalecendo o …para quem é basta assim. E, basta, porque os clientes na sua esmagadora maioria saem impantes especialmente quando saem de barriga a abarrotar e palito na comissura dos lábios.

Sem sermos masoquistas estendemos o balanço aos restantes elementos constantes na ementa – entradas e saídas, como quem diz sobremesas – a falta de imaginação, o mimetismo e a facilidade do costume reforçam a ideia de pobreza. As entradas raramente acompanham a singularidade da estação, prevalecem os «mimos» de índole global sem ao menos existirem cuidados na sua apresentação, os produtos autóctones ficam nas árvores, nos passais e nas hortas onde persistem.

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Não é neste capítulo, é total, todos quantos participaram nas refeições comemorativas do centenário de elevação de Abrantes a cidade caso se lembrem, acredito que verificaram a prevalência do existente em todos os supermercados em detrimento dos produzidos, nascidos e criados no concelho e redondezas.

No tocante a sobremesas a pastelaria é de cunho industrial, sim há tigeladas, palha de Abrantes e…adeus minhas encomendas. Alguém me sabe informar de qual é o restaurante que apresenta uma mediana tábua de queijos? Peço pouco: quatro queijos de origem portuguesa. Apenas.

No referente ao serviço de mesa impera o amadorismo, pese embora a boa vontade dos trabalhadores faltam-lhe sólidos conhecimentos sobre as matérias inerentes à sua função. Até no círculo da civilidade e etiqueta. Dirá o leitor: então não existem restaurantes qualificados? Raros e fruto do livre arbítrio e entusiasmo de quem lá trabalha. A presunção de que abrir um restaurante está ao alcance de um qualquer leigo ainda persiste, existindo exemplos de autêntica negatividade.

Nos dias de hoje as artes culinárias e a gastronomia detêm enorme importância nas economias. Pensem nisso!

Bom Ano.

  1. O balanço continua na próxima crónica.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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