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“Baixela”, por Armando Fernandes

As enciclopédias desfiam ‘timtim por timtim’ o conceito de baixela, utensílios de mesa feitos em prata ou prata dourada, sem soldagem, e por aí adiante, estabelecem os estilos e referem baixelas sumptuosas feitas de propósito para assinalarem acontecimentos nos quais se exibem riquezas – tiaras, colares, cordões, anéis, relógios, tecidos luxuosos – onde a origem de tantas voluptuosidades caríssimas não trazem (às vezes trazem) registo da forma como foram conseguidas, quantas vezes numa diabólica mistura de sangue, fezes, suor e lástima.

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Há semanas no casamento do neto da rainha Isabel tivemos lauta manifestação de riquezas desse género e, como era de esperar, as baixelas da Casa Windsor refulgiram no decorrer dos banquetes servidos. Nós por cá também tivemos Reis, nobres e clérigos famosos dada a preciosidade das suas baixelas, caso saliente na Casa de Bragança, no Palácio Ducal de Vila Viçosa. Esta casa rivalizava com a Real, antes de uma espanhola ter convencido o timorato Duque a aderir à conjura que no dia 1º de Dezembro restaurou a independência de Portugal. Acerca dessas baixelas os leitores façam o favor de esmiuçarem a Internet, eu prefiro salientar outras. As baixelas dos pobres e remediados ribatejanos que em inúmeros lares até aos anos sessenta do século passado as pessoas comiam todas do mesmo prato (bacia, fonte, prato fundo), utilizando o garfo à vez, bebendo do mesmo modo, sem copo, colando os lábios a gargalos de pequenos e grandes garrafões. Ali e acolá o vinho apresentava dentro de uma bota (espanhola) bem rolhada deixando escapar esguicho fino, porque o vinho era caro e consumido a eito apenas nos dias de festa e nomeados.

As cozinhas além de desconfortáveis durante todo o ano, estavam equipadas parcamente, panelas e tachos estritamente os necessários, tigelas ou malgas de cerâmica boa condutora de calor, pratos do mesmo material, de esmalte nas casas mais abonadas, sempre no regime de parcimónia, copos e canecas de vidro arregalavam os olhos das mulheres quando sobrava algum dinheiro de corrente dos trabalhos nos campos, apanha de azeitona, preparar arrozais e searas, vindimas, posteriormente campos de tomate e de milho.

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Facas de múltiplas funções de ferro, tal como garfos e colheres, colherotos de madeira, guardanapos eram os rodilhos ou as costas das mãos; toalhas só quando Cristo entrava nas casas a fim de as benzer,;das latas de folha-de-flandres (apareciam douradas e prateadas) metamorfoseavam-se em copos, púcaros, cafeteiras, recipientes destinados a cozinharem toda a sorte de produtos.

O almoço dos trabalhadores nas terras da Lezíria confeccionava-se no campo com o auxílio da burra de ferro (cambariz e caldeirinha); as brasas de vides mereciam a preferência de quem o fazia. O apreciado magusto mexia-se com uma colher de pau e comia-se com o auxílio do jaribalde ou geribaldo tão somente outra colher de pau cinzelada no campo, ponteaguda, destinada a comer o referido magusto. Pelo exposto, a baixela dos pobres superava a dos ricos em argúcia e engenho. Tinha de ser! A dos opulentos dotava os artistas de dupla felicidade, ao darem vazão ao seu ímpeto criador e serem bem pagos pelas peças criadas!

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Armando Fernandes
Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris. Escreve no mediotejo.net aos domingos

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