“Bairrismo”, por Vânia Grácio

Ser bairrista… Geralmente este termo tem uma conotação negativa, pois está vinculada a visão redutora e que menospreza tudo aquilo que é externo, ou alheio ao “nosso mundo”, ao “nosso bairro”. Em regra, quando nos intitulam de “bairristas” querem dizer que estamos “fechados” ao mundo exterior, ao que não é da nossa terra e que apenas valorizamos o que é nosso. Na maioria dos casos, se calhar, não estão enganados. Acrescento que, por vezes nem o que é nosso valorizamos.

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O sentimento de pertença a uma comunidade não é algo que se adquire só porque sim. Para fazer parte de uma comunidade, temos de dar de nós, contribuir para o bem comum, arregaçar mangas e fazer em conjunto para que tenhamos aquilo que nos faz falta, que faz sentido para o “nosso grupo”. Não podemos limitar-nos a acusar os de “fora” que não contribuem para o “nosso” bem-estar. Eles não terão obrigação de o fazer. Não terão, pelo menos se nós também não contribuirmos.

Não raras vezes, vemos o poder politico ser acusado de dar mais a uma determinada comunidade do que a outra, acusamo-los de interesses políticos, acusamo-los de nos terem esquecido, mas nada fazemos para os lembrar que existimos, a não ser gritar aos sete ventos que estamos feridos e magoados com tamanha injustiça. Então se nós nem tivermos votado em quem está no poder, pior… vamos esperar que quem não foi eleito por nós, faça por nós o que nós não fazemos? Em algumas situações sim, porque é sua obrigação. Foram eleitos para isso. Mas não podemos ficar à espera que façam tudo por nós. Defendemos que a nossa terra é melhor que as outras pelo que foi no passado, mas não fazemos nada para mudar o presente e construir o futuro?

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Ser bairrista, é mais que criticar. É mais que estar fechado à espera que outros mudem o “nosso mundo”. Ser bairrista, deve ser promover a nossa comunidade, trabalhar para o bem comum. Juntar esforços, recursos, sinergias, identificar lacunas, apoiar a ultrapassar as dificuldades… Ser bairrista é dar o seu contributo. Ser bairrista é fazer, mais do que falar. Ser bairrista é ter orgulho na comunidade a que se pertence, mas não esquecer que influenciamos e somos influenciados pelos que nos rodeiam. Que temos muito mais a ganhar se estivermos juntos, do que de costas voltadas.

Esta semana participei numa atividade “bairrista”. Uma associação juvenil colocou meia freguesia a pedalar. Uma empresária doou 1 kg de alimentos por cada 10 km percorridos tendo esses alimentos sido entregues a uma Instituição com responsabilidade na área do atendimento e acompanhamento social. A atividade foi apoiada pelo “poder político”. Resultado: a sociedade civil responsabilizou-se, organizou-se, promoveu e participou na iniciativa para apoiar os seus, com a colaboração do poder politico. Não foi o poder politico que realizou a atividade. Foi a comunidade. A iniciativa foi das pessoas e para as pessoas. São elas que importam. É por elas que vale a pena ser bairrista. Eu, sou bairrista.

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Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos. Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos. Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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