“Bagos de uva”, por Armando Fernandes

Foto: DR

No dia de S. Lourenço vai à vinha e enche o lenço reza o anexim. O Santo Lourenço é festejado a 24 de Agosto de cada ano, altura em que nos anos normais as uvas estão em plena maturação, por isso mesmo capazes de enriquecerem as merendas das trabalhadoras e dos trabalhadores de sol a sol e/ou de ver a ver. Horários dilatados, em plena torreira do sol, o calendário rústico escorado na ancestral experiência dos antigos, utilizando a pedagogia do saber/fazendo aconselhava e impunha usanças de bom governo dos parcos teres da grande maioria do denominado povo.

PUB

Encher o lenço tanto podia ser o lenço da cabeça das mulheres, como lenço tabaqueiro de ramagens usado pelos ceifeiros à volta do pescoço a fim de preservar a pele suada, a escorrer em bica, dada a aspereza do corte das espigas, principalmente nas encostas alcantiladas das Beiras, Trás-os-Montes e Minho, porque nas planícies alentejanas e ribatejanas embora a quantidade de suor não diminuísse, nem o número de dobrar das cruzes, a planura concedia algum conforto aos homens e mulheres da foice. O triângulo de lenços, fica completo com o lenço de assoar, mocoso, enrodilhado no bolso dos rapazes dava grande jeito nos «assaltos» nocturnos de uvas observadas durante o dia, especialmente as mais doces, caso das denominadas testículos de galo e semelhantes.

Estou a escrever no presente, revejo imagens do passado, sei bem, quão pouco significam os anexins para a esmagadora maioria dos leitores e, também conheço in loco as enormes alteridades ocorridas no acto de vindimar (vindima nocturna p.e.), transporte para a adega e espaços de escolha e demais tarefas inerentes à sua escolha para serem esmagadas e daí resultarem vinho e/ou consumo nas numerosas variantes das artes culinárias, pastelaria, confeitaria, compotas, sorveteria e geladaria.

PUB

Agora, o progresso científico e industrial eliminou a ancestral usança de se enroscarem camarões nos tectos das salas e neles se pendurarem cachos de uvas que para além de perfumarem e eliminarem odores espúrios das casas conservavam os cachos até pelo menos ao dia de todo os Santos e quadra natalícia.

Os bagos de uva conservados até à podridão amenizavam as dietas de quem as possuía e, no estádio da referida podridão colocavam-se os bagos dulcíssimos entre duas fatias de pão caseiro (broa e centeio) redundando em prazenteira merenda (lanche queria dizer gente mais abonada) das crianças e adolescentes em idade escolar.

PUB

A raposa ante o insucesso de uma incursão em noite escura exclamou estão verdes, não prestam! Teve azar tanto como os ladrões de uvas no Douro corridos a tiros de sal por que os bagos esmagados posteriormente nos lagares por homens em ceroulas representavam sangue suor e lágrimas, pois o sol engarrafado descrito por Alves Redol nas suas obras do ciclo port-wine, dizia cruamente que o País das Uvas livro de Fialho Almeida, não era, nem é para todos.

Passas de uvas, nozes, amêndoas, pinhões e figos secos a sós ou em conjunto proporcionam entradas ou saídas de alto coturno. Se estas delicadezas forem acompanhadas por vinho, vinhos da chancela TEJO, tinto, branco, colheita tardia, licoroso, espumantes filhos de bagos de uvas dão-nos a possibilidade de entoarmos: a vida é bela, nós é que damos cabo dela! Prolongue-a a seu modo.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here