“Azeitonas”, por Armando Fernandes

Há dias surgiu na bancada da cozinha um tabuleiro de louça, fundo, continha (ainda contém) azeitonas reboludas, bem cortadas, melhor temperadas e maturadas. Movido pela curiosidade tirei e provei uma delas. De tal modo bem preparadas que não resisti e degluti mais algumas porque aquele pitéu tinha de ser doseado de forma a possibilitar novos momentos de grácil prazer palatal.

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Enquanto degustava (mesmo de gostar) lembrei-me da adivinha – verde foi o meu nascimento, de luto me vesti…- as leitoras e os leitores de maior idade sabem o resto da quadra, a memória encalhou neste fruto vindo do Oriente, cantado por poetas, discutido por filósofos, citado centenas de vezes na Bíblia, óleo sagrado em muitas religiões, venerando Deus e os Santos no interior dos templos, mesmo antes do advento do cristianismo, óleo de beleza destinado a vivos e a mortos, provindo da oliveira símbolo da paz, é, igualmente tempero de truz nas cozinhas do Ocidente, seja esmagado daí os mil tormentos que padeceu e padece a fim de dar luz ao Mundo e enorme alegria a gourmets requintados e mais rudes, uns e outros amantes do esplendoroso fruto nos vários graus de confecção.

Sim, na enumeração esqueci o seu papel na medicina curativa, na farmacopeia, até na prática de bruxaria, sem querer aborrecer quem me lê sugiro a leitura do Tratado de Pedro Hispano, João XXI, recentemente reeditado.

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Na cozinha popular a azeitona para lá do azeite alegra refeições de todo o género, desde no conceito de entretimento da fúria estomacal até à condição de elemento principal no enriquecimento de recheios, pastas, e acompanhamentos.

As senhoras sabem melhor do que eu, quanto partido económico culinário e de ganho de tempo resultam da mastigação de azeitonas, duas rodelas de cebola, um fio de azeite, duas pitadas de colorau.

Laboriosos leitores: durante séculos as populações oravam ao Senhor por lhe concederem a graça de alegrarem os comeres através de um punhado de azeitonas. Os pobres de pedir ficavam radiantes quando podiam roer um bocado de centeio ou broa cuja dureza ameaçava caninos e incisivos, com azeitonas, pão e vinho, o caminho oferecia menos dificuldades.

Bridão, branco

No copo exibiu brilho num amarelo desmaiado, libertou aromas intensos a cítricos – laranjas e limões – e flor de laranjeira, no palato a frescura, a elegância e boa carnação concedem-lhe virtudes para agradar a gregos e troianos libertos de complexos e bairrismos socavados em preconceitos vindos desde o tempo em os vinhos ribatejanos integravam os lotes destinados ao «império» colonial.

Origem: TEJO. Produzido e engarrafado pela Adega Cooperativa do Cartaxo. Ano de colheita: 2017. Graduação: 13º.

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