“Avós: Raízes e Nós”, por António Matias Coelho

Maria Nunes (1910-2006), minha avó Foto: DR

Se calhar é quando se chega a avô que mais plenamente se entende a importância do papel dos avós no crescimento e na formação dos netos. Porque se é avô agora, tendo sido neto pequenino há muito tempo.

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Homenageando os avós que tivemos e nos marcaram a vida, surge agora um livro que evoca essas mulheres e esses homens, de outra época e de diferentes contextos, de quem fomos netos e que nos ajudaram a ser gente. Chama-se Avós: Raízes e Nós e resulta da iniciativa de três entusiastas – Aida Baptista, Ilda Januário e Manuela Marujo –, a primeira das quais residente no Sardoal, que lançaram o desafio a um conjunto de pessoas, numeroso e bastante diversificado, muitas delas já com netos, para escreverem um texto evocativo de um dos seus avós. Resultaram 58 textos que constituem esta obra coletiva e que, para além de homenagearem tão diferentes avós, apresentam um verdadeiro caleidoscópio de realidades de diversas regiões e contextos socioeconómicos de um Portugal bem diferente do que temos hoje.

O livro, da editora Alma Letra, será apresentado no Jardim-Horto de Camões, em Constância, no dia 5 de setembro. Foto: DR

Um desses textos é meu. Grato às organizadoras pela honra que para mim o seu convite representa, tive, graças a ele, a possibilidade de evocar a minha avó Nunes (1910-2006), mãe da minha mãe, cuja fotografia abre esta crónica. Essa minha avó gostava muito de viver – e viveu muitos anos, quase cem. Com este texto, que a seguir reproduzo, volto um pouco à minha infância e sinto que a minha avó, de certa maneira, continua viva. Porque a gente verdadeiramente só morre quando já ninguém se lembra de nós.

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PARES OU NUNES?

Quando veio ao mundo, nos últimos dias da monarquia, foi Maria o nome que lhe puseram. O padre do registo paroquial acrescentou Nunes que lhe vinha do pai, do avô, do bisavô. As mães, as mulheres, não tinham, nesse tempo, sequer o direito a deixar às filhas o seu apelido de família. E Maria Nunes ficou a minha avó. Nome simples e pequeno como ela.

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O meu avô, seu marido, era José Matias. Capataz de profissão, ia, sempre de colete e barrete preto, ao domingo à tarde à praça de jorna, no centro da aldeia, para contratar braços de trabalho para as terras do patrão e costumava levar-me com ele. Na taberna desse largo, onde se bebia a molhadura, um copo de vinho que celebrava o contrato, era costume os homens jogarem à moeda para entreter o tempo ou desempatar alguma contingência e fazia-se sempre a pergunta sacramental ao estender a mão fechada, que eu, pequenito, achava muitíssimo estranha: pares ou nunes? O meu avô tanto escolhia pares como nunes, umas vezes ganhando e outras não, mas a situação era sempre motivo de risota. Eu tinha a impressão que saía mais vezes nunes, ou então talvez fosse de ser esse o apelido da minha avó – e não entendia por que razão haveria o nunes de vir ao jogo das moedas da taberna da praça de jorna.

O país onde nasci, pouco depois do meio do século passado, era muito diferente do Portugal que temos hoje e de que tanto às vezes nos queixamos. Na minha aldeia, no concelho de Salvaterra, a menos de cinquenta quilómetros de Lisboa, onde já viviam mais de três mil pessoas, não havia luz elétrica, nem abastecimento de água, nem saneamento básico, nem recolha de lixo. Aliás, não havia lixo, porque nada se desperdiçava e o pouco que se fizesse misturava-se com a cama dos animais que se amontoava na parga de esterco que depois se usava para fertilizar a terra. A luz, quando caía a noite, vinha do candeeiro a petróleo e a água era da fonte, trazida pelas mulheres num cântaro à cabeça, ou do poço, quando o havia, tirada a caldeiro e guardada em casa no poial dos potes para se manter sempre fresca.

A minha avó tinha um poço, fundo de dezoito metros que bem conheci por tanta água que, a poder de braços, tirei dele. Em certo sentido, esse poço deu-lhe estatuto. E a mim, indiretamente, também. A escola primária que eu frequentava situava-se a menos de cem metros da casa dela, do outro lado da estrada de terra, e não existia mais nenhuma por ali. Como na escola não havia água, a professora e os miúdos iam bebê-la a casa da minha avó que se sentia rica por isso. E eu era visto por todos como alguém especial por ser o neto da dona da água.

A minha avó ficou viúva muito cedo, na altura em que eu entrei para a escola. Tinha pouco mais de cinquenta anos, mas eu sempre a achei muito velha, no seu corpo pequeno, todo coberto de negro, do lenço da cabeça atado na nuca aos canos com que protegia, no inverno, a parte inferior das pernas. Teve oito filhos, mas só seis vingaram porque um nasceu-lhe morto e outro morreu-lhe com poucos dias de vida. Chamava-se António, como eu. Ou eu como ele. A minha avó falava-me muito desse meu tio que a morte tão cedo lhe roubou. E eu sempre senti que ela, tratando bem todos os meus primos que igualmente ajudou a criar, tinha por mim uma especial afeição, não sei se por ser o primeiro dos netos ou se, por via do nome, lhe fazer acudir à memória esse filho que não pôde ver crescer. Tratava-me com muito desvelo e procurava dar-me alegrias como arranjar-me botões que pudesse dispensar da cestinha da costura para eu jogar no recreio da escola. Não sabia ler nem escrever, mas sabia muito bem o que eram boas maneiras e corria atrás dos netos para lhes pôr pimenta na língua se dissessem alguma asneira.

Era uma mulher de trabalho, cirandando de madrugada até noite escura, cuidando da terra, dos animais, da casa e dos netos que a iam enchendo. Andava sempre descalça. Não era tanto por precisão, mas mais por jeito de estar. Tinha uns sapatos – pretos, claro está – mas levava-os na giga para só calçar à entrada da vila onde se ia aviar. Lembro-me de ir com ela, descalça, ao mercado de Marinhais, a direito por estradas de terra, para comprar ou vender o bezerro que passava meses a engordar e que tinha a meias com quem adiantava o dinheiro de que ela não dispunha para o poder adquirir. Trazia o bezerro para casa, fazia dele boi à sua custa e no final, vendendo-o, tirava do dinheiro que fizesse a importância da compra que devolvia ao financiador, junto com metade do resto. Eu achava aquilo muito injusto.

Viveu muitos anos a minha avó Nunes, quase cem. Apesar das agruras da vida, gostava muito de viver. Tinha extremo cuidado com a alimentação, era muito frugal e comia pouca carne – sabe-se lá se não por força do hábito antigo de ter de passar sem ela. Quando, já a caminho dos noventa anos, se apercebeu da doença das vacas loucas, anunciou que não comeria mais carne de vaca. Ó avó, a doença demora dez anos ou quinze a aparecer nas pessoas… Olhou para cima como se fizesse contas e respondeu, muito séria: Pois, deixa lá, é sempre melhor prevenir…

Há muitos, muitos anos que não ouço a intrigante pergunta que se fazia, quando eu era pequeno, no jogo da taberna da praça de jorna: pares ou nunes? Não sei porquê, mas estava sempre deserto que fosse nunes – que, na minha cabeça de miúdo, queria dizer que a minha avó, mesmo sem jogar, seria ganhadora. Eu sabia muito bem o que nunes queria dizer. O que não conhecia ainda era a palavra ímpar que significa precisamente o mesmo. E que, sei eu agora, tão bem define esta avó que me amparou.

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