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“Atrás de mim virá…”, por José Rafael Nascimento

“A honestidade e a transparência tornam-te vulnerável. Mesmo assim, sê honesto e transparente.”
– Madre Teresa de Calcutá

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Diz o provérbio que “atrás de mim virá quem, de mim, bom fará”. Como muitas outras máximas populares, também esta permite diversas interpretações:
1) Com a passagem do tempo, percebe-se o bem que foi feito e dá-se o valor que não se consegue, não se quer ou não se pode reconhecer agora?
2) A seguir a alguém virá inevitavelmente outro pior, numa sucessão de protagonistas com cada vez menor valor ou menos valorizados?
3) Ou “atrás de mim” se refere, não ao sucessor, mas ao vazio social ou emocional da perda da pessoa sucedida, gerando compaixão?

Todos estes significados, embora legítimos, não constituem uma fatalidade e, muito menos, um facto generalizável. “Atrás de mim” poderão vir outros (muito) melhores e a avaliação que hoje fazem “de mim” pode (e deve) corresponder à realidade, tornando injustificável a mudança de opinião sentenciada pelo provérbio. E, se o Mundo está num plano inclinado, esta obliquidade não tem necessariamente de ser para baixo ou pior, sendo desejável (e possível) que evolua para melhor (embora, geralmente, evolua para diferente, o que dificulta a comparação…).

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Mas este não é o principal problema. O que nos deve seriamente preocupar é a razão pela qual não se consegue, não se quer ou não se pode avaliar alguém com realismo ou objectividade, no tempo presente. Sobretudo onde e quando a liberdade e a transparência são exaltadas. Se é da natural condição humana necessitar de distância – espacial e temporal – para perceber a realidade com maior e suficiente discernimento, já a capacidade de compreensão, o poder da vontade e o ensejo da possibilidade dependem de condições sociais e culturais que os indivíduos estabelecem em grupo ou em sociedade.

Aqui chegados, importa enunciar a máxima que, embora não existindo como provérbio, caracteriza bem as relações de dominação em sistemas autoritários: “atrás de mim virá quem, de mim, mau fará”. De facto, quantas vezes observámos já indivíduos e grupos a venerar alguém que, depois de substituído, passou a ser vilipendiado? E, entre esses indivíduos e grupos observados, não se encontram muitos dos que observam, como se mirassem um espelho que lhes devolve a imagem que não querem reconhecer?

“A inveja é magra porque morde, mas nunca come.” – Provérbio espanhol. Ilustração de Serge Bloch

Pondo de lado a moralidade associada ao sentimento de perda, quedemo-nos no racional da avaliação e responsabilização de quem exerce, no presente, altas funções institucionais. Ao observar o seu desempenho e resultados, estaremos a ser objectivos, justos e honestos para com a nossa consciência e o nosso dever cívico? Ou, por vezes sem conta, teremos de esperar pela partida e substituição de quem exerce tais funções, seja para lhe reconhecer o mérito, seja para lhe “descobrir a careca”, nele projectar motivações reprimidas ou dele fazer conveniente “bode expiatório”?

Lamentavelmente, muitos continuarão a correr atrás do prejuízo, sempre a acertar no diagnóstico e na solução quando o problema já não existe. É o medo, Senhor! E é também, obviamente, o oportunismo egoísta e a pressão do grupo de pertença, quer esta exerça sobre o indivíduo uma coerção – seja ela real, suposta ou temida –, quer lhe ofereça uma recompensa com os mesmos atributos ou qualificativos. Há demasiados espíritos desalmados, mentes desopinadas e consciências descivilizadas nas selvas humanas onde se procura a todo e qualquer custo sobreviver, e onde até os anjos e a esperança servem para expiar e branquear responsabilidades alheias.

“Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu”, diz o povo, enquanto aqueles que pediram e serviram tentam desesperadamente ofuscar o passado. “Olhemos para a frente, para o futuro”, dizem eles, “o passado não interessa, o que está feito, está feito, não se pode (ou deve) mudar o passado”. Como afirmei em crónica anterior, “a intenção de branquear o passado e eximir-se à responsabilidade […], é como querer esconder o longo pescoço da girafa com um vistoso cachecol, deixando-o todo a descoberto. Além do ridículo da pretensão, ainda o cachaço do mamífero poderá ser esganado pelo aperto da echarpe”.

Tenho, para mim, que cada um deve temer apenas a consciência que a Providência lhe facultou e responsavelmente (ou não) ampliou. Que cada um deve preservar a sua individualidade e dignidade em cada grupo a que pertença, pensando pela própria cabeça. Que cada um deve valorizar a responsabilidade cívica que tem, pelo menos tanto quanto valoriza a pessoal e a familiar. Que cada um deve ter o discernimento e a humildade de reconhecer e ponderar, objectiva e atempadamente, as qualidades e os defeitos dos outros, sem se sentir humilhado por aquelas ou sublimado por estes. E que, como sugeriu George Orwell em Shooting an Elephant, caia a máscara a quem a cara cresce para se ajustar a ela.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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José Rafael Nascimento
José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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