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Sábado, Julho 24, 2021

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“Até p’ró ano…”, por Pedro Marques

Esta época do ano é tradicionalmente dada a balanços. No Natal estamos em família, tradicionalmente em família, maioritariamente em família, embora algumas pessoas vivam em solidão ou isoladas, sem familiares de sangue por perto ou porque decidiram fazer uma comemoração distinta do Natal. Em todo o caso é altura para a maioria de nós estar em família, rever amigos de longa data, trocar presentes e afetos, sorrir e dar abraços, estar perto e ajudar, agradecer.

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Chegamos ao fim de ano e antevemos logo um ano seguinte que tem de ser sempre melhor do que o anterior. Nas redes sociais muitos amigos e conhecidos pedem um ano a sério, com esperança e saúde, considerando que 2015 foi um ano péssimo. A alguns ouvi o mesmo em 2014 e 2013 e talvez até em muitos anos anteriores.

As pessoas tendem a ser pessimistas ou apenas usam este silogismo como cliché, a partir de uma dedução básica? Creio que o fazem recorrendo abusivamente ao silogismo simples: Ano Novo, vida nova e Ano Velho, frustração e desilusão para trás das costas.

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Posso então deduzir que se trata de um silogismo irregular da categoria dos entimas, isto é, baseado numa premissa subentendida. Ainda que improvada ou apenas alardeada como blague estratosférica, ainda que pouco espirituosa, ainda que improvada. Porém, depois de falarem com tristeza sobre o terrível ano velho as pessoas ainda esboçam um sorriso, já a pensar no ano que vai entrar, e rematam com o tradicional “que venha com saúde que é o mais importante!”, a que alguns acrescentam votos de “haja paz!” e outros pedem ainda “uns dinheirinhos p’ra gastar”.

Mas, se formos a ver bem, todos os anos têm episódios marcantes pela positiva e pela negativa. Não há anos absolutamente bons, nem anos absolutamente maus. As coisas raramente (na prática nunca mas convém sempre deixar um espaço para as probabilidades estatísticas) são absolutas. E cada vez mais vemos atitudes, pensamentos, medidas que roçam o absolutismo. Há um elemento da minha família que tem o costume de sublinhar o absolutismo dos valores em que acredita e das realidades que conhece. A melhor série do mundo, para ele, é “Os Sopranos” e para a qualificar diz que “há «Os Sopranos» e depois há tudo o resto”. E outras coisas assim. Para ele há aquilo me que acredita e há, depois, “tudo o resto”.

Sou cada vez mais um adepto da relativização. Haverá poucas pessoas absolutamente religiosas e poucas absolutamente agnósticas. Os limites do “absoluto” são, para mim, cada vez mais questionáveis.

Por isso o ano que aí vem, neste caso será 2016, será bom na medida em que nos proporcione alegrias, conquistas, bem-estar, qualidade de vida, desenvolvimento pessoal contínuo, relações afetivas. Para uns será ainda o ano que poderão voltar a ter um emprego, ou um filho, ou uma viagem há muito sonhada, ou um bem material desejado. Para outros será, inevitavelmente mau porque a doença lhes chegará a si ou aos seus, um ente querido poderá partir desta vida, um acidente poderá acontecer, o desemprego pode chegar.

A rosa que exala perfume também tem os espinhos que nos afetam. Nem tudo será mau, como nem tudo “será um mar de rosas”.

A alegria da vida consiste nesta aceitação das coisas como elas se nos deparam e nos atos que tomamos em mão para que façamos conveniente e competentemente bem feitas as coisas para podermos sorrir de alegria, conforto, reconforto e superação. Não nos podemos aquietar em demasia mas também não convém sermos ansiosos e intrépidos e resolutos em excesso. Há um ponto de equilíbrio e compete a cada um de nós encontrá-lo e tê-lo presente no dia-a-dia. Para que o ano novo entre com toda a força nas nossas vidas e possamos, daqui a um ano, estar em condições de sorrir no balanço do, então, ano velho.

Parece simples assim escrito. E é, podem crer. Vamos todos esperar que 2016 seja o resultado de múltiplos fatores, como o destino, a sorte, o acaso, mas também de fatores que dependem de nós, das nossas atitudes, das nossas ações.

Espero que seja um ano bom. Para todos, recorrendo a um cliché mesmo para terminar. Até p’ró ano!

 

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

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