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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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Até já Bioucas!, por Pedro Marques

Na passada segunda-feira fomos confrontados com a partida do Engº José Bioucas para a chamada “morada eterna”.

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Julgo ser lícito dizer que o Engº Bioucas era um bocado património de todos nós, mesmo dos seus adversários políticos, que os teve na altura da sua participação cívica.

Não acompanhei todos os seus mandatos com o mesmo grau de detalhe mas fui crescendo com o Engº Bioucas como Presidente de câmara da minha terra, do meu concelho. E depois fui descobrindo a pessoa e compreendendo que havia ligações fortes, fundadas na proximidade e no trato afável, entre o Engº Bioucas e a sua comunidade.

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Quando a minha mãe foi para a Escola Industrial e Comercial de Abrantes, com 10 anos de idade, já ele era professor e manteve o tratamento carinhoso para com a minha mãe até aos dias de hoje. E para comigo também, sempre.

Quando eu militei na JSD, certa noite, ao colar cartazes nas paredes (sim, éramos nós, os militantes, quem colava os cartazes e fazia a cola, em baldes que “levedavam” da noite para o dia), na avenida 25 de Abril, passou o Engº Bioucas e, saindo do carro, veio ajudar-me a meter cola e a colar cartazes do PPD/PSD. Estranhei mas ele lá me contaria, depois, que o seu partido foi sempre o de Sá Carneiro e que acabou no PS com independente mas tinha frequentado a sede do PSD após a fundação do partido, no rescaldo do 25 de Abril. Apreciei a sua atitude. Era eu pouco mais que um garoto.

Mais tarde, já dirigente local da JSD (mas ainda um bocado garoto), assisti ao debate no auditório da Santa Casa da Misericórdia de Abrantes, o famoso debate onde o Engº Bioucas tinha o “programa na cabeça” e que ajudou a que perdesse as eleições para o Dr Humberto Lopes. Desses tempos recordo-me muito bem e com grande detalhe. Fui eleito para a Assembleia Municipal e participei em todos os momentos da campanha. Tinha, na altura, 21 anos de idade.

Mais tarde, bastante mais tarde, soube a forma como o Engº Bioucas chegou a Presidente da Câmara Municipal, primeiro na Comissão Administrativa e, depois, como presidente eleito.

Foi após o 25 de Abril e eram necessários “homens bons” para assumirem o poder local e ajudarem na democratização do país, a par com a necessidade de dar um impulso ao desenvolvimento, ainda numa fase muito básica, começando mesmo pelo mais premente, o saneamento básico.

Foram vários os membros dessa primeira Comissão, formada em Maio de 1974, nomeadamente Francisco Semedo, Afonso Campante, Abílio Monteiro, Manuel Dias, Mário Pissarra, João Camarinhas dos Reis e José Vasco.

Abílio Monteiro e Mário Pissarra acabariam por sair para dar lugar a José Bioucas e José Graça Vieira, tomando todos posse em Julho de 1974.

Só no final desse mesmo mês de Maio a anterior Câmara Municipal de Abrantes, liderada pelo Dr Esteves Pereira, apresentaria o seu pedido de demissão. Recorde-se apenas que o Engº Bioucas só passou a dirigir a Comissão Administrativa em Maio de 1976, após a demissão do Dr Semedo e do Dr José Vasco.

A história que ainda está por contar é saber quem indicou o Engº Bioucas para integrar a Comissão Administrativa e viu nele um “homem bom” e um democrata, moderado, não radicalizado à esquerda e capaz de se entregar à sua comunidade, fazendo consensos e agindo com probidade e dedicação.

Essa parte da história, um dia mais tarde, quando obtiver autorização para o fazer publicamente, fá-lo-ei. Porque conheço bem quem o foi abordar à sua oficina, onde hoje está instalado o concessionário da Citröen e as bombas de combustível da Galp, na avenida das Forças Armadas. É uma história que está circunscrita a uma meia dúzia de pessoas, uma dúzia se tanto…

O que recordo do Engº Bioucas é a sua simplicidade, a sua proximidade, a sua boa disposição, o seu sentido social e humanista, a sua humildade. Acompanhei depois a sua obra no CRIA, em Alferrarede, já após a saída de Rio de Moinhos (sim, o CRIA não foi sempre no Olho de Boi, Alferrarede). Acompanhei e vi crescer a obra física e depois, a obra social.

À medida que os anos passam e vemos partirem os que connosco privaram vamo-nos questionando se tem mesmo de ser assim… E vamos passando a ser, lentamente, pessoas com depósito de memórias que, de vez em quando, decidimos partilhar, em jeito de história vista pelo nosso prisma.

Até parece que foi há dias que em cima do carro dos bombeiros, em direção a incêndios, ou nos carros do lixo, aquando das greves, alguns de nós ainda têm na memória a imagem do Engº Bioucas a liderar o serviço à comunidade. E a viver sempre no mesmo sítio, no Largo de San’Ana (até se mudar para a quinta), no mesmo largo onde acabámos de velar o seu corpo, apresentar condolências à família e, sobretudo, prestar-lhe a última homenagem.

Vou ter saudades suas Engº Bioucas.

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

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