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Sábado, Janeiro 22, 2022
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“As Persistências da Memória”, por Aurélio Lopes

Problemática que envolve as questões de investigação nas ciências humanas é aquela que respeita à questão das possíveis sobrevivências socioculturais, remontando (com configurações semelhantes e funcionalidades análogas) a centenas, se não milhares de anos, algumas desde tempos pré-cristãos.

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Até que ponto tal é possível; principalmente em situações em que as mesmas forem sujeitas a violentas e continuadas interdições e perseguições?

Ora, a persistência milenar de tradições e costumes é algo que, muitas vezes, nos surpreende. Passam sistemas religiosos e civilizações, estruturas políticas e administrativas e o modo de certas maneiras de fazer as coisas, ultrapassa tempos e poderes. Fazendo persistir, contra ventos e marés, insólitas ações mais ou menos ocultas.

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Principalmente quando se tratam de padrões culturais individuais e intimistas (não públicos e coletivos) e em que o caráter de rigor no conteúdo e na formulação são vistos como essenciais para a respetiva eficácia. Quando se tratam de elementos transcendentais e cujas funcionalidades persistem no tempo.

É o caso de um estranho e complexo cerimonial exorcista, usual ainda em meados de oitocentos na noite do Iº de Maio, em que à ação ritual de rejeição do ignoto maléfico, se moldou o nosso inconsciente coletivo. Feliciano de Castilho (A Primavera, 1837; 320-322),  fala-nos de mecanismos em que se aliavam vetores purificatórios e regenerativos da água e das plantas e, ainda, explícitas proclamações esconjuratórias.

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À meia-noite (tempo preciso de inflexão) levanta-se o pai de família e vai, calado, cheio de terror santo e descalço até à fonte, dando por todo o caminho amiudados estalos com os dedos {ato exorcístico} para afugentar os génios maus. Lava aí, três vezes, as mãos [simbolizando a purificação e o abandono da realidade passada, gasta e corrupta] e volta depois para casa, atirando desta feita, por cima da cabeça e para trás de si (ação ritual de rejeição) favas pretas, de que traz a boca cheia, enquanto vai dizendo:

– “Com estas favas me resguardo, a mim e aos meus”.

Repete isso nove vezes {número arcano}, sem olhar para trás {atitude implícita de rejeição} para não espantar o espectro que, acredita-se, vem apanhando as favas. Chegando a casa, bebe água, uma ou duas vezes (impregnando-se da virtude benfazeja da mesma nessa noite) após o que bate com os dedos num vaso de bronze (ação esconjuratória) e, para conjurar a sombra a largar-lhe a casa, proclama (novamente) nove vezes;

– “Saí! Ó manes paternos!”

De facto, se procurássemos um exorcismo popular que representasse de forma evidente os cuidados a ter com a proteção de pessoas e habitações, nessa noite inquietante pela ambivalência de um sacralismo prodigioso mas terrível, dificilmente encontraríamos algo mais adequado!

Curiosamente, este ritual surge-nos como praticamente igual a um outro (Ovídio, Faustos, v.) que nos chega do fundo dos tempos, mais precisamente dos antigos cerimoniais das “Lemurias”; realizados na antiga Roma em inícios de Maio, nos primeiros séculos da nossa Era.

Constituía, aliás, o cerne operativo das referidas festividades, desenvolvidas com objetivos explícitos de esconjuração dos “lémures” ou, dito de forma mais prosaica, dos fantasmas dos mortos.

Aí, também o chefe de família, saía de casa descalço, de noite, indo até uma fonte, onde lavava as mãos, após o que, “voltando a cabeça, lançava feijões ou favas para a noite” dizendo:

– “Com estas favas me resgato a mim e aos meus!”

Pronunciava esta fórmula nove vezes, sem olhar para trás, enquanto os “lémures” que, segundo se acreditava o seguiam, apanhavam os grãos. Então, o celebrante, purificava mais uma vez as mãos, batia num objeto de bronze e gritava, de novo, nove vezes;

– “Sombras dos meus antepassados, ide-vos embora!”

Tão singulares semelhanças permitem afirmar, sem grande risco, tratar-se do mesmo cerimonial, cuja configuração o passar dos séculos, paradoxalmente, pouco transformou!

Ritual arcano, que milénios de mudança cultural e civilizacional não fizeram olvidar e quase não alteraram, a não ser nas entidades consagratórias, transmudadas de “lémures” em “manes”, estes últimos, objeto, em Roma, de importantes manifestações culturais familiares.

A crescente estigmatização cristológica dos espíritos dos mortos, de alguma forma desenvolvida pela Igreja, terá ajudado a transformar os mesmos em algo maléfico, levando assim à adoção de um ritual exorcista dirigido aos “lémures” (entidades particularmente perigosas contra as quais se tinha, precisamente, de proceder periodicamente a rituais esconjuratórios), fundidos agora, por redutismo demonológico, nos mais benévolos “manes”, que com aqueles partilhavam, todavia, óbvias semelhanças.

Deixemos, aqui, outras considerações conceptuais, para salientar este fenómeno como paradigma inquestionável de uma impressionante capacidade de resiliência.

Cuja natureza (entenda-se contextualização, configuração ritual e funcionalidade) persistiu no tempo quase intocável, de forma comprovada e durante mais de milénio e meio de anos!

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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