“As mulheres e a sociedade”, por Vânia Grácio

Já todos e todas nós reparámos que existem publicidades que transmitem a imagem que a sociedade tem sobre o papel da mulher e do homem. É comum vermos anúncios para detergentes de roupa, ou de limpeza da casa, onde aparecem mulheres extremosas, cuidadoras dos seus lares, a exemplificar como se executa a tarefa e quão simples e com resultados positivos fica se usarem determinada marca.

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Já os anúncios onde aparecem homens são geralmente para fazer tributo à sua esplêndida condição física, conseguida com muitas horas no ginásio. Tenho dado maior atenção, mais recentemente, a desenhos animados e musicas infantis. É curioso, como a imagem da mãe cuidadora e do pai brincalhão e inteligente passa para as crianças desde o berço. As princesas dos desenhos animados são sempre esbeltas e anseiam pelo seu príncipe encantado que as virá salvar. Há as madrastas más que obrigam as meninas às tarefas domésticas e outras que invejam a sua beleza e por isso as condenam.

São estas mensagens que passamos às crianças e que vai fazendo com que a opinião da sociedade sobre o papel do feminino e do masculino se vá mantendo, no negativo para as primeiras.

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Também é comum o sexo masculino considerar que pode assobiar, “mandar um piropo”, ou mesmo agarrar à força uma mulher, apenas e só porque sim. É que ela até estava a pedir, porque vestia uma saia curta, um decote mais “sedutor”, estava maquilhada, ou de cabelo arranjado. Portanto “o que ela queria sabe ele”.

Em Portugal, em particular, e na Europa em geral, cerca de um quarto dos cidadãos considera aceitável que ocorram violações de mulheres. Um estudo feito pelo The Independent (jornal britânico) revela que um quarto dos europeus acredita que violações podem ser justificadas nalgumas situações, nomeadamente situações como estar sob efeito de drogas ou álcool, usar roupas “reveladoras” ou até ir para casa sozinho com o atacante.

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Este é o resultado da sociedade que todos nós construímos diariamente, quando são as mulheres a executar as principais e a maioria das tarefas domésticas, a serem as principais cuidadoras dos filhos e a acumularem tudo isto com a jornada de trabalho. Juntamente com a imagem de que as mulheres devem ser recatadas, discretas, não se exibirem, e terem de se sujeitar aos desejos do sexo oposto.

Isto é muito mais do que diferença de género, é uma injustiça e até mesmo uma violência para com as mulheres. É grave que em pelo seculo XXI, ainda tenhamos um quarto da população europeia com estes pensamentos e que defendem que qualquer tipo de ação que viola os direitos das mulheres pode ser aceitável, se elas não “se derem ao respeito”. Como se ELAS, não tivessem o direito de vestirem o que quiserem, de estarem onde quiserem, de fazerem o que quiserem.

Comecemos hoje a mudar estas mentalidades. Desafio os homens a fazerem o exercício de olharem para as suas filhas/netas, e de pensarem como gostavam que o namorado/marido/ qualquer outro homem olhasse para elas e como gostariam que ele(s) a tratasse(m). Será o ponto de partida para a mudança.

 

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Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos. Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos. Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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