“As minhas memórias do Meu Avô”, por Vera Dias António

Foto: Vera Dias António

Quando comecei a recolher e contar histórias de vida o meu Avô já não tinha grande capacidade para conversas. E isso mói-me a alma até hoje. Porque adorava contar a sua história pelas suas memórias. Não podendo, deixo as minhas memórias do meu Avô.

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O Meu Avô será sempre o meu herói. O Meu Avô tem muito do meu pensamento em si, nele, em tudo o que de mim lhe fui buscar, em todas as (tantas) memórias felizes.

O Meu Avô fez-se! A si, e à sua vida. E dizia, para que ninguém tivesse dúvidas, que fez a vida com as suas mãos. Porque o fez, efetivamente.

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O Meu Avô foi carpinteiro. E agricultor. E marido. E pai. E avô. E bisavô!

O Meu Avô foi o único que tive porque o meu pai perdeu o pai dele muito novo. Mas eu acho… eu sei, que o meu pai adoptou o pai da minha mãe. E que o meu Avô adotou o meu pai.

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O Meu Avô casou com a miúda mais gira da zona. A única irmã rapariga de 6 rapazes, foi preciso coragem. O meu Avô teve 2 irmãos e 3 irmãs. Só lhe conheci as irmãs e sei que o estimavam muito. E vice-versa!

O Meu Avô quando casou partiu para Lisboa, com 20 contos no bolso, à procura de uma vida melhor. O Meu Avô arranjou um sócio e dedicaram-se às obras. O Meu Avô fazia os trabalhos de carpintaria. O Meu Avô construiu casas.

O Meu Avô tinha uma Vespa azul com que vinha a Mação regularmente. Em abril de 1974 tinha vindo a Mação, voltou a Lisboa exatamente no dia 25 e quando entrou em casa estava a minha avó em ânsias, que lhe tivessem feito mal, porque só se falava na revolução. O meu avô não deu por nada.

Após o 25 de abril o meu Avô regressou a Mação. E é daqui que lhe tenho memória.

O Meu Avô cavou e plantou vários terrenos, incluindo o olival no terreno onde construímos casa e vive a minha família. 70 oliveiras que o meu avô, com o meu pai, plantaram há 40 anos e que no ano passado se safaram do fogo quando tudo à volta ardeu.

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Quando a minha mãe estava para casar a minha avó andava arreliada que o enxoval da miúda não estava completo. O meu avô pegou no trator, sim, daqueles grandes, com uma grande carroçaria e foi à Fábrica Mirrado comprar cobertores. Chegou a casa com o trator cheio de cobertores e, pela parte que lhe dizia respeito, o problema estava resolvido. Ainda há cobertores desses em casa da minha mãe.

A minha avó nunca trabalhou fora de casa mas nunca lhe faltou dinheiro para nada. O meu avô dava-lhe o dinheiro e a gestão das contas e ela fazia-o de forma rigorosa. A minha avó sempre foi (e é) mais forreta do que ele.

O meu Avô tinha vacas quando eu era miúda. Depois passou para um rebanho de cabras. Mais os porcos, coelhos, galinhas e tantos animais que criou. Os dias em que, ano após anos, reunia a família para a matança dos porcos serão dos dias mais felizes que guardo na memória. Não pelo propósito mas pela festa que se fazia. Era tão bom!

Lembro-me, por outro lado, de quando as forças lhe faltaram e o rebanho se tinha já reduzido a duas cabras mas tiveram que as vender. Lembro-me do camião que veio buscar as cabras e do olhar triste do meu avô, formou-se ali uma névoa que nunca mais saiu. Ele sabia que era o princípio do fim. Sabíamos todos.

O Meu Avô nunca fumou e apanhou umas 3 bebedeiras, de cada uma ficou uma história. Numa delas, no casamento de um sobrinho, pegou na minha avó e foi comprar uma arca frigorífica que ela andava a reclamar. Na loja disse ao senhor que precisava de uma arca grande para se deitar quando tivesse calor. Isto não é nada o Meu Avô.

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O Meu Avô nunca teve carros de jeito. Por norma tinham falhas de travões. Conheci-lhe apenas 2 carros. O Renault 5 azul, daqueles que abanavam muito, em que aprendi a conduzir e com o qual fiquei várias vezes parada em STOP’S porque o carro “afogava” e tinham que me empurrar… O problema talvez não fosse só do carro. O melhor carro que teve foi o último, apesar dos 2 pregos (sim, 2 pregos…) que o meu avô espetou no retrovisor esquerdo quando, a fazer marcha atrás, quase o arrancou ao bater na porta da garagem. Os pregos ficaram anos a segurar o retrovisor. E isto diz tanto do meu avô.

O Meu Avô odiava que o ultrapassassem na estrada. Se o ultrapassavam ele não descansava enquanto não voltasse a ultrapassar o atrevido. A minha mãe diz que os percursos Lisboa-Mação e Mação-Lisboa eram viagens agoniantes em que não viam a hora de chegar. Há tantas histórias…

Uma vez um polícia mandou-o parar. Travão a fundo e o carro percorreu mais uns quantos metros. A pergunta óbvia do polícia foi “então esses travões?” ao que o meu avô respondeu “um espetáculo, Sr. Guarda”. O polícia tentou dar-lhe uma hipótese e mandou-o por o carro numa descida. Saíram do carro a minha avó, a minha mãe, o meu tio e a minha bisavó. Tiraram as malas do porta-bagagens, uma bilha de azeite, batatas e cebolas. Puseram o carro a descer e ele… lá foi. Ficaram todos, a família, as malas, a bilha do azeite, as cebolas e as batatas ali, na beira da estrada, até que o meu avô foi a uma oficina que o polícia lhe indicou arranjar os travões, ou não o deixava seguir viagem!

O Meu Avô tinha tal relação com os carros que uma vez, noutra história-memória, depois da Páscoa e de volta a Lisboa, a minha avó estava a dar uma amêndoa a um dos filhos e o meu avô voltou-se de repente para roubar a amêndoa. Seria ternurento e engraçado mas o meu avô quando voltou a cara, voltou o volante e ficaram espetados numa barreira.

O meu avô tinha umas casas e uma loja em Lisboa e, enquanto pode, ia todos os meses a Lisboa buscar as rendas. Era sempre um dia de agonia para a minha avó. Porque o meu avô, carros e viagens… já se percebeu. Num desses dias lembro-me de se ter feito tarde e ele sem aparecer. A minha avó já em pranto, fez-se noite e nada, nós já todos na casa dos meus avós, tudo à janela a temer que chegassem notícias do pior. Apareceu ao longe um carro sem luzes e alguém terá resmungado um “que palerma”. Até que o carro chegou mais perto de casa e… sim, claro que era o meu avô. A meio caminho de Lisboa quis escurecer e quando foi para ligar as luzes, nada… Mas não parou, fez a outra metade da viagem, enquanto escurecia e já no escuro, sem luzes. E tinha chegado bem, não tinha?! Assunto encerrado.

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Além de teimoso o Meu Avô tinha um bom sentido de humor. Quando se terminava uma refeição e os pratos eram levados da mesa perguntava sempre à minha avó “o que é o comer? estou cheio de fome”. Quanto mais conhecíamos a piada e mais sabíamos que a ia dizer, mais graça lhe achávamos. Até porque a minha Avó lhe respondia sempre mal, que era o que o divertia.

O Meu Avô odiava pão de milho, que era só o que comia em miúdo e fartou-se. O lugar à mesa do meu avô era sempre o mesmo e ainda hoje o é… e eu olho sempre para lá quando entro na cozinha da minha avó.

Um dia o meu Avô agarrou na minha avó e foram ao Brasil visitar a irmã dele que lá tinha feito vida. Queria ver onde ela vivia, mais os sobrinhos e os filhos destes. Fartou-se de reclamar da comida mas ninguém lhe terá levado a mal porque era difícil levar-lhe algo a mal. Na casa dos meus avós há um quarto que é o quarto dos brasileiros, para quando nos visitam.

O meu avô tinha os barracões no terreno atrás da casa e havia ali sempre uma vida imensa. Uma vida guiada pelas culturas. O milho, as uvas, a azeitona, as batatas…

Uma vez o meu avô, ao entrar com o trator no barracão, bateu de lado e a parede ficou com uma enorme rachadela em cima. O meu avô foi buscar uma trave de cimento enorme e pô-la contra a parede a segurá-la. Se alguém lhe dizia alguma coisa respondia “fui eu que fiz a parede por isso posso parti-la”. Isto é tanto o meu avô. O mais incrível é que a trave ainda lá está a segurar a parede.

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O Meu Avô comovia-se, especialmente no fim da vida, com uma rapidez incrível. O Meu Avô comoveu-se quando recebi carteira profissional de jornalista, porque sabia que era um desejo muito grande que eu tinha. Ainda a guardo na carteira (já desativada mas até um dia) e a melhor memória que lhe associo é essa.

O Meu Avô dizia sempre que eu o fiz “Avoar” porque o fiz avô. O Meu Avô dava-me laranjas milimetricamente descascadas só pela capinha cor-de-laranja e dizia que a camada branca entre a casca e os gomos me fazia bem. Sabia-me mal mas eu comia-a! Não tenho a certeza se me fazia bem. Mas ele dizia que sim e eu acreditava.

Umas semanas depois de eu nascer os meus pais foram passar o fim de semana a casa da minha Avó paterna. No domingo o meu Avô não aguentou e foi com a minha Avó lá ter, que estava cheio de saudades. A distância entre as casas dos meus avós era de 8 quilómetros…

Esta memória, que não é minha mas que me contaram muitas vezes enquanto eu crescia diz muito sobre o meu Avô!

O Meu Avô ficou doente há 12 anos. O corpo começou a falhar-lhe. Numa procura de respostas, depois de vários médicos percebeu-se que aquela perda de força, aquela perda do seu ser mais físico se devia a Parkinson. O Meu Avô revoltou-se. Falhavam as forças mas tinha a cabeça tão cheia de ideias e energia e vontade.

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O Meu Avô definhava diariamente. Depois nasceu o meu 1.º filho, que ganhou o nome do pai do Meu Avô e eu sei que ele deu nova hipótese à vida.

O meu Avô morreu-nos há 3 anos, no dia dos anos do meu filho mais velho, fosse qual fosse a mensagem que queria deixar… isto é tão o meu Avô!

O meu avô era um homem pequeno, mais baixo do que a minha avó. Mas era enorme. Para mim era um gigante. Talvez por isso ainda hoje, quando falo com ele, olho sempre para cima!

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