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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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“As Mães que não se sentem bem”, por Hália Santos

Este não é um tema fácil. Uns dias depois de se ‘comemorar’ o Dia do Pai, apetece falar sobre a Mãe. Mas aquela Mãe de que muito poucos falam, aquela que não encaixa nos estereótipos. Seja porque não sente a Maternidade como a sociedade lhe diz que deve sentir, seja simplesmente porque é diferente. Porque das ‘perfeitas e melhores Mães do mundo’ estão as redes sociais cheias. E, no próximo dia agendado no calendário para a conveniente celebração, voltarão a ser homenageadas pelas criaturas que geraram e que se sentem na obrigação de as enaltecer, numa espécie de concurso público que se poderia chamar ‘a minha Mãe é melhor do que a tua’.

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Comecemos pelo princípio. Quando a minha filha nasceu, fui ‘mostrá-la’ no local de trabalho, como manda o protocolo da Mãe perfeita, socialmente integrada no seu novo papel de ser como as outras. Presumo que deva ter vestido a criança com a roupinha que achei que lhe ficava melhor, talvez para tentar entrar na estúpida competição de ‘o meu bebé é mais lindo do que o teu’. Não sei se o fiz ou não. Daqueles dias a seguir ao parto não restam muitos pormenores. Se fosse hoje, sei que não a levaria e muito menos me preocuparia com a roupa. Mas para tudo é preciso viver. Até para sabermos que tipo de Mãe somos.

Nesse dia da apresentação pública, alguém que eu conhecia há pouco chamou-me à parte. Aproveitou o momento em que todos (ou melhor, todas) apreciavam a pequena criatura que tinha saído de dentro de mim. Era uma mulher pouco mais velha do que eu, mas experiente na Maternidade. Palavras sábias aquelas, que me acompanharam, e bem, ao longo destes 15 anos: “Se algum dia te apetecer atirá-la pela janela fora porque já não aguentas mais, é normal! Acontece a todas as Mães, mas nenhuma te vai dizer.”

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Só com o passar do tempo é que fui percebendo a importância daquelas palavras. E quanto mais tempo passa, mais vejo Mães e Pais desorientados, porque este papel, quando levado a sério, os consome até à medula. Portanto, num determinado momento de desespero, ter vontade de atirar a criança pela janela é uma coisa que acontece. E não corresponde a falta de Amor. Acontece. Ponto. Como também acontecem coisas maravilhosas.

É fantástico sabermos que aqueles pequenos seres são criações nossas, verdadeiros milagres da nossa Natureza, que nem mesmo nós sabemos como fomos capazes de conceber. É, de facto, uma sensação única a de ver e tocar, pela primeira vez, aquele ser pequenino, que nos emociona só porque existe. É indescritível o momento em que começam a falar, a andar, a ler e a cantar, sempre com a nossa ajuda. É, de facto, maravilhoso. Para muitos de nós, Mães (e Pais). Mas a maioria das Mães (e dos Pais) não tem só estórias destas para contar. O problema é que nem conseguem verbalizar as outras estórias, porque a pressão social é imensa. Demasiado dura para quem só desejou ter uma Maternidade (ou Paternidade) tranquila que não consegue alcançar.

Nos últimos tempos começaram a surgir notícias e reportagens sobre mulheres que se arrependeram de ter sido Mães. Não é preciso referir a coragem que tiveram que ter para falar sobre estas coisas. Mas a verdade é que não é qualquer uma que assume que, afinal, a Maternidade não foi aquilo que imaginou. Dizem-nos, as notícias, que 5% das Mães preferiam não ter tido filhos. Há, de facto, mulheres que não têm instinto maternal. Podem providenciar tudo aquilo de que os seus filhos necessitam, mas falta-lhes qualquer coisa. E, quando começam a comparar o que sentem com os discursos que colocam a Maternidade nos píncaros, sentem-se culpadas.

Mesmo as Mães que têm o instinto que a sociedade – aquela que está sempre a espreitar por cima do nosso ombro – lhes diz que têm que ter, mesmo essas acabam por ter verdadeiros momentos de desespero. Há mulheres que não dormem mais do que duas horas seguidas durante anos a fio. Há miúdos que estão constantemente doentes. Há famílias em contínuo desespero para tratar de tudo o que as crianças precisam. E nada disto é fácil. Muito menos é maravilhoso. Por muito que estas Mães amem os seus filhos, é perfeitamente aceitável que se questionem sobre a opção que fizeram. E não, não basta dizer que deveriam estar preparadas para tudo! Não é assim.

Se às vezes apetece, de facto, mandar as crianças pela janela fora, também apetece gritar ao mundo que as mulheres não são todas iguais. Se há mulheres que tiveram o privilégio de ter a tal Maternidade tranquila, muitas outras não o tiveram. Por variadíssimas razões, desde a falta de instinto maternal até à falta de ajuda no próprio seio da família. Quem tem o direito de as criticar? Sobretudo quando continuam a desempenhar o seu papel, o melhor que podem e que sabem. Quem tem o direito de se espantar com as Mães que não sentiram aquele Amor automático que muitas mulheres descrevem quando viram os filhos pela primeira vez?

Não se questiona o verdadeiro Amor de Mãe. As Mães que se apaixonam pelos filhos desde o primeiro momento e que são verdadeiramente felizes em cada momento do dia existem e são, de facto, maravilhosas. Emocionam na sua condição de Mãe. Mas as outras, as que não conseguem ser assim, por razões que não conseguem bem explicar, não podem ver o seu sofrimento aumentado por um conjunto de estereótipos.

Se estar grávida, dar à luz e dar de mamar foram as melhores experiências que muitas e muitas Mães tiveram na sua vida, há mulheres para quem a gravidez foi um tormento, para quem o parto foi um horror e para quem dar mama foi insuportável. Mas não o podem dizer alto, porque por perto vai estar sempre alguém, mulher ou homem, formatado para uma normalidade que não existe, pronto para disparar a censura social. Mas eu, que até adorei estar grávida, que tive uma cesariana sem complicações, que dei de mamar durante seis meses (sem sofrimento, mas também sem prazer especial) e que tenho a felicidade de ter uma filha que raramente está doente, escrevo-o. Porque talvez seja importante para alguém, como foram importantes as palavras que ouvi há 15 anos.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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