“As invasões francesas, as guerrilhas na região da Barquinha e os relatos de Júlio de Sousa e Costa”, por Fernando Freire

Pintura de 1808 - O pormenor dos soldados na estrada que liga a Barquinha a Tancos

“Tancos fica numa língua de terra, a base de uma íngreme montanha junto ao Tejo. Tem sofrido consideravelmente com as inundações daquele rio. Mesmo em frente de Tancos, desagua no rio Tejo a ribeira e, após violentas chuvadas, precipita-se sobre os edifícios de Tancos com tal impetuosidade que já deitou abaixo muitas casas, agora em ruínas. Por isso, vários habitantes mudaram-se mais para baixo, para a Barquinha, e levaram consigo o espírito de comércio …

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Cerca de um quarto de milha adiante da povoação, a meio do Tejo, ergue-se uma rocha de granito coroada com as ruínas de um antigo castelo mourisco, chamado Torre de Almourol. Estas ruínas são extremamente pitorescas e um belo espetáculo quando vistas da colina acima de Tancos. Aproveitei um pequeno barco de pesca, cujo pobre dono me chamou quando eu ia pela praia, oferecendo-se para me levar até à ilha. Tem muitos choupos, e as ruínas estão cobertas de figueiras-do-inferno. Quando estas plantas se cobrem de flores amarelas, esta planta faz uma linda sebe. Dá um pequeno fruto, de sabor bastante agradável. As senhoras de Lisboa costumavam oferecer este fruto aos nossos jovens oficiais. Se lhes pegavam apressadamente, ficavam com os dedos muito feridos por um número infinito de picos minúsculos, invisíveis, que são muito difíceis de extrair. O pobre inglês berra, as jovens riem, mas os nossos compatriotas amaldiçoam a brincadeira. A este fruto chamam os portugueses figos-da-inferno, e bem merece o nome”. 1*

Júlio de Sousa e Costa, nascido em Lisboa, em 1877, foi funcionário público em Lisboa, Vila Nova da Barquinha, Tomar, Leiria, Alcanena e Torres Novas.

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Foi, porém, na Barquinha que trabalhou grande parte da sua vida, onde foi secretário da Câmara Municipal.

Viveu numa casa de rés-chão na antiga rua Capelo e Ivens, depois reconvertida em Rua Oliveira Salazar e, atualmente, Rua 25 de Abril, na zona baixa desta Vila.

Casa onde morou Júlio de Sousa e Costa

Através do verbo assumia o ideal republicano, convicto, crítico e mordaz acabando por ver a sua obra “Rei Dom Carlos I, Factos Inéditos do Seu Tempo,  1863 – 1908”, ser proibido pela censura. Foi perseguido pela polícia política, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) depois substituída pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). Veio a ser preso em 1943. 2*

Sendo escritor interessou-se por temas históricos nacionais e por tudo quanto respeitasse à região e, essencialmente, tudo quanto oralmente era dito sobre as guerrilhas populares contra os franceses.

Das suas obras publicadas (3*) talvez a Severa (4*), seja a sua obra mais consagrada e lida, feita “numa perspetiva mais jornalística do que romanceada, socorreu-se de testemunhos de quem conhecera pessoalmente a protagonista e recolheu-os. Manteve, até, o tom em que essas preciosas testemunhas lhe contavam os episódios e daqui nasceu um livro meio reportagem, meio romance, variado nas histórias, vivo na narrativa e, em princípio, historicamente correto.” 5*

Severa, de Júlio de Sousa e Costa, Editor: A Bela e o Monstro, Edição ou reimpressão: novembro de 2017

Foi um autêntico “historiador autodidata que empreendeu na nossa região, aquilo que mais ninguém fez em Portugal: conseguiu compilar um leque bastante variado e completo de informações sobre as Invasões Napoleónicas (1807-1811), sobretudo no que toca à 3ª invasão (1810-11), veiculadas através da tradição oral e provenientes dos relatos de algumas testemunhas que viveram os acontecimentos.” 6*.

Importa relevar que há muitas histórias sobre as Invasões Francesas em Portugal. Todavia, narrativas de autêntica guerrilha organizada e contadas com tanto pormenor, remetendo para fontes autênticas, eram desconhecidas do autor do presente artigo.

Júlio Sousa e Costa vem vivificar estes acontecimentos, identificando personagens e lugares da nossa região. Factos que são fundamentados, na atualidade, com achados que, recentemente, vieram ao conhecimento do signatário.

O livro a Severa foi escrito na Barquinha no ano de 1936

Recordemos que antes das invasões francesas estavam presentes no nosso território as Ordenanças ou Milícias. Estas não eram verdadeiramente Corpos Militares, e só se deviam considerar como um viveiro de paisanos, donde saem, e para onde se recolhem os indivíduos, que hão-de ir servir nos Corpos regulares e auxiliares. Os oficiais que integravam as Ordenanças faziam parte da nobreza local (7*).

À data das invasões francesas, tinham um poder de patrocínio social nas comunidades, autoridade certamente invejada, uma vez que eram estes que escolhiam quem ia para a guerra ou quem ficava dispensado de tal dever. No então concelho da Atalaia era capitão de Ordenanças da Vila, Manuel Escudeiro de Sousa, que vagou por morte de Luís de Barros da Silva, em 11 de maio de 1807. No concelho de Paio de Pele (Praia do Ribatejo) era capitão de Ordenanças, José Simões Lobato, que vagou por morte de João da Silva Barbosa, em 2 de dezembro de 1806. No concelho de Tancos era capitão de Ordenanças, Eusébio da Silva Cardoso.

Desconhecemos se estes homens participaram na guerrilha ou se foram os mentores de tal oposição aos invasores.

Para fundamentar as suas narrativas, ouviu a voz de muitos populares que são devidamente identificados nas suas crónicas. Delas podemos retirar que a as guerrilhas não são obra do acaso, mas eram convenientemente organizadas por populares que sabiam muito bem praticá-la.

Como outros grandes escritores, de que são exemplo Alexandre Herculano; Almeida Garrett; Camilo Castelo Branco, etc., 6*  também Júlio Sousa e Costa aquando mais novo, começou a escrever nas revistas e nos jornais regionais. Muitos desses relatos podem ser compulsados nos Serões de Tancos, publicados nos anos de 1926 a 1927 e no jornal “O Moitense”, no nº 1, publicado em 15 de março de 1936  e no último, o nº 106, com data de 15 de maio de 1945, cujos originais fazem parte do espólio do Arquivo Municipal de Vila Nova da Barquinha, oferecidos pela família Maia, com raízes na Moita do Norte, deste concelho.

Única fotografia conhecida de Júlio César de Sousa e Costa (1887-1961), cedida pelos seus sobrinhos, D. Maria Emília Coimbra Santos e Sr. Manuel Falcão, a Luis Miguel Preto Batista 6

Júlio de Sousa e Costa ainda pensou em publicar as crónicas “Nas terras do luto e do martírio”, todas elas dedicadas às invasões napoleónicas na Barquinha e nos concelhos confinantes, o que, infelizmente, ao que temos conhecimento, nunca veio a acontecer.

Em breve procuraremos fazer uma compilação de vários dos seus escritos dispersos.

Tal e qual como o método utilizado na “Severa” – no relato que hoje vos dou a conhecer – confirmamos que o escritor se socorre da prova documental e testemunhal construindo as narrativas para memória futura. Eis, então “Um guerrilheiro na Moita”.

“O Zé Maia por alcunha o LAMBÃO, natural do lugar da Moita, da freguesia da Atalaia, deste concelho da Barquinha, e cuja ossada descansou, durante largos anos, no adro da velha igreja paroquial onde fora batizado, foi um dos maiores ardilosos guerrilheiros que deram caça aos soldados de Massena. Chefiava esse bando de patriotas que não davam quartel ao inimigo feroz e desapiedado, o célebre Madrugo, homem terrível que se jactava de ter morto mais de 20 franceses em várias emboscadas, preparadas na péssima estrada que então servia desde a Atalaia até Tomar. A estrada que hoje conduz a esta última localidade tinha então outro traçado 8*; ia pelos casais da Tojeira, metia à Asseiceira e seguia a atual, com pequenas variantes no seu atual trajeto. Mestre Zé Maia possuía um olival, perto do Outeiro Redondo e … uma espingarda de dois canos a que ele chamava a sua joia, certeira e fina, presente do seu chefe Madrugo que lhe chamava a preciosa Gadanha dos Franceses… Como vemos, a escopeta estava tão bem classificada como o seu feliz possuidor … E mestre LAMBÃO, antes de formar a sua quadrilha dos guerrilheiros, assanhados, na caça patriótica, … Era tão exímio na caçada da bicharada dos matos, com na espera das patrulhas que circulavam entre Torres Novas, Tomar, Barquinha, Praia e Iria Teresa, etc. Nunca faltava ao chamamento para uma espera aos soldados desapiedados que sacrificavam os habitantes inermes. Possuo uma dolorosa relação de muitos infelizes sepultados, uns no adro da velha igreja de Atalaia, nos matos da Tojeira e até nos quintais do lugar da mencionada Moita. E porque lhe tinha violado miseravelmente a noiva, numa orgia feita na capela do lugar, votara ódio rancoroso e vindicativo tão cruel e sanguinário como aquele que usava o célebre Espanta-vacas, alcunha do António José, morto em 22 fevereiro 1811, casado com Maria Joaquina e sepultado no mencionado adro, conforme consta nas folhas 8 do livro de óbitos da paroquial da Atalaia depois de ter morto dois inimigos num duelo desigual. Mestre Zé Maria, parente de Manuel Maia, assassinado em 22 Dezembro de 1810, referentes a folhas 6, do dito livro, era casado com Maria Simoa que também foi morta a tiro no lugar da Moita em 8 janeiro do ano seguinte…”

In prefácio do livro, D. Maria II, 1947 – COSTA, Júlio de Sousa

1 NEALE, Adam, “Letters from Portugal and Spain” Comprising an Account of the Operations of the Armies Under Their Excellencies Sir Arthur Wellesley and Sir John Moore from the Landing of Troops in Mondego Bay to the Battle at Corunna. French Revolution Collection. London: Richard Phillips, 1809

2 POITOUT, revista “Nova Augusta”, edição da Câmara Municipal de Torres Novas, n.º 26, de 2014

3  COSTA, Júlio de Sousa, Memórias do Capelão dos Marialvas, Edição Romano Torres, Lisboa, 1940; COSTA, Júlio de Sousa, O Rei Dom Carlos I, Factos inéditos do seu tempo (1863-1908), Lisboa, Livraria Bertrand, 1943; COSTA, Júlio de Sousa, Ramalho Ortigão, Memórias do Seu Tempo, Edição Romano Torres, Lisboa, 1946 ; COSTA, Júlio de Sousa, O Segredo de D. Pedro V, 1941; COSTA, Júlio de Sousa, D. Maria II, 1947;  COSTA, Júlio de Sousa, Eça de Queiróz: Memórias da sua estada em Leiria (1870-71), 1953; COSTA, Júlio de Sousa, Grande Amor, 1944

4  COSTA, Júlio de Sousa, Severa, Lisboa, 1.ª Edição, Bertrand, 1936

5  Edição jornal Público, Porto, aquando das comemorações do 5.º Aniversário   do Fado enquanto Património da Humanidade, 19 de janeiro de 2017

6 BATISTA, Luís Miguel Preto, revista “Nova Augusta”, edição da Câmara Municipal de Torres Novas, n.º 23, de 2011

7 BORREGO, Nuno Gonçalo Pereira, As Ordenanças e Milícias em Portugal – subsídios para o seu estudo, Guarda-mor, 2006

8 As terras da Atalaia (Barquinha) pela sua excelsa situação geográfica, eram atravessadas pela via Olisipio–Conímbriga, muito importante à época, como o atesta a Carta de Privilégios de Atalaia, de 18-2-1303, concedida por D. Dinis, referindo-se à criação de uma póvoa no “ lugar onde chamam Atallaya no caminho …” porque esta póvoa, à data, ficava situada junto à importante estada romana Scalabis–Sellium (Santarém-Tomar).

A presente crónica de Júlio Costa, intitulada “Um guerreiro da Moita”, encontra-se publicada no n.º 108, ano X, pagina 3, de 15 de maio de 1947

Júlio Sousa e Costa: obras publicada sobre as invasões francesas

Pesquisa de feita por BATISTA, Luís Miguel Preto, aquando das comemorações dos 200 anos das invasões napoleónicas, em Portugal.

Dos jornais e das revistas:

No jornal Serões de Tancos:

– «Um tesouro de ferro» (nº 4, Março de 1926, pp. 25-26);

– «O tesouro da Moita» (nº 7, Maio de 1926, pp. 50-51);

– «A tragédia de Tancos» (nº 9, Junho de 1926, pp. 65–69);

– «Um fuzilamento na Ponte da Pedra» (nº 10, Julho de 1926, pp. 74-77);

– «Um drama na Barquinha» (n.os 11 e 12, Agosto e Setembro de 1926, pp. 81- 94);

– «O Caixeirito de Punhete» (nº 13, Junho de 1927, pp. 97-102).

Todas estas crónicas referem-se à 3ª invasão francesa (1810-1811).

No jornal O Moitense:

– «Um baile na Capela da Moita» (Excerto) (nº 37, 15/03/1939, pp. 5-6);

– «O moinho de vento da Moita» (nº 37, 15/03/1939, p. 5). Estes dois artigos integrariam o seu livro intitulado Nas terras do luto e do martírio, como é referido no final de cada um deles.

– «A Moita, terra mártir» (Fevereiro de 1810) (nº 48, 15/02/1940, p. 1);

– «Uma execução na Praia» [do Ribatejo] (nº 51, 15/05/1940, p. 4);

– «Efemérides da Moita» (nº 54, 15/08/1940, p. 1): “Nos princípios do ano de 1811 esteve neste lugar da Moita, aquartelada durante quinze dias, uma força de trinta soldados comandados por um oficial de infantaria, de apelido Ginot. Fizeram mil tropelias, tendo assassinado alguns habitantes do lugar, como consta dos arquivos paroquiais da freguesia de Atalaya”.

– «A estalajadeira da Praia» [do Ribatejo]: nº 54, 15/08/1940, p. 4;

– «Uma mulher da Moita» (Crónica) (nº 61, 15/03/1941, p. 6);

– «O tesouro da Moita» (nº 74, 15/04/1942, p. 4);

– «O Zé Guerrilheiro» (nº 88, 15/07/1943, p. 2).

Todas estas crónicas referem-se à 3ª invasão francesa (1810-1811).

No jornal O Entroncamento (1930-1931):

– «Subsídios para a História – A Tia Zabel» (nº 3, 06/01/1931);

– «O Mata Franceses» (nº 6, 15/02/1931).

História relacionada com Manuel Diniz, feitor da quinta da Ponte da Pedra, que terá liquidado uns quantos franceses e ficado com o espólio que lhes retirou, o que veio a dar origem à lenda do tesouro da Ponte da Pedra.

– Revista Terras de Portugal, dirigida por Gomes Barbosa, nº 45, Abril de 1933;

– História do Entroncamento, prefácio da autoria de Júlio César de Sousa e Costa, neste número inteiramente dedicado à, então, vila de Entroncamento.

As informações sobre as invasões francesas aí referidas foram reproduzidas no jornal A Hora, da autoria de Bandeira de Toro, tomo III “O Distrito de Santarém”, Outubro de 1938 e, novamente, no mesmo jornal, em 24/11/1968, 2ª série, nº 65.

Outros periódicos Jornal Voz do Ribatejo: “Barquinha” – crónica dedicada a Maria Joaquina, mulher barquinhense, morta pelos soldados de Massena em 1810.

Jornal O Almonda: Torres Novas, uma crónica dedicada às invasões francesas “Uma execução sumária em Torres Novas”.

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