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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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“As evoluções culturais e a anestesia do poder”, por Hália Santos

Então a notícia da semana é?…

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A eleição de Centeno para o Eurogrupo?

Errado! A notícia do jornal inglês The Guardian que apresenta Portugal como um caso de sucesso na luta contra a droga. O nosso país é apresentado como um exemplo que deveria ser seguido por outros países.

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Num tema como a droga? Isso é fantástico!

Pois é… Temos a mania que somos uns atrasados e que só nos países lá do Norte é que se tomam as melhores decisões e de vez em quando levamos com notícias destas. Até andamos de lado.

Mas a verdade é que, culturalmente, somos muito diferentes dos povos do Norte da Europa. Basta lembrar, por exemplo, que lá para cima quase ninguém usa cortinados. É um verdadeiro prazer andar pelas ruas, ao fim da tarde e à noite, e olhar para dentro das casas, ver as pessoas no seu dia a dia, com toda a naturalidade, sem nada para esconder.

Ah, pois! A nossa velha moral Católica… esconder… esconder… Cortinados e mais cortinados, para além dos estores e das portadas. Porquê esconder se a vida em família é precisamente das coisas mais bonitas de se ver?

Sim, porque o que se vê no Norte da Europa são as salas e as cozinhas, os espaços sociais das casas. Mas os nórdicos também têm outros hábitos que nós ainda nem sonhamos ter.

Estás a falar de coisas como o tempo que as mães podem ficar com os filhos?

Sim, mas não só. Vais a Estocolmo em janeiro, onde é noite logo ao início da tarde, e vês crianças a brincar nos jardins, com um frio de morrer e sem luz natural.

Pois, mas isso… cada um vive com o que tem! Se não têm sol e têm frio, vivem com essa realidade.

É certo, mas aqui raramente se vê crianças em jardins durante o inverno. Bom, se calhar aqui até tenho que reformular qualquer coisa. Por acaso, nos últimos anos, até se vê, cada vez mais, os portugueses a usarem os espaços públicos. Os jardins já não são só para inglês ver.

Isso será reflexo das mudanças culturais. Avançámos, de facto, muito. Aliás, a notícia do jornal inglês refere isso mesmo. Lembra os tempos em que era preciso licença para usar um isqueiro para depois se surpreender com um país que em 2001 foi o primeiro a descriminalizar a posse e o consumo de substâncias ilícitas.

De facto, é razão para nos surpreendermos. Basta pensarmos que a interrupção voluntária da gravidez só foi legalizada em 2007, se não me engano. Avançámos muito nalgumas coisas, mas ainda patinamos muito noutras.

De qualquer das formas, Portugal ser apresentado como exemplo para outros países numa área em que, pelo tradicional conservadorismo, poderíamos continuar a patinar, como tu dizes, é qualquer coisa de relevante. Aliás, também é relevante que o mesmo artigo sublinhe o facto de este ser um assunto que tem sido tratado com o mesmo tipo de opções políticas, que não muda ao sabor dos Governos.

Isso é extraordinário! Mas não devia ser, até porque devia haver um conjunto de assuntos que deveriam implicar um pacto de regime, um acordo entre todos os grupos parlamentares. E, mais ainda, as reformas em setores como a educação e a saúde deveriam ter um número de anos para vigorar obrigatoriamente, para que não pudessem ser mudadas cada vez que muda o Governo.

Concordo em absoluto contigo. E apetece-me dizer o óbvio: quando nos conseguimos distanciar, deixar de olhar para o nosso umbigo, colocar como prioridade o que efetivamente é importante, então é muito mais fácil chegar a consensos para o bem comum. Quem está no poder deveria ter essa capacidade.

Isso é tudo muito lindo! O problema é que o poder, nas mãos de certas pessoas, revela o pior que elas têm. E isso nós só sabemos quando elas chegam ao poder. E como se esquecem que o poder é temporário – porque já não há dinastias – também se esquecem que quem agora está em cima, um dia passa para baixo.

Mas isso essas pessoas só percebem quando passam de cima para baixo… É a anestesia do poder.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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