“As azenhas do Poço das Talhas”, por Berta Silva Lopes

Azenhas de Poço das Talhas, Mação. Foto: Berta Silva Lopes

Soube há dias que as antigas azenhas do Poço das Talhas estão agora muito airosas, cobertas com a velha telha mourisca, novinha em folha, limpas de musgos e teias de aranha, livres do cheiro a tempo parado, finalmente libertas do triste abandono de tantas décadas. Disseram-me também que em breve voltarão a funcionar, mais de 50 anos depois da última vez.

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Tem sido uma empreitada e tanto, segundo me contaram. Raro é o fim de semana em que um grupo de homens da minha aldeia não vai até lá. Caminham cheios de sonhos, ideias, ferramentas e boa-vontade. Dão o seu tempo e engenho, horas extraordinárias em dias de suposto descanso, sem nada esperar em troca. 

Só a pé conseguem – conseguimos – lá chegar. Na estrada que liga a aldeia de Queixoperra a Penhascoso, mesmo a meio da conhecida curva do palheiro, há um caminho de terra que termina lá perto. Porém, findo esse caminho, só quem conhece a zona descobrirá o antigo carreiro das hortas. Não há mapa nem GPS capaz de encontrar este pequeno paraíso. Como todos os tesouros, o Poço das Talhas é difícil de encontrar. 

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A partir dali o acesso é mais fácil, mas mesmo assim exigente, ao contrário da descida pelo lado norte. O vale fica encravado entre montes, terrenos agrestes, ingratos, desafiadores, por vezes inacessíveis; e a ribeira, desgraçada, parece encolher-se perante os acentuados contrafortes que a ladeiam.  

No lado oposto, seguindo pelo Ougueiro, vestígios de outrora indicam o atalho tantas vezes percorrido por famílias inteiras de gente da terra. Daí, sem grande margem para erro, basta serpentear a encosta ou deixar-se conduzir pelo grito da água despenhando-se lá em baixo sobre as pedras. 

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Por ali já não ecoam as vozes de outrora: agricultores, resineiros, apicultores, lavadeiras, crianças atrás do gado. O último moleiro das azenhas do Poço das Talhas morreu há mais de meio século e depois dele desapareceram também os rebanhos, as hortas, a floresta. Reinam agora o silêncio e a quietude.

A primeira moagem, depois da recuperação da azenha. Foto: Berta Silva Lopes

Poço das Talhas: o nome faz sentido. Uns metros abaixo da estreitinha ponte junto às azenhas, as águas cedem momentaneamente à profundidade do leito – ali em forma de talha, pois. Mais abaixo, porque a ribeira continua, sobressaltada, entre afloramentos rochosos e desníveis consecutivos, outros poços há, mas foi este, o das Talhas, que batizou toda esta zona e as antigas azenhas.

Há 60 anos ainda ali chegavam, carregadas de cansaço e de filhos, as mulheres das redondezas, sobretudo da minha aldeia e dos lugares vizinhos dos concelhos de Abrantes e Sardoal, equilibrando na cabeça e debaixo do braço muitas horas de labuta, suor e fé. Sabe Deus o que trabalho que dá o cultivo do milho. 

Ricardo Marques, o moleiro, trabalhava a bom ritmo, tantas vezes de dia e de noite, sozinho na frescura daquele vale, fazendo companhia a si próprio e aos pensamentos que o visitavam. Duas azenhas, apenas um homem, fartura nenhuma, tudo às voltas, vezes sem conta, no cumprimento do seu destino. Sábia e pacientemente. 

Tal como a roda que ora mergulha ora emerge, também a história deste sítio retornou ao seu passado para logo vir ao de cima e respirar o ar dos nossos dias. E quem sabe se o ciclo estará completo já? Ou quantas voltas pode dar uma vida?

Há dois anos, quando o fogo apareceu de novo por estas bandas, invencível, as chamas não destruíram apenas a paisagem da minha aldeia, lamberam a alma das suas gentes e deixaram mudas várias pessoas. E não se pense que foi do medo, porque não foi. 

Foi sim por terem tanto para dizer, e sobretudo por saberem que há silêncios tão poderosos como gritos. Às conversas sobre aquela tarde demoníaca – e tivessem elas o condão de fazer o tempo voltar atrás, trazer de volta o cheiro a pinho e a alecrim, mas não – nada tinham a acrescentar.

Talvez a coragem se lhes tenha enchido de dúvidas e o esforço de resignação, é possível, embora talvez nunca o saibamos. Houvesse justificação possível para tamanho infortúnio e quiçá fosse mais pequena a desilusão. Assim, sem palavras, restava-lhes ombrear a natureza, meter mãos à obra.  

As chuvas varreram as cinzas e pintaram de novo as encostas, recuperando assim a esperança e o verde horizonte. A ribeira corre agora ainda mais generosa e à sua volta crescem viçosos fetos, acácias e giestas. O ar cheira a estevais e a rosmaninho. Estão de volta os esquilos, os papa-figos, as toutinegras e os melros. 

As azenhas, vaidosas, já o disse, recuperaram o fulgor de outros tempos e os carreiros, finalmente desimpedidos, apontam o caminho das levadas e do futuro. Eis a prova de que é sempre possível renascer. 

Falo dos homens que para ali caminham, incansavelmente, sempre que podem, mas não só. Já recuperaram a fala, tem sido grande a algazarra no Poço das Talhas ultimamente. Querem terminar as obras em breve, oxalá ainda antes da homologação da rota que por ali passará. Bem-aventurados os que acreditam.

Quem descer ao Poço das Talhas, lugar encantado que entrará nos roteiros turísticos desta região, fica o aviso: é bem capaz de por lá deixar o coração. Vá prevenido. 

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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