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Trincanela

Quarta-feira, Julho 28, 2021

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“As anestesias da malta”, por Hália Santos

Tu sabes que eu raramente atendo chamadas de números que não conheço. Mas ontem, ainda por cima à hora do almoço, não sei porquê, atendi uma chamada de um telemóvel. Talvez por saber que, nesta altura do ano, há pessoas que precisam mesmo de falar comigo…

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E então? Arrependeste-te?

Claro! Era um daqueles miúdos que trabalham em telemarketing. Até simpatizo com eles porque sei que muitos tiveram formação em diferentes áreas e esta é a alternativa às caixas de supermercado. E aturam cada um! Mas tive que lhe dizer para ligar mais tarde. Ele próprio sugeriu as cinco da tarde e eu aceitei. Parecia-me uma boa hora. Na verdade, nem sabia que Portugal ia jogar.

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Não me digas que decidiste ver o jogo e que o miúdo telefonou mesmo no início?

Achas? Eu nunca mais me lembrei do jogo até a altura em que o Público começou a mandar aquelas mensagens que te aparecem no ecrã do computador. Hungria marcou. Dani marcou. Hungria marcou. Ronaldo bisou. E eu ralada… Tinha trabalho que tinha que ser feito. Percebi que o país tinha parado. O costume.

Está bem, mas tens que reconhecer que quando as pessoas, todas tão diferentes, se unem em torno de um objetivo, há uma energia indescritível. Tens que reconhecer que estes momentos dão ânimo, sobretudo a quem tem vidas difíceis ou simplesmente tristes. E há para aí muita gente assim…

Claro, nada contra o futebol nem contra as telenovelas. São formas que as pessoas têm de escapar à realidade, ficando, por momentos, alheadas da sua realidade. Funcionam como anestesias e não vejo qualquer problema nisso. Todos temos as nossas formas de fugir para respirar. Há quem o faça a ver futebol, há quem o faça a ver telenovelas, há quem o faça a viajar, há quem o faça a praticar desporto, há quem o faça a colecionar coisas, há quem o faça a dedicar o tempo aos outros, há quem o faça a escrever…

Sim, a escrita é uma excelente forma de terapia. Seja para guardar numa gaveta ou numa pasta de computador, seja com o objetivo de partilhar com os outros. É engraçado como a escrita tem semelhanças com o futebol. Toda a gente é treinador de bancada e toda a gente acha que sabe escrever.

Verdade! Olha a quantidade de coisas que se têm vindo a dizer sobre a seleção. Eu, assumidamente, não gosto de futebol. Mas adoro ouvir os comentários dos ‘especialistas’ e dos outros, que acham que são. É um mundo fantástico. Sobretudo para quem está de fora. Muito divertido! Toda a gente tem a solução para o problema!

O problema é que quem anda para aí a dar opiniões sobre tudo e sobre todos, na maioria dos casos, não sabe do que fala ou escreve. Há um problema generalizado de iliteracia. As pessoas sabem ler e sabem escrever, muitos até tiraram cursos superiores e até querem ocupar cargos com responsabilidades – vê lá bem – e, depois, não compreendem o que é dito ou escrito.

É verdade, pobres de espírito aqueles que têm na escrita maldizente a única forma de se anestesiarem da sua triste realidade. Mais valia colecionarem aqueles pacotinhos de açúcar com mensagens do género: “Leve a vida com um sorriso!”

Mas olha lá, então e o miúdo do telemarketing?

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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