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Quinta-feira, Dezembro 2, 2021

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“As abelhas não sabem voar, yo!”, por José Rafael Nascimento

“Eu acredito que posso voar / Eu acredito que posso tocar o céu / Eu penso nisso todas as noites e todos os dias / Eu abrirei as minhas asas e voarei para longe / Eu acredito que posso voar alto / Vejo-me correndo por aquela porta aberta / Eu acredito que posso voar”
– R. Kelly (I believe I can fly)

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Diz-se, com algum sentido de humor e muita pedagogia, que as abelhas voam porque não sabem que os seres humanos consideram que elas não têm condições para voar. Metaforicamente, a lição é a de que muitas coisas “impossíveis” acontecem porque (ou quando) não se conhece ou não se está consciente dessa “impossibilidade”. Já repararam como as crianças surpreendem ao fazerem tantas coisas “impossíveis” ou nem sequer pensadas pelos adultos?…

A piada baseia-se no mito urbano que perdurou até há alguns anos atrás de que, aerodinamicamente, as abelhas e outros insectos (e também alguns pássaros) não reúnem as condições necessárias para voar, dado o seu peso e o tamanho das suas asas. O problema, neste caso, é a evidência de que as abelhas voam mesmo (há mais de 100 ou 300 milhões de anos) e essa capacidade é um facto inegável. O que não acontece, como sabemos, com muitas realizações consideradas impossíveis até acontecerem.

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A evolução tecnológica permitiu, entretanto, observar o voo das abelhas ao microscópio e em câmara lenta, possibilitando constatar que a flexibilidade da parte traseira das suas asas faz com que estes simpáticos e indispensáveis insectos voem de forma eficiente. O erro dos cálculos até então efectuados residia no pressuposto de que as asas eram plataformas estáticas como as dos aviões, o que realmente não se verifica. Como voam, então, as abelhas?

Ao movimentarem as suas asas, estes insectos produzem pequenos vórtices – massas giratórias de ar, redemoinhos, turbilhões – ou micro-furacões, os quais possibilitam o voo. Ismet Gursul, professor no departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Bath, explica que o segredo está no facto de a asa ser rígida à frente e mais flexível e curva (ou dobrável) atrás, permitindo que a abelha vença a resistência do ar, um princípio aplicável à construção de minúsculos dispositivos aéreos telecomandados.

Ismet Gursul, pioneiro no estudo dos fluxos de ar (vórtices) criados pelas asas dos aviões e dos insectos, foi distinguido em 2006 pelo American Institute of Aeronautics and Astronautics.

O interesse de Gursul e sua equipa prendia-se com a concepção de microveículos aéreos dotados de câmaras e sensores, vocacionados para missões civis e militares de monitorização, detecção e vigilância. Na última década e meia, cientistas e tecnólogos de inúmeras universidades e laboratórios têm vindo a desenvolver hardware e software sofisticados que tornam mais efectivas as missões destas miniaturas aéreas, cada vez mais autónomas, furtivas e à prova de obstáculos.

Mas, voltando ao voo dos insectos, era também misterioso o facto de a abelha bater mais as asas do que a minúscula mosca-da-fruta (230 vezes por segundo, contra 200 desta, em batimentos de 145 a 165 graus), pois geralmente os insectos mais pequenos precisam de bater mais as asas para compensarem um menor desempenho aerodinâmico. A abelha também tem necessidade de o fazer porque, apesar de o seu corpo ser 80 vezes maior do que o da mosca-da-fruta, as suas asas batem em arcos curtos de aproximadamente 90º, além de que carregam frequentemente nas suas patas pólen e néctar que chegam a pesar tanto quanto o seu corpo.

O mito de que as abelhas não deviam ser capazes de voar remonta aos anos 30 do século passado quando o entomologista francês August Magnan sugeriu que o batimento aleatório das suas asas não lhes devia permitir voar. Mas foi o filme de culto Bee Movie – A História de uma Abelha (Steve Hickner e Simon J. Scomum, 2007), com milhões de seguidores em todo o mundo (diz-se que um deles visionou-o 357 vezes na Netflix, em 2017), que disseminou amplamente este mito.

O filme Bee Movie conta as angústias e provações da Abelha Barry [B. Benson] (Jerry Seinfeld), que acha pouco inspiradora a perspectiva de trabalhar toda a vida numa colmeia, depois de terminar a licenciatura. O mundo de Barry vira-se do avesso quando conhece Vanessa, uma bondosa florista de Nova York (Central Park), e decide processar a raça humana por roubar o mel das abelhas, criando uma enorme confusão.

O estudo de como os insectos (e pássaros) voam, tem permitido desenvolver dispositivos robóticos que se deslocam no ar com grande eficiência, cumprindo missões civis e militares de extrema importância.

Sabe-se que os aviões conseguem voar devido à combinação de quatro forças: elevação (ou sustentação, dada pelas asas), peso, impulso (ou propulsão, dada pelos motores) e arrasto (ou resistência, fricção), sendo utilizados materiais leves e formas aerodinâmicas. A elevação deve equilibrar o peso, e o impulso o arrasto. Ora, as abelhas não possuem nem a envergadura das asas de um avião (relativamente ao seu corpo), nem a sua velocidade de descolagem. O que as abelhas fazem é bater as asas para a frente e para trás, em vez de para cima e para baixo.

As asas de um avião forçam o ar para baixo, impelindo o avião para cima, os insectos movem as suas asas numa rotação parcial: em vez de ser como uma hélice, o ângulo da asa cria no ar vórtices semelhantes a pequenos furacões. O centro (“olho”) desses mini-furacões tem uma pressão menor do que o ar externo, julgando-se que seria este o factor que possibilitaria às abelhas elevar-se. Estudos mais recentes parecem sugerir, contudo, que estes vórtices permitem que as asas ganhem um maior “ângulo de ataque” sem estolar (perder sustentação), melhorando o fluxo de ar.

Nelson Mandela terá dito um dia que “vencedor é o sonhador que não desiste”. O sonho tem essa capacidade de nos libertar do mito da impossibilidade, autorizando-nos a imaginar e, se tivermos vontade, a tentar realizar. Convivi, há muitos anos, com um engenheiro britânico dedicado ao desenvolvimento de comunidades rurais em África, com quem aprendi duas máximas de vida: “É simples, mas funciona (resolve)” e “Vale a pena tentar!”. Repetia-as frequentemente e não foi difícil entrarem e ficarem-me registadas nos ouvidos. E, depois, no meu código memético.

No domínio das transformações organizacionais e societais, sabe-se há muito que o primeiro e mais determinante factor de resistência à mudança reside na nossa própria mente, na dificuldade que temos em prever, confiar e arriscar.  Pior é quando nos tentam persuadir de que a mudança é prejudicial ou difícil, senão mesmo “impossível”. É certo que tendemos a escolher o que conhecemos e a priorizar as necessidades básicas ou primárias antes de outras, mas não faz sentido viver apenas e sempre aprisionados nessas escolhas ou necessidades. Pelo menos para pessoas razoavelmente inteligentes, cultas e livres, como todos devemos ser.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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