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“Aquele olhar”, por Fernando Duarte

Embora grande parte da minha vida profissional pós faculdade se tenha passado fora do país, mais do que uma vez exerci actividades em Portugal e nem sempre na minha área de formação. Uma das actividades que exerci foi ter sido sócio-gerente de um café-restaurante.

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Quero desde já deixar descansado aqueles que foram meus clientes, que aquilo que viram em determinado programa de televisão relacionado com a restauração, não se passou no restaurante que geri. Todos os alimentos ali confecionados eram frescos, muitos deles chegavam do fornecedor no próprio dia da sua confeção e as regras impostas pelo HACCP eram cumpridas.

Quando trazemos algum amigo que vive no estrangeiro a almoçar ou a jantar num restaurante e depois estes vêm a conta a pergunta mais comum é “como é que vocês conseguem ganhar dinheiro?”. Surpresa, não se ganha mesmo.

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A experiência que tive foi que parece que era uma obrigação minha em vez de vender um café, dar o café. Fazer uma meia-dose levar o mesmo que uma dose completa. O que se quer é bom e barato. Mas do outro lado do balcão das conversas que mais ouvi eram do género; “Eh pá, no dantes ia a um restaurante muita bom em que se comia bem e barato naquele sítio assim, fui lá hà quinze dias e estava fechado”. Não me é difícil perceber o porquê do encerramento.

Outra, é que até se fazem notícias de determinado restaurante que pratica preços altos, a não ser que os preços não estejam fixados e expostos (isso já é um caso de policia), não vejo mal nenhum nisso, se querem comer bem e barato deixo uma sugestão, comprem os produtos e confecionem em casa, não vos vai cair um braço por isso. Ninguém é obrigado a ir e não é de todo ilegítimo ter-se um negócio e querer ganhar dinheiro, de outra forma, nem sequer abria o negócio.

Reparei também que muita gente se desloca a um café ou restaurante com a intenção de receber um tratamento de luxo, com uma exigência que dá a entender que na sua própria casa tudo é perfeito, qualquer detalhe que não esteja do agrado está tudo estragado, transformam aquele momento de todos num inferno. Ora para ter esse tipo de tratamento tem-se de pagar por isso e não é num café ou num restaurante comum que isso se consegue.

Muita gente não tem noção que uma pessoa que está atrás de um balcão quer apenas servir o que lhe foi pedido e passar para o cliente seguinte, tentam sempre fazer conversa e por norma com queixas relativamente aos preços. Vamos a ver uma coisa, seja num restaurante ou num café, não há nada que seja considerado um bem essencial, é tudo produtos supérfluos e têm de ser pagos como tal.

Para além de tudo isto, existe um conjunto de despesas, taxas e impostos que tem de ser pagos ao estado para que possamos exercer a actividade. A única compensação disto é o estado ter entidades fiscalizadoras que em vez de prestarem apoio o que fazem é provocar medo, onde existe a ameaça de que se alguma coisa não estiver em ordem teremos de pagar multas avultadas por esses erros.

Se este tipo de negócio estiver a correr bem, forçosamente teremos que contratar empregados, teremos como despesas o seu salário, segurança social e seguro de trabalho, sendo que o número de horas que estes podem fazer estipulado por lei é substancialmente pouco para manter o serviço. Perante isto, os sacrificados serão mais uma vez quem tem as rédeas do negócio. A esses parecem não estar reservados direitos, mas só deveres.

Hoje em dia, quando me desloco a um estabelecimento comercial deste género consigo facilmente descobrir quem é o dono ou o sócio-gerente, pois ele tem aquele olhar fundo e cansado de quem espelha o medo da constante ameaça. Nele se espelha o olhar de quem tem uma responsabilidade descrente numa resistência inútil, onde todos ganham menos o próprio.

 

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Fernando Duarte
Engenheiro Civil, de 32 anos, teve como tantos outros, de sair do país para conseguir exercer a sua profissão. Com raízes em Alvega, tem enorme gosto em conhecer novos sítios e novas culturas, custa-lhe é lá permanecer.

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