Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Apertar”, por Armando Fernandes

No jargão culinário emprega-se o termo apertar no sentido de um produto – claras em castelo ou molhos – de forma a ficarem bem batidas as claras, melhor dito: firmes e num estado igual em toda a composição e o mesmo se aplica aos molhos.

- Publicidade -

Antigamente colocar as claras em castelo altas, firmes e sem borbotos exigiam muita força muscular de quem fazia girar «furiosamente» o batedor até as mesmas se elevarem ou os molhos ficarem consistentes e cremoso por forma a ficarem aptos a ligarem outros produtos alimentares.

Na internet o leitor encontra inúmeras referências ao modo de bater as claras, tais informações via Brasil aludem às claras por neve dada a sua alvura, por cá gostamos de referir a maestria no batimento das mesmas as quais são (devem ser) cuidadosamente separadas das gemas porque as suculentas gemas possuem gordura e por isso bater as duas composições requer mais tempo, mais força, e outro talento a fim de se prepararem adequadamente as massas destinadas a toda a sorte de bolos e confeitos.

- Publicidade -

O interessante é o termo – apertar – o qual está a cair em desuso no reino das artes culinárias, sendo muito proferido no âmbito de outras situação de… aperto fisiológico, emocional, financeiro, desportivo e outros mais que os leitores farão o favor de congeminar, mas que a equipa do Benfica sofreu um enorme apertão contra o Bayern lá isso sofreu.

Nem todos os dicionários culinários referem o termo porque os autores não têm o bom hábito de estudar os velhos «pais dos burros», bem como vocabulários e prontuários. Por assim ser todos ganhamos dedicando mais apreço e estudo às subtilezas da língua portuguesa. O notável escritor, militar, gourmet e diplomata Francisco Manuel de Melo em ‘Hospital de Letras’ aperta os calos aos autores desastrados e num português primoroso (ele também escrevia em castelhano) sem espanto elogia Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, António Ribeiro Chiado e poucos mais.

Os leitores sabem que por vezes também cometo descuidos na arte de escrever, no entanto em todas as crónicas procuro lembrar autores e livros na justa medida de os jornais deverem assumir-se como ‘Escola do Paraíso’ (livro do grande prosador José Rodrigues Miguéis) a pretexto de tudo, incluindo o apertar das claras e dos molhos capazes de nos proporcionarem graves e intensos prazeres palatais.

Se me permitem, para acompanharem as claras em castelo bebam colheitas tardias da chancela TEJO. A fim de não suscitar interrogações não enuncio nenhuma em particular, indico todas de modo geral.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome