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Quarta-feira, Setembro 22, 2021

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Aos 30 anos, Ourém é uma cidade rural num concelho global, à procura da sua identidade

Em 1991, com o objetivo de criar coesão entre Vila Nova de Ourém e Ourém velha (a localidade no cimo do monte onde se situa o Castelo e Paço dos Condes), o município uniu o território, elevando-o a cidade. Três décadas passadas, Ourém mantém os mesmos traços dessa época, não obstante tenham surgido novos equipamentos e alguma modernização. Especialistas ouvidos pelo mediotejo.net dizem que esta é uma “cidade sufocada”, sede de um concelho complicado, com uma outra cidade no território – Fátima – a exigir demasiada atenção.

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Com uma visão estratégica sobre todo o vale até à Serra de Aire, não é difícil perceber porque se lembraram os muçulmanos de edificar a primeira fortificação no monte onde hoje se situa o Castelo de Ourém. A localidade ali formada, então conhecida como Auren, teve o seu primeiro foral em 1180, atribuído pela infanta D. Teresa de Portugal, filha de D. Afonso Henriques. Após a reconquista cristã, Ourém manteve sempre ligações próximas à Casa Real portuguesa. 

Elevado a condado pelo rei D. Fernando em 1370, Ourém teve como primeiro Conde D. João Afonso Telo de Meneses, almirante do reino, tio da então rainha consorte, Dona Leonor de Teles. O título passaria depois para João Fernandes Andeiro, conhecido como Conde Andeiro, amante da rainha que seria assassinado durante a crise sucessória de 1383-85. Com a sua morte, o título transitou para D. Nuno Álvares Pereira, figura histórica que hoje possui uma estátua junto ao Castelo.

O nome mais conhecido na história medieval do concelho é, porém, o do neto do Santo Condestável, D. Afonso de Portugal, que se tornou o quarto conde de Ourém. Foi este fidalgo que fundou em 1445 a Colegiada de Ourém, encontrando-se sepultado na cripta no piso inferior da Igreja. No seu tempo, Ourém tornou-se uma das vilas mais importantes do centro do país. 

Estátua de D.Nuno Álvares Pereira junto ao Castelo de Ourém Foto: Google Images

Com a sua morte precoce, o condado de Ourém passou para o irmão, D. Fernando. Ambos eram netos do Rei de Portugal, D. João I, Mestre de Aviz, através de um filho ilegítimo, D. Afonso, o primeiro duque de Bragança. O feudo de Ourém ainda passou pela casa de Vila Real, para regressar novamente à Casa de Bragança. Com a restauração da independência, depois de 1640, voltou a pertence à Coroa, sendo que a Casa de Bragança ainda possui ali património, incluindo o próprio Castelo.

A história conta que foi por altura do terramoto de 1755, que afetou bastante a atual vila medieval, que as populações se refugiaram na baixa, na zona ribeirinha, criando a Aldeia da Cruz. O novo aldeamento rapidamente cresceu, dando origem em 1831 à freguesia de Nossa Senhora da Piedade. Em 1841, por alvará de D. Maria II, o povoado passaria a designar-se Vila Nova de Ourém, tornando-se sede do concelho.

Antes disso, durante a terceira invasão francesa, liderada pelo General Massena, em 1810, a zona da atual cidade sofreu bastante com a ocupação, tendo-se registado um grande incêndio e destruição de vasta documentação. Aliás, em apresentações de livros de História sobre Ourém e Fátima, é frequente os historiadores queixarem-se de perdas irreparáveis de registos documentais devido ao caos provocado pelos exércitos napoleónicos que invadiram a região.

Assim, sem maior história que a dos seus dirigentes políticos, Ourém vê-se no centro das atenções em 1917, quando numa das suas freguesias, Fátima, começam a ser noticiados fenómenos paranormais, que atraem curiosos de todo o país. No rescaldo de uma revolução republicana e laica que dividia a nação, foi a partir da cidade de Ourém que o administrador do concelho, Artur de Oliveira Santos, quis restaurar a razão, “raptando” os três pastores videntes no mês de agosto e levando-os para sua casa. Dizem as memórias da Irmã Lúcia que também terão estado na prisão, atualmente um espaço a aguardar musealização no piso térreo do antigo edifício da Câmara Municipal. 

Ao longo do último século, a cidade de Ourém foi crescendo na medida das suas limitações, procurando gerir um extenso território administrativo (416.7 km2), com realidades diversas. A par de um território norte também com as suas necessidades e alguma dinâmica industrial, a Cova da Iria, anteriormente um espaço de pastagens, deu lugar em menos de um século a uma efervescente cidade com um grande Santuário mariano, que ganhou dimensão global.

No pós 25 de abril, porém, o território estava tão atrasado como o restante país rural, marcado inclusive por uma forte emigração, sobretudo para França. A luz elétrica escasseava e só chegaria à maioria do concelho nos anos 80. Avançaram nessa altura também as primeiras obras de saneamento.

Foi neste ímpeto pós revolucionário, no calor de tantas mudanças em curso, que entre 1989 e 1991 se deu a reorganização toponímica. Foi extinta Vila Nova de Ourém e agregou-se o território à vila medieval, criando-se a cidade de Ourém. O dia do município mudou também, passando de 25 de setembro, data de elevação da Aldeia da Cruz a Vila Nova, a 20 de junho, data da elevação das duas vilas a uma única cidade. 

Castelo de Ourém nasceu de uma fortificação muçulmana Foto: mediotejo.net

A última “convulsão” administrativa vivida por Ourém deu-se em 2003, quando a freguesia de Fátima esteve em vias de se desmembrar do restante concelho. O processo conseguiu chegar às últimas instâncias e chegou-se a cantar vitória – até o Presidente da República, Jorge Sampaio, vetar a proposta. A criação do concelho de Fátima permanece no imaginário de muitos e, a concretizar-se, viria a constituir um golpe profundo no concelho e na própria cidade de Ourém.

Na transição entre dois distritos e duas regiões, lutando entre o rural e o global, entre o poder laico e o poder eclesiástico, a cidade de Ourém vive hoje algo perdida na sua identidade, sem saber se deve definir-se pela sua História ou pelo passado mais recente. 

Uma cidade rural com potencial próprio

Para Ana Saraiva, antropóloga que tem publicado investigação em torno do concelho de Ourém, a cidade sede mantém há 30 anos os seus principais traços, nomeadamente os eixos viários, mas não é uma cidade estagnada no tempo. “Temos várias perspectivas de mudança, além da questão dos serviços, em que houve reforço”, diz a investigadora, que constata também um desenvolvimento nas áreas da cultura e do desporto, sobretudo ao nível das instituições de formação. O associativismo ligado ao ensino da música e da dança, exemplifica, permitiu que muitos jovens seguissem carreiras artísticas que, há três décadas, estariam bastante dificultadas pela falta de respostas.

No que toca ao desporto, a construção das Piscinas Municipais permitiu abordar áreas para além do futebol. “É um daqueles equipamentos que serve a formação, mas serve também os séniores. Houve uma maior diversificação do que é a oferta desportiva”, comenta. 

Aumentaram também as superfícies comerciais. Neste aspeto, diz, “ainda bem que temos um mercado que se mantém, pois está muito em linha com o que são as novas tendências de hábitos mais ecológicos”.

A antropóloga considera que se está “a saber tirar partido de uma cidade que não se desligou e não se deve desligar do espaço rural e que pode fazer a diferença comparativamente às grandes cidades”.

Já no que toca ao lazer, “há um longo caminho a percorrer”, diz. Ana Saraiva aponta como exemplo positivo a construção do Parque António Teixeira, também muito ligado ao espírito de vida saudável. “Penso que esta leitura da evolução da cidade nunca deve ser dissociada da mudança dos hábitos culturais”, reflete, no sentido em que a cidade foi dando resposta às necessidades das pessoas. 

“É uma cidade que nunca deve ser vista como um grande centro urbano”, afirma. “Penso que até pode ser perigoso abdicar dos seus ativos de relação com o campo”. 

Penso que se está a saber tirar partido de uma cidade que não se desligou e não se deve desligar do espaço rural e que pode fazer a diferença comparativamente às grandes cidades

A emigração crónica do município vai continuar, acredita, através de novos modelos, inclusive de migração interna. “Também estamos a assistir ao movimento inverso, que é pessoas de Lisboa reconhecerem as vantagens de terem casa cá”, retirando partido da qualidade de vida de uma cidade pequena. “Estamos uma fase de mudança de paradigma com a covid-19. Até pode ser uma coisa boa”, considera.

Por tal, Ana Saraiva não vê estagnação, mas um crescimento ao seu ritmo. O emprego qualificado é uma lacuna, admite, em grande medida porque a cidade é pequena e não tem, por exemplo, instituições de ensino superior. 

“Ourém tem potencialidades que Fátima não tem”, diz, considerando que as duas cidades devem deixar de ser vistas como concorrência e apostar mais numa perspetiva de complementaridade.

Há uma cultura de cidadania e mentalidade que tem que ser trabalhada neste sentido, reflete. “Um trabalho longo a fazer” de desconstrução de mentalidades, que pode ser benéfico para o território.

O divórcio adiado com Fátima

Para Sérgio Ribeiro, economista e o autarca há mais tempo no ativo no concelho, a cidade sofre com o seu território de um problema de coesão. Os eventos em Fátima em 1917, que tiveram um maior impacto a partir dos anos 30/40, modificaram as dinâmicas territoriais. Ourém cidade foi a “consagração de uma evolução” histórica, mas Fátima impôs-se em importância ao longo do tempo.

Ourém vive assim dividido entre o distrito de Santarém, a que pertence, e o de Leiria, com o qual Fátima tem maior proximidade. “Tem que definir-se o ordenamento do território”, defende. 

Para tal, Sérgio Ribeiro recupera a velha questão do concelho de Fátima, luta que acompanhou. A criar-se, manteria relações privilegiadas com Ourém. A oportunidade perdeu-se há duas décadas, mas os argumentos permanecem válidos. “É uma cidade de 10 mil habitantes com muitos visitantes”, constata, “é uma gestão autárquica difícil de integrar” no extenso território do concelho de Ourém, um dos maiores do distrito.

Não diria que a cidade de Ourém está estagnada. Diria que tem problemas de crescimento. Está de certo modo sufocada. É a sede de um concelho complicado.

Acresce o restante caos administrativo. “Médio Tejo para umas coisas, Vale do Tejo para outras”, aponta, “é uma gestão complicada” a do executivo municipal ouriense. Para o economista, a regionalização seria um dos caminhos que permitiria resolver este tipo de problemas. A questão, argumenta, tem sido protelada por questões eleitoralistas.

“Não diria que a cidade de Ourém está estagnada. Diria que tem problemas de crescimento. Está de certo modo sufocada”, reflete. “É a sede de um concelho complicado. Não conheço nenhuma outra com estas características, com um pólo com características mais importantes que a sede”, afirma. 

As indefinições do território, os diferentes pólos de forças, tornam difícil ao poder local desempenhar o seu papel a várias níveis. “Falta coesão”, reitera.

Sobre a emigração, Sérgio Ribeiro recorda que nos anos 80/90 os valores do dinheiro enviado pelos emigrantes eram “impressionantes”. Hoje, esta informação tornou-se mais “opaca”, mas Ourém “continua a ter importância junto da comunidade emigrante”, reflete.

Em busca de uma imagem de marca

A coordenar o painel de discussão “Olhares”, que prepara o congresso sobre a cidade de Ourém a decorrer em novembro, o historiador José Manuel Poças das Neves tem tido a oportunidade de ouvir várias perspetivas sobre a sede do concelho. A possibilidade da cidade se vir a dinamizar face às novas dinâmicas do teletrabalho e da busca por mais qualidade de vida, é uma das perspectivas mais otimistas. Afinal, um dos problemas mais característicos do território é a falta de população.

Ourém está à procura de uma “imagem de marca”, reflete o historiador, admitindo que a divisão antiga entre a velha Ourém e a Vila Nova persiste até aos dias de hoje. Criar uma marca que agregue todo este universo da cidade, a sua história, é uma das formas de potenciar a localidade no futuro.

“No século XIX, o motor do concelho estava no norte” do município, onde viviam os grandes latifundiários. Esse cenário mudou a partir de 1910, com a revolução republicana, quando “o poder passou para Vila Nova de Ourém, que não o soube aproveitar”. A partir de 1917, constata, esse poder transitou para Fátima. 

Apesar de uma aparente paragem no tempo, Ourém não estagnou, defende. A escassa população da cidade, que se traduz na ausência de massa crítica, não permitiu que evoluísse muito mais. Por tal, defende, é necessário existirem condições infraestruturais que atraiam mais população.

A escassa população da cidade, que se traduz na ausência de massa crítica, não permitiu que evoluísse muito mais. Por tal, defende, é necessário existirem condições infraestruturais que atraiam mais população.

Parte dessas infraestruturas foram já potenciadas pela elevação a cidade há 30 anos. Poças das Neves recorda que no início da década de 90, a reboque da mudança urbanística, criou-se o Centro de Saúde, as Piscinas Municipais e realizou-se uma importante geminação com Le Pléssis-Trévise (França), nome atribuído ao atual jardim municipal. 

Sendo jovem, a cidade também sofre por ser pequena, acabando por não atrair o tipo de investimentos de que beneficiam as grandes cidades. Pode ainda assim tirar partido do território em que está inserido, próximo de concelhos como Batalha e Tomar, acredita.

No âmbito das discussões para o congresso que pretende refletir sobre o que poderá ser a cidade de Ourém em 2041, Poças das Neves constata que o município não é propriamente rico. Não obstante a grande atratividade turística de Fátima, a maioria do dinheiro que entra vai para instituições religiosas, muitas das quais não pagam impostos.

Mais um dos paradoxos deste território.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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