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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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“Ao Hugo Santos – Coisas de Poetas. E de outras histórias também.”, por Adelino Correia-Pires

Um dia escrevi sobre ti, Hugo, sem que tu o soubesses. Não to disse, não sei se leste, mas mesmo que o tivesses feito, a ti não me referi explicitamente. Foi num texto a que chamei ‘Coisas de Poetas’, a propósito do Prémio Pessoa atribuído ao Herberto, onde passeei de Seteais até Cascais, saboreando a recusa antecipada feita à Clara Ferreira Alves e ao Alçada Baptista.

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Falar contigo, é algo que não se explica, porque não se esgota. Mas precisamente porque se não esgota, também se não repete. E é por isso que falar contigo é um afago. E poder ler-te, um privilégio. Porque o poderemos fazer sempre que quisermos. Tantas quantas nos apetecer.

E agora, apetece-me. Apetece-me ler-te e voltar a escrever sobre ti. Porque tu escreves como poucos. Como muito poucos, aliás. E porque, se “ Somos de mais para este Sol, somos de menos para esta Luz…”, para a luz da nostalgia de quem, estando momentaneamente ausente, esteve sempre presente, naquele passado sábado, quando um grupo de bons amigos se juntou para te agradecer as grandes viagens que foste fazendo “… da soleira da porta até ao outro lado da rua…”.

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Lembras-te Hugo, quando há uns anos em tua casa, que na do Herberto nunca lá estive, falámos da vida, de livros, de tanta e tanta coisa? E tu, mestre na arte das nostalgias, me falaste do meu tio Manuel Moreira lá de Campo Maior, companheiro não sei se dos pássaros se das utopias? No fim, foste à estante, puxaste a “Poesia Toda” do Herberto. Percebi, pelas capas, que tinha sido lido, relido, remexido. Havia sido da tua filha Ana Maria e depois teu. Era um livro assim, a modos que especial. Nele manuscreveste em muitas e tantas páginas o rascunho de um outro livro. E dedicaste-mo. E ofereceste-mo. Daí ter nascido o meu texto “Coisas de Poetas” sem que eu nunca tenha divulgado toda a história.

E quando, no passado sábado para ti olhei sem que ali estivesses, senti que aquele seria o momento. E partilhei-o com a tua filha Ana Maria. E partilho-o agora com quem me ler. Porque esta é uma daquelas histórias que um dia deveria ser contada. A história do tal livro do Poeta-Maior que me ofereceste e que conservo como “Poesia Toda… e muito mais”. Porque nele, nesse mesmo livro, manuscreveu outro Poeta-Escritor, um outro belo livro.

Cá está ela, a história e o(s) livro(s). O do Herberto e o teu, Hugo. Um impresso, outro manuscrito. Coisas de poetas, meu caro. E dos maiores.

“…Devo poesia a demasiadas coisas e a demasiadas gentes.
Pagá-la-ei algum dia?
Creio que morreram muitos dos que me eram credores.
Habitam porventura um inóspito lugar onde
não chegará nunca a voz nem a escrita.
Ou talvez falem outra língua,
inóspita também ela e intrusa
da boca que a declinou.
De menos fui para o que pensei possível
e demais para as poucas certezas com que me confundi.
Há certamente uma terra para lavrar o vento
e semear as primeiras chuvas de Setembro.
Aí me vereis de olhos tristes e apaziguadores,
deixando passar entre os dedos
as pacientes sombras do entardecer…” 

(“Ofício das Nostalgias” – excerto manuscrito por Hugo Santos no livro “Poesia Toda” de Herberto Helder)

Foto: Adelino Correia-Pires

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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