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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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«António Botto – no lugar certo», por Adelino Correia-Pires

O alfarrabista Adelino Correia-Pires foi quem ‘descobriu’ o quadro que retrata António Botto, uma pintura a óleo sobre tela, cuja autoria é atribuída a Abel Manta ‘pai’, contemporâneo de António Botto, e que se terão conhecido em Lisboa. Um saído de Gouveia (o pintor), e António Botto, de Concavada, Abrantes, tendo ambos ido muito jovens para a grande metrópole.

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“Encontrei o quadro num leilão em 2010, no âmbito da minha atividade normal de alfarrabista, disputei-a e comprei-a. Por ser o António Botto e não por quem o pintou, mas sendo um Abel Manta, que só soube depois de o ter adquirido, só releva e valoriza a qualidade da pintura e daquele trabalho superior”, disse Adelino Pires ao mediotejo.net.

“É uma peça de coleção, uma peça de Museu, e agora está no lugar certo, que é em Abrantes, desde que em 2015 a Câmara Municipal decidiu adquirir este quadro” do patrono da Biblioteca Municipal, a quem o poeta empresta o nome e que em 2017 cumpriu 120 anos sobre o seu nascimento, por terras de Concavada.

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Adelino Correia-Pires disse ainda manter-se “atento” a outras oportunidades de aquisição de material histórico de alguns artistas e escritores, entre outros, tendo conseguido adquirir nos últimos anos um poema manuscrito por António Botto, uma fotografia do poeta quando era muito jovem, e  livros autografados pela pena do próprio Botto.

BOTTO (1)Publicamos na íntegra a intervenção do alfarrabista Adelino Correia-Pires no pretérito dia 20 de maio, na Biblioteca António Botto, em Abrantes, na apresentação do retrato de António Botto (do pintor Abel Manta), no âmbito da «Exposição – 100 anos de autores abrantinos»)

” Quando, no mundo labiríntico do meu espaço no centro histórico de Torres Novas, uma livraria alfarrabista salpicada de pintura, de faiança portuguesa e de um ou outro objecto de colecção, quando, dizia eu, alguém entra pela primeira vez, a hesitação instala-se.

Alguns desistem e desaparecem de soslaio, outros arriscam e mergulham no espaço. Por lá, no meio dos livros mais ou menos raros, invulgares ou simplesmente curiosos, vagueiam os bustos de Camilo, Eça ou Herculano, atentos e cúmplices aos dois dedos de conversa de quem resiste.

Pelas estantes, livros, muitos livros. Pelas paredes, gravuras, outras pinturas e os rostos da escrita.

Desde há muito que poetas e pintores se cruzam. Como disse Maria Lamas, grande Senhora, nascida na terra onde me instalei há um bom par de anos, “para um Artista-Criador – seja poeta, pintor, ou músico, não creio ser possível encontrar um intérprete mais fiel da sua personalidade, do que a sua própria Obra”.

Disse-o numa conferência a 3 de Maio de 1931, há 85 anos, a propósito de um Concerto dos muitos que Emma Romero da Câmara Reys promoveu e divulgou no Salão da Liga Naval em Lisboa.

Se disto vos falo é porque, um dos aqui presentes, também por lá andou. Sim, mestre Abel Manta, que tão bem retratou António Botto, ali deixou a sua marca no superior retrato a óleo de outro mestre, Aquilino Ribeiro, mestre da prosa, chamado a conferenciar magistralmente sobre os “Natais da Nossa Terra”, naquela década de 30.

Como vêem, cá está a mescla da arte e dos seus mestres. O pintor, o prosador, o poeta.

Donde nos vem então o belíssimo retrato de António Botto, hoje finalmente no lugar certo?

Essa é a história que ficará por contar. Por mim, apenas vos contarei um pouco dela. Da que me envolveu enquanto alfarrabista quando, num leilão de livros, me apercebi de uma tela retratando o poeta. Senti que, naquela noite, aquele seria o meu momento. E assim foi. Disputei o retrato e acabei por conseguir adquiri-lo. Alguém me segredou que seria um “Abel Manta”. Para mim, o importante era ser o “António Botto” pintado por alguém de qualidade superior.

Mantive-o comigo durante alguns anos e, para evitar a sua degradação, recorri a um reconhecido especialista, Jonathan Gould, que procedeu à intervenção adequada para a sua conservação e restauro de acordo com os métodos prescritos no Instituto Internacional para a Conservação de Obras Históricas e Artísticas.

Foram muitos os momentos em que, olhando para o olhar amendoado do poeta, me apeteceu perguntar-lhe tanta coisa…

Um dia, talvez adivinhando os meus pensamentos, respondeu-me com uma carta (suponho que inédita) que escreveu ao seu amigo e advogado de então, Luiz Nóbrega, datada de 14 de Março de 1946, um ano antes de partir para o Brasil.

“Querido amigo Luiz Nobrega

Um episodio para o nosso processo: uma tarde fui à Rua do Alecrim para receber algum dinheiro, tarde marcada por ele, fim do dia, seis e meia.

Pediu que esperasse um pouco porque saíamos ambos. Eram sete e um quarto, saíu. Saímos os dois, e subimos a rua do Alecrim.

– Que, afinal, não podia arranjar-me dinheiro; tivesse, mais uma vez, paciência!

Respondi-lhe que iria pedir a uma livraria, àquela que ainda tivesse um empregado, – à Bertrand, por exemplo, – a fineza de me emprestarem dinheiro para o carro que me levasse perto de casa.

Olhou para mim; nisto, parou um taxi; mandou-o parar; pediu-me para subir.

Mandou que fosse a Campo d’Ourique, à Rua do Tenente Ferreira Durão, e quando lá chegou, disse-me: isto fica para a nossa conta.

Dei-lhe as boas noites, e fui para casa. Tire as conclusões, e veja a qualidade do animal!

Seu velho e dedicado amigo de sempre,

António Botto – março 14 de 1946 – Lisboa – Sua casa

P.S. Logo que tenha esta garganta sem dores irei ao encontro do melhor dos amigos. Mas, escreva, duas palavrinhas. A.B.”

Passado algum tempo Botto partia para o Brasil e o resto da história não me caberá a mim contá-la.

A partir de um dado momento, senti que o poeta e o pintor, deixavam de poder ser apenas meus. O lugar certo seria outro. A biblioteca que lhe deu o nome, do concelho onde nasceu seria, sem dúvida, o local onde poderia continuar a partilhar confidências e desabafos. E onde aquela obra-prima deveria figurar para sempre.

Porque Botto o merece e Abrantes agradece.”

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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