Antigo funcionário da Câmara da Barquinha morre num acidente em Macau

A morte de Luís Vasco Ferreira, de 37 anos, num acidente de moto ocorrido em Macau na noite de quarta-feira, 30 de março, provocou consternação a vários antigos colegas que deixou na Câmara Municipal da Barquinha, onde trabalhou entre 2008 e 2012. O português estava a residir em Macau, onde tinha família.

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De acordo com o apurado, o acidente ocorreu no acesso à Ponte de Sai Van, uma das três que liga a península de Macau e a ilha da Taipa, no sentido Taipa-Macau, por volta das 22.30 horas. Vasco viria a falecer uma hora mais tarde no hospital público de Macau, disse a Polícia de Segurança Pública à agência Lusa.

“Mais um amigo da minha Idade que já não se encontra entre nós…”., lamentou Pedro Gomes, funcionário da autarquia. “Um dia triste! Acordar com a notícia de que um amigo já não está entre nós deixa-nos de rastos. A distância nem sempre apaga as amizades. Por vezes ficam ainda mais reforçadas”, lamentou o amigo João Mendes que descreveu Vasco – como era conhecido – como uma pessoa que era “amigo dos amigos, forte nas suas convicções e acima de tudo uma pessoa com coragem”.

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Luís Vasco Galrinho Martins da Guia Ferreira era natural da aldeia de Azinhaga do Ribatejo, terra natal do Prémio Nobel, José Saramago. Ainda não se sabe quando se realizará o funeral.

A sua amiga e jornalista Ana M. Nunes escreveu um texto de despedida no blogue http://ounicornio.blogs.sapo.pt que reproduzimos na íntegra:

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“Vasco, hoje a tua aldeia ficou sem cor”

José Saramago disse sobre a morte;

«Hoje estamos cá, amanhã não estamos. »

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Querido amigo,

Eram duas da manhã de há quinze anos atrás. Conversávamos online num chat do mirc. Eram duas da manhã, tínhamos 21 anos. A internet tinha chegado à aldeia e era uma novidade. Não me lembro sobre o que falávamos, talvez sobre nada de jeito, o habitual. No meio da conversa escreveste algo que não gostei e na brincadeira, ameacei dar-te uma «galheta nas trombas». Continuaste a picar-me. Saí de casa de bicicleta e bati à tua porta de casa. Não abriste. Ficaste sim, a olhar-me atrás do postigo, assustado. Tu, assustado, com esse metro e noventa e a calçar o 47!

– Que queres aqui, Ana?! – Perguntaste-me divertido.

– Vim dar-te uma galheta nas trombas! – Respondi.

Rimo-nos. Peguei na bicicleta e voltei para casa.

Teu pai dizia-nos que acabaríamos por casar um com o outro. Olhávamo-nos e metíamos os dedos à boca, em sinal de vómito. «Casar um com o outro? Nunca!», dizíamos. Não tivemos uma amizade presente de longos anos, não partilhávamos os mesmos amigos, gostos ou objectivos de vida. Éramos somente dois jovens com a mesma idade que se conheciam desde crianças e que se davam bem.

Diariamente conversávamos num dos cafés da aldeia. Jogávamos às cartas, contavas-me as tuas aventuras e assististe ao início do namoro com o Filipe, foste ao nosso casamento e partiste para Macau onde estiveste vários anos. Deste-me os parabéns pelo nascimento do Francisco e nunca te esqueceste do meu aniversário (ambos fazemos anos a 13).

Disseram-me que partiste esta madrugada. Ainda há poucas semanas perguntei por ti aos teus pais, Lídia e Carlos. Falámos de como eras aventureiro, destemido e rebelde. Nada fazia prever que hoje, os deixarias sem coração.

Tua enorme família e amigos choram por ti, interrogam-se porque partiste tão cedo de forma abrupta. A nossa aldeia hoje está triste, cinzenta, soturna. Perdeu um dos seus jovens, perdeu mais um pouco da sua alma. Os teus olhos verdes não estão mais entre nós, mas esse teu espírito rebelde e verdadeiro, esse, pairará na nossa memória para sempre.

Se for verdade o que dizem por aí, que a verdadeira Vida começa depois de partirmos, dá beijos meus aos meus avós, ao meu primo Fagulha e ao Jorge.

Vasco, até um dia. Tenho a certeza que nos iremos reencontrar.

Ana

 

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