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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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“Antero e Castilho – Mais um ano de “Bom Senso e Bom Gosto”, por Adelino Correia Pires

Em Setembro de 1865, há mais de cento e cinquenta anos, o meio cultural português agitava-se com a polémica entre o “status quo” de Castilho, António Feliciano de Castilho, e o arrojo de Antero de Quental.

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Quando o velho Castilho, olhando do interior da sua cegueira, refastelado na sua provecta idade e avesso a aventuras foi agitado por aquela estudantada coimbrã, encrespou-se, irritou-se e fez-se ouvir. Habituado a apadrinhar um ou outro pupilo que lhe seguisse os métodos, queria lá saber agora daquela gentalha moderna, misto de agitadores e metediços. Fosse porque os olhos o não permitissem ou porque mesmo às apalpadelas o não quisesse sentir, a António Feliciano não lhe falassem em aventuras, em desvarios poéticos ou em odes mais ou menos modernas.

Isso seria para um tal Antero, açoriano, dos Quentais de Ponta Delgada, cabelo enruivado e alma endiabrada que dera em partir a loiça por aqui e por ali, numa Coimbra boémia, idealista e intelectual.

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E o curioso é que ambos haviam tido algo em comum. Fôra com Castilho que Antero, ainda menino, começara a afrancesar as primeiras letras quando aquele, já então com quarenta e sete anos, se instalara em Ponta Delgada, desgostoso com o insucesso do seu “Methodo Portuguez” que seria suposto ser para leitura repentina e não para indiferença duradoira.

O caldo entornou-se com o posfácio de Castilho aos “Poemas da Mocidade” de Pinheiro Chagas. Os tempos haviam mudado e Antero, cansado de tanto elogio mútuo entre românticos, reagiu com a célebre “Bom Senso e Bom Gosto – Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho”, subscrevendo-a com um “Nem admirador nem respeitador, Anthero de Quental”.

Foi o rastilho daquela que, ficaria conhecida como a Questão Coimbrã, qual pedrada num charco ultra-romântico. Nela se envolveram, por um lado, figuras como o próprio Castilho e os seus apaniguados Tomás Ribeiro e Pinheiro Chagas e por outro, os então inconformados Antero, Eça de Queiroz ou Oliveira Martins. Com direito até a um inimaginável duelo entre Ramalho Ortigão e o próprio Antero, ocorrido em Fevereiro do ano seguinte.

Veio depois a Geração de 70, vieram as Conferências do Casino, e tudo o resto que numa simples crónica ficará por escrever.

Porque escrever sobre Antero de Quental, talvez lá um dia num qualquer Setembro, quando se ouvirem os ecos dos dois tiros com que também nos Açores onde havia nascido, o Poeta decidiu partir. Talvez lá, onde estiver, continue escrevendo as suas Odes e Sonetos, olhando de longe a casa que o viu nascer em Ponta Delgada, numa tal Rua do Lameiro, hoje ironicamente chamada, Rua António Feliciano de Castilho.

Adelino Correia-Pires | 17 Setembro 2018

•             ( Crónica publicada em Setembro de 2015 no JT, nos 150 anos da polémica “Bom Senso e Bom Gosto” e agora reescrita)

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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