“Antepasto e Repasto”, por Armando Fernandes

Se consultarmos os dicionários dizem de antepasto ser o prelúdio de uma refeição, os mesmos concentrados de saberes acrescentam a ligação do vocábulo à cozinha italiana desdobrando-se na enunciação de vitualhas que compõem os variados antepastos.

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Os dicionários relativamente a repasto afirmam ser sinónimo de refeição, há os que aludem à sua origem e decomposição, assinalam ser festim, acto de comer abundantemente, ou seja: comida em abundância. No entanto, aludem a pasto, a pastar novamente. A «Bíblia» da gastronomia, o fundamental Larousse Gastronomique não regista os termos, insere repas e pas.

Vem o acima referido porque há tempos no decorrer de almoço de esmiuçamento de dizeres e curiosidades gastronómicas alguns convivas glosaram o antepasto como antes de pastar e o repasto no pastar duas vezes trazendo ao centro da mesa a mastigação dos animais ruminantes. A conversa aqueceu, algumas faces crisparam-se, vieram à tona argumentos puristas de defesa da língua portuguesa, esgrimiu-se a tradição dos cardápios escritos em língua francesa (ainda em voga aqui e ali), ouviram-se protestos relativamente a cardápio, de imediato entrou de rompante na discussão o «imperialismo» da língua inglesa na nona arte, tornando-se impossível o acordo entre continentais e ilhéus (defensores do inglês).

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Da jocosidade do pastar passou-se a azia de pasmar, um linguista referiu exemplos de cosmopolitismo culinário de várias proveniências orientais (China, Índia, Japão, Tailândia e Vietname) e ocidentais (Brasil, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Jamaica, México) acentuando a aclimatação e interpenetração dos mesmos porque o Homem come tudo, mas não come de tudo.

O repasto continuou mais líquido que sólido, as notações bibliográficas choveram, as línguas soltaram-se num emaranhado poliglota estrídulo e esfusiante, acusei os ingleses de nos terem surripiado palavras a designarem alimentos ao apossarem-se do continente indiano, lembrei a tempura portuguesa hoje na dependência dos japoneses, acrescentei a gula espanhola neste e noutros casos.

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Atirei a rematar o facto de a feijoada brasileira ser uma reformulação da portuguesa, mas a matricialidade é nossa e bem nossa. O que fui dizer!

Uma carioca secundada pelo Cara seu marido fingiram indignar-se, acusaram-me de colonialista, quem diria, procurando refutar o irrefutável, a senhora ficou brava ao ouvir-me dizer que o português inventou o mulato. A troca de opiniões luso-brasileiras ficou por aí.

O tema é farto, certamente, irá continuar a justificar repastos repartidos por cá e acolá. O discutido não é nenhuma chinesice como a brasileira afirmou. Vou tentar fixar algumas palavras em mandarim para lho provar e comprovar.

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