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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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“Ambientalismo, Cordão e Desaforos”, por José Trincão Marques

Quod scripsi, scripsi.”
Pilatos, in Evangelho de São João, XIX,22

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Ambientalismo: O ambientalismo consiste num conjunto de correntes de pensamento e movimentos sociais que têm como principal preocupação a defesa do meio ambiente, reivindicando a prática de medidas de proteção e valorização ambiental.

O ambientalismo preconiza uma profunda mudança nos hábitos e valores da sociedade em que vivemos e o estabelecimento de um novo paradigma de vida e de desenvolvimento sustentável.

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O desenvolvimento sustentável pode definir-se simplesmente como uma conceção do progresso que satisfaz as necessidades do presente, sem comprometer a possibilidade das futuras gerações satisfazerem as suas.

Para além disto, o ambientalismo invoca os valores éticos que impõem o respeito pelos valores intrínsecos (e não meramente instrumentais) dos ecossistemas e de todos os seres vivos.

A defesa do ambiente constitui um imperativo ético de toda a humanidade.

Segundo o Relatório da ONG Britânica ‘Global Witness’ que mede a violência contra ambientalistas, o passado ano de 2017 foi o ano mais violento para os defensores do meio ambiente em todo o mundo, com 207 vítimas mortais, tendo 60% deles ocorridos na América Latina.

Pelo segundo ano consecutivo o Brasil ficou no primeiro lugar deste sinistro ranking com 57 assassinatos de ambientalistas.

Em segundo lugar ficaram as Filipinas, com 48 homicídios e o terceiro lugar foi ocupado pela Colômbia, com 24 mortes. Em África foram assassinados 19 ambientalistas, 12 dos quais na República Democrática do Congo.

Para além destes assassinatos, foram registadas ameaças, coações, agressões e perseguições morais a ambientalistas por todo o mundo.

Cordão: O músico, poeta, cantor e escritor brasileiro Chico Buarque, durante os anos da ditadura militar no Brasil (1964-1985), utilizou recursos geniais para fazer escapar ao crivo da censura alguns temas oposicionistas e defensores da liberdade, usando palavras ambíguas, inversões irónicas, pseudónimos e versos dotados de duplo sentido.

Em “Cordão” (1971), que pode ser ouvida aqui, Chico Buarque parece referir-se a uma canção de amor, de alguém apaixonado que se recusa a fechar as portas do coração e a trancar no peito a sua paixão.

Com mais atenção percebemos o incentivo à união de todos os oposicionistas da ditadura milita para a derrubar.

A palavra vendaval juntamente com a palavra carnaval são metáforas para a transformação, para a transgressão, associadas à alegria, à força e à vitória.

Quando oiço hoje esta canção associo-a à luta justa, atual e necessária dos ambientalistas brasileiros e de todo o mundo.

“Ninguém
Ninguém vai me segurar
Ninguém há de me fechar
As portas do coração
Ninguém
Ninguém vai me sujeitar
A trancar no peito a minha paixão

Eu não
Eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar
Fugir
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir

Ninguém
Ninguém vai me ver sofrer
Ninguém vai me surpreender
Na noite da solidão
Pois quem
Tiver nada pra perder
Vai formar comigo o imenso cordão

E então
Quero ver o vendaval
Quero ver o carnaval
Sair
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Alguém vai ter que me ouvir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder seguir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder…”

Desaforos: Também em “Desaforos” (2017), que pode ser ouvido aqui, Chico Buarque utiliza mais uma vez a ambiguidade, a ironia e o duplo sentido das suas palavras.

À primeira vista, parece referir-se a uma relação que terminou, ou à resposta admirada de um homem a uma mulher que fala mal dele pelas suas costas, apesar de não existir entre ambos intimidade e cumplicidade (nunca bebemos do mesmo regato).

Porém, “Desaforos” foi composto, segundo explicação do próprio Chico Buarque, a pensar nas pessoas que atacam, agridem e ridicularizam outras pessoas nas redes sociais, nos cafés, nas ruas, nos restaurantes (como lhe aconteceu a ele próprio recentemente), ou em qualquer lugar e por meras diferenças ideológicas ou de opinião (onde se inclui o anti-ambientalismo e o negacionismo climático).

“Alguém me disse
Que tu não me queres
E que até proferes desaforos pro meu lado
Fico admirado por incomodar-te assim
Jamais pensei
Que pensasses em mim

Nunca bebemos
Do mesmo regato
Sou apenas um mulato que toca boleros
Custo a crer que meros Iero-Ieros de um cantor
Possam te dar
Tal dissabor

Vejo-te a flanar pela avenida
Como dama
Florescida num viveiro
E em salões que nunca vi
Serei o primeiro a duvidar
Que em horas vagas
Os teus lábios delicados
Roguem pragas por aí

Ouço dizer, mas
Deve ser mentira
Nem a tua ira eu acredito que mereça
Ou que vires a cabeça pra enxergar no breu
Um vagabundo como eu.”

Presidente da Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e da Assembleia Municipal de Torres Novas. Mestre em Gestão e Conservação da Natureza e Doutorando em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Lisboa. Foi assessor jurídico do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e da Reserva Natural do Paul do Boquilobo durante cerca de quinze anos. Advogado há mais de 25 anos, participa ativamente em vários
órgãos e institutos da Ordem dos Advogados Portugueses.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Ninguém das áreas científicas ambientais nega as alterações climáticas, existem antes sérias dúvidas, suportadas por muitos estudos académicos que contradizem a teoria do Aquecimento Global promovida pelo IPCC, segundo a qual o CO2 induz ao aumento de temperatura do planeta.
    A discussão em ciência é necessária, e para tal é necessário haver investigadores a favor e do contra, assim evolui a ciência… minimizar as alterações climáticas à simples relação entre a relação ( ainda não cientificamente comprovada) existente entre o aumento de CO2 antropogénico e a Temperatura, significa eliminar todos os muitos componentes dos processos geológicos que ocorrem no nosso planeta e porque não(?) no nosso Sistema Solar. Há que evitar cair na tentação simplista de confundir quais serão os processos que fomentam as alterações climáticas e os eventos que promovem os fenómenos metereológicos extremos. Cumprimentos cordiais

  2. Uma coisa é certa: as suspeitas são fortes. Se mantivermos numa postura de nada mudar, até haver provas definitivas e irrefutáveis da relação entre alterações climáticas e atividade humana, pode ser demasiado tarde para se tomarem medidas. Em segundo lugar, em nome da transparência seria bom identificar os autores dos estudos académicos que contradizem a teoria do aquecimento global e as respetivas declarações de conflitos de interesses.
    Historicamente as teses dos ecologistas foram sendo consideradas alarmistas, mas os factos têm vindo a demonstrar (infelizmente!) a sua justeza. Como exemplo recordo a morte do Mar Aral.

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