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Terça-feira, Dezembro 7, 2021
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“Amamento duas crianças de idades diferentes… what?!”, por Marta Gameiro Branco

Quero deixar desde já bem claro que não sou fundamentalista. Quem quer, amamenta, quem não quer, não amamenta, ponto. Saúde mental da mãe em primeiro lugar, desde que devidamente informada. De todas as histórias que li nos últimos 3 anos, 80% das amamentações mal sucedidas são devido a falta de informação e falta de apoio. Os outros 20% são as mães que não querem e não conseguem assumir isso. Não se iludam: tão julgada é a mãe que amamenta prolongadamente como aquela que não quer amamentar.

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Não é a amamentação que vai ditar a maternidade mas pode dar verdadeiramente cabo da cabeça de uma pessoa. Mas também não aceito que amamentar seja para quem pode e não para quem quer. Isso é uma grande tetra! Desde que o leite artificial (LA) entrou em Portugal nos anos 50 que as nossas mães e avós foram perdendo uma sabedoria milenar. As mulheres foram levadas a crer que não eram capazes de nutrir as suas crias e passaram essas inseguranças às filhas. Hoje em dia amamentar é essencialmente informação, apoio e no meio disto tudo, de quando em quando, um bocadinho de sorte. Muitas vezes o fulcral é mesmo a teimosia.

Quando tive o meu primeiro filho eu acreditava piamente que havia mulheres que não tinham leite. Pura e simplesmente nunca tinha questionado isso. Só esperava que eu não fosse uma delas. Informei-me do básico e fiquei com as ideias e crenças típicas de uma mãe de primeira viagem.

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O meu Francisco nasceu e (primeiro rasgo de sorte) bastante influenciado pelo parto vaginal, a termo e pelo pele com pele na primeira meia-hora, pegou bem. Além disso (segundo rasgo de sorte) era uma criança calminha e aguentava perfeitamente as supostas 3h que se preconizavam. Vim para casa e ao fim de 15 dias o rapazito começou a resmungar entre as mamadas. Como havia horário a cumprir bora lá introduzir a chupeta para haver sossego.

Ao fim do primeiro mês tive que ir trabalhar. Novo desafio: tirar três biberões de leite com a bomba. Se no início tirava cerca de 270ml por dia, para o fim já tirava quase 1l de leite. Novamente sorte, o bebé não rejeitou a mama apesar de passar dez horas longe da mãe. Manteve um aumento satisfatório de peso. Estava tudo bem. A mãe é que ía dando em doida. Com efeito a bomba não estimula de igual modo que um bebé. Se conseguia tirar leite muito bem na segunda-feira (depois de um fim de semana direto da fonte), na quarta tirar as mesmas quantidades começava a ficar difícil. Dei por mim a pensar “vamos tentar só até ao próximo fim de semana”, consecutivamente. Último golpe de sorte: novo patrão bastante compreensivo e núcleo familiar pouco palpiteiro. Pelo caminho encontrei o grupo de facebook chamado “Amamentação com desmame natural” que me abriu a um admirável mundo novo cheio de informações que eu desconhecia e de experiências inimagináveis. Experiências que me faziam chorar e pensar que face àquele tipo de dificuldades eu talvez tivesse desistido.

Consegui fazer isto até aos 5 meses e meio, altura em que resolvi dar uma trégua a mim própria e introduzir a sopa. A esta altura já tinha que esperar até às 3 da manhã para consegui ter leite que chegue para o dia seguinte. Aos 10 meses deixei de enviar leite para a creche e só dava quando estava com ele. E daí seguimos em velocidade cruzeiro.

No grupo descobri o conceito de desmame natural que, na espécie humana, se situa entre os 2 e os 5 a 7 anos. Li muito sobre o assunto e percebi que aquilo era o que fazia mais sentido para mim. Não tinha lógica retirar algo que me tinha custado tanto a manter. A mama era tão importante para o meu filho que a primeira palavra de três sílabas que disse foi “maminha”. Raramente ficou doente, com episódios de duração de menos de um dia, mesmo tendo entrado para a creche com 5 semanas de vida.

Se é mais dependente? Não creio. Também que grau de independência se espera de uma criança de 3 anos?

Entretanto engravidei novamente. O meu filho não desmamou. Mantive uma gravidez absolutamente normal e ultrapassei as 41 semanas. A minha filha nasceu mais comprida e mais pesada que o irmão.

Na maternidade mamaram ao mesmo tempo, tal como sucede até agora.

O meu filho mamão foi uma bênção na descida do leite. Neste momento a minha bebé tem 2 meses e meio e aumentou 2,5kgs. Não há chupeta porque com a amamentação em livre demanda acaba por não haver necessidade de chupeta. Tudo normal. Tudo bem. Não há cá um irmão a tirar o alimento ao outro ou a prejudicar o seu desenvolvimento. Acredito que este tipo de amamentação, em tandem, até auxiliou a aceitação do mais velho ao mais novo.

Aguardo pacientemente (vá, com uns desesperos pelo meio admito) o seu desmame natural.

Mas isto sou eu. Foi a minha escolha. Tal como dou mama em qualquer lugar, sem pudores. Porque a amamentação quando é normalizada, torna-se invisível.

Médica dentista especializada em endodontia, 31 anos. Mãe, para os bons e os maus momentos. Gosta de questionar, gosta de perceber, ainda que a questão seja óbvia. Porque o mundo é um livro aberto onde há sempre a possibilidade para mais uma leitura.
(E lavem os dentes todos os dias!)

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