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Terça-feira, Outubro 26, 2021

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Alvega | O carteiro António, guardador de postais de Natal, cartas de amor e outros segredos

Apesar do ditado popular, nem sempre quem espera desespera. É bom esperar por desejos que sabemos certos, como o dia de Natal. Mas há uma espera que quase ninguém vive hoje em dia: a do carteiro, nem mesmo nesta quadra festiva. António Matos Filipe, de 82 anos, entregou correspondência durante quase quatro décadas, primeiro em Tramagal, depois no concelho de Torres Vedras mais tarde voltou a Abrantes. Natural de Alvega, reformado dos CTT contou ao mediotejo.net como era importante para a comunidade a chegada do carteiro, uma profissão que parece ter os dias contados.

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Foi carteiro durante 38 anos mas não se lembra da última vez que recebeu uma carta manuscrita. Tal como acontece na maioria das casas de família para além das resmas de publicidade, a única correspondência habitual, a decrescer, são contas, faturas, informações bancárias, avisos das finanças, uma ou outra encomenda, e jornais quando alguém ainda é assinante, substituídas que foram as cartas em papel primeiro pelo telefone e depois pelo correio eletrónico. Não só nas zonas urbanas mas igualmente nas pequenas aldeias vazias de gente e de serviços.

Durante a conversa com o mediotejo.net a tarde de dezembro envelhecia, mas António, à beira de completar 83 anos, não sentia o frio da noite chegar, entusiasmado pela partilha de histórias de tempos moços e saudáveis, anos de sucesso da profissão.

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“Trabalhei como carteiro numa época em que as cartas levavam emoções e notícias às pessoas”. Por vezes a sacola até circulava cheirosa, no caso de alguma mulher se lembrar de perfumar as cartas mas “eram outros tempos. Não queriam que ninguém soubesse que tinham namorado. Ou porque o pai não queria, ou porque era um namoro recente” nascido na ruralidade das viagens até outras terras para ceifar ou vindimar. “Pediam para não entregar as cartas em casa” recorda. Por conta de arranjos com uma vizinha mais discreta era na casa desta que aguardavam leituras as cartas de amor contendo detalhes do quotidiano de quem estava longe, cada pensamento, cada sentimento. Na falta da confidente, o Posto de Correio ou o próprio carteiro servia como lugar seguro de recolha.

Assumindo o papel de guardião conhecia aqueles com “filhos fora do casamento. Ninguém sabia e não ser os carteiros”. Quase pela constituição de um pacto de silêncio, um compromisso de honra de guardar segredos.

Antes de ser carteiro, António trabalhava no talho da família com o pai, comerciante de carnes. Até que um dia foi colocado em Alvega um carteiro de Gavião com uma filha por quem António se enamorou. Em 1955, antes de ir para a tropa, a namorada disse sim, casou e entrou para os Correios como carteiro por sugestão do pai da noiva. Foi colocado em Tramagal onde distribuiu poucas cartas obrigado que foi ao cumprimento militar. Após a tropa calhou-lhe Á-dos-Cunhados, no concelho de Torres Vedras, onde permaneceu cerca de cinco anos. Só depois dos dois filhos atingirem a idade escolar é que regressou às origens por uma troca com o sogro. Quase na idade de reforma “foi para Á-dos-Cunhados e vim eu para Alvega”, conta.

Natural de Alvega, no concelho de Abrantes, António Matos Filipe foi carteiro durante 38 anos

Eram tempos duros para ganhar o pão “ninguém queria ser carteiro. Ganhava-se mais dinheiro a trabalhar como carpinteiro ou pedreiro“. Por dia fazia 20 quilómetros a pé e também distribuía cartas aos sábados. Toda a freguesia, desde o Casal Cortido até a Lampreia era palmeada por um só homem.

“Inicialmente trabalhava sozinho, depois chegou um segundo carteiro e mais tarde um terceiro. Tínhamos muito trabalho. Levávamos as cartas na sacola e as encomendas que podíamos carregar. As outras ficavam no Posto de Correio para serem levantadas. Todos os dias tinha de ir ao Cortido”, explica. Era o último lugar a fazer. “Dava a volta à Coelheira e regressava a Alvega”. Nessa época “ada parte da tarde ainda ficava um carteiro a fechar” na volta do correio.

Eram tantos os quilómetros que se afoitou a mudar de transporte: “Primeiro uma bicicleta e depois uma Vespa”. Os carros chegaram alguns anos depois da democracia. Além disso entregar cartas não era tarefa fácil fizesse chuva ou sol “tinha de ser! E éramos obrigados a conhecer toda a gente porque eram ruas sem nome e portas sem números. Na Casa Branca existiam três indivíduos com o mesmo nome”. Como era feita essa distinção? “Pela proveniência. Um trabalhava na Barragem de Belver as cartas chegam de Portalegre, outro em Constância na fábrica de celulose e outro em Lisboa. Era assim!”.

Ora se por um lado a compra da motocicleta ajudava a descansar o corpo e a cumprir a tarefa, complicava a rotina e as entregas. Quando faltava um carteiro em “Mação ou em São Facundo era eu que ia porque tinha transporte. Aquilo era um problema!” para distribuir as cartas não conhecendo as pessoas, confessa. Até que se queixou do abuso e ir para fora da freguesia passou a ser rotativo.

O correio chegava todas as madrugadas no comboio à Estação de Alvega/Ortiga. “Um funcionário ia buscar a mala à estação e aguardava até que abrisse o Posto de Alvega às 8h00. Havia muito serviço desde pagamento de contribuições até movimentos bancários”. Toda a gente escrevia e alguns telefonavam, por isso no Posto de Correio trabalhavam “duas telefonistas das 8h00 à meia-noite”, recorda.

O Natal era época do ano de muito trabalho. “Sacos e sacos de postais e cartas. As pessoas em muito maior número que hoje. Não havia uma casa que não tivesse gente e havia muito comércio. Alvega tinha 3 médicos, duas farmácias, Registo Civil”. António Filipe culpa as novas tecnologias: “Os telemóveis apareceram e acabaram com tudo!”.

Muitas cartas chegaram também durante a Guerra do Ultramar. Soldados em África, mães e famílias que esperavam ansiosamente por notícias e madrinhas de guerra engrossavam o volume de cartas nas sacolas dos carteiros.

António Filipe recorda que a sua vida de labuta e preocupações não passou apenas pelos CTT. Três anos antes do 25 de Abril de 1974 esbarrou na história do regime. O homem que entregava cartas foi convidado pelo então presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Agostinho Rodrigues Baptista, para ocupar o cargo de regedor, representante da administração central na freguesia de Alvega. Não tinha como recusar.

“Eu sei por que me fizeram o convite”, assegura. A oferta trazia um interesse extra, muito além das qualidades ou características do convidado, como era próprio da ditadura. “A minha mulher era telefonista, e claro existiam três ou quatro telefones na aldeia, portanto todas as (in)confidências e conspirações chegavam” através do Posto de Correio.

“Era eu quem informava a Guarda [GNR]. Todos os dias havia reclamações”, garante. O regedor tratava da resolução de assuntos, desde roubos, passando por cabras a pastar em terra alheia até aos problemas de infidelidade ou “maus comportamentos” avessos ao regime. À conta disso António Filipe guarda memórias que ainda hoje não partilha com ninguém.

Três anos após o convite rendia-se o Carmo, em Lisboa, e a revolução saía à rua em Portugal. No entanto, nada acontece do dia para a noite a função de regedor não terminou na madrugada da ‘Grândola Vila Morena’, foi necessário a engrenagem da liberdade libertar-se de todos os grãos de areia que impediam a mudança. Alguns meses depois “essa função terminou”.

Além da liberdade de expressão com a democracia chegou, para os que não tinham, o direito a uma pensão de reforma e a época de “maior confusão nos Correios” que originaram “problemas e zaragatas” entre famílias, nomeadamente entre casais, algumas vezes sem lugar a reconciliação.

As mulheres “começaram a receber reforma. Pediam-me para não a entregar aos maridos” por via de gastos em maus hábitos como copos de vinho e bebedeiras. Do lado dos homens os pedidos também existiam: “não deixes a minha reforma em casa que a minha mulher gasta-la toda”, queixavam-se. Outros casos incluindo parentes e filhos igualmente ocorreram: “metíamos a carta debaixo da porta e por vezes os filhos ficavam com as reformas. Todos os meses havia problemas”, lembra.

Grande era o volume do negócio daquele sistema de comunicação em Alvega que o Posto de Correio tornou-se pequeno para tanto movimento. Lá pelos anos “em que Mário Soares era presidente da República” mudou de instalações, as mesmas que chegaram a ser palco da detenção de um cliente pela Polícia Judiciária (PJ), por tráfico de droga. Naquele dia “quando cheguei ao Posto o agente da PJ já lá estava. Tinha sido detetada uma encomenda com droga, e esperou que o indivíduo, da Ribeira de Fernando, levantasse a encomenda. E quando ele ia a sair deitou-lhe a mão”.

Anos passados, com a chegada das novas tecnologias e com a privatização os CTT “perderam tudo!” considera. Há atrasos nas entregas e os carteiros, muitos sem vínculo aos CTT, “trocam a correspondência. Não se justifica! Com as ruas e com os números de porta. Ainda esta semana cheguei a casa tinha a correspondência do meu vizinho”, critica, admitindo “talvez falta de pessoal” apesar de facilitar “distribuir cartas e encomendas de carro”.

Quis o destino que nenhum dos filhos de António Filipe escolhesse ser carteiro, embora o mais novo, enquanto militar tenha sido segurança do presidente Ramalho Eanes, abrace há décadas um ofício nos CTT. O mais velho é professor.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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