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Segunda-feira, Novembro 29, 2021

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Alvega | As miniaturas em croché da Maria que queria ser ‘inventora de modas’ (C/fotos)

São mais de mil as miniaturas em croché nascidas da imaginação e das mãos de Maria Galiau. Natural de Alvito, há 18 anos que vive em Alvega, no concelho de Abrantes. Não vende as suas obras, só oferece. E raramente mostra as peças que faz apesar de ter aderido às redes sociais onde tem uma página no Facebook. A coleção guarda-a em pilhas de caixas. Uma herança que quer deixar para os quatro netos e que mostrou ao mediotejo.net.

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Será difícil eleger uma peça entre as mais de mil que Maria Galiau guarda como tesouros. A maioria em caixas de papelão pardo ou colorido, conforme calha. Não há espaço para exibir tanta miniatura tricotada em linha nº12. “Da melhor! Cada novelo custa 8 euros”, garante a alentejana, de 66 anos, natural de Alvito, terra que conhece de cor e salteado apesar da distância que a levou, com o marido e os filhos, há mais de 35 anos até ao Ribatejo.

Razão tinha o pai, ferrador de profissão, embora na prática um faz-tudo, que exclamava quando a mãe de Maria, estupefacta com o arrojo da filha, travava o processo criativo nem sempre bem visto naqueles cinzentos tempos de ditadura. “Deixa a miúda! Quer vestir, deixa!”, recorda.

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Emociona-se. A memória em marcha à ré, ela uma miúda, com um vestido de manga única, de saia curta no Alentejo profundo. A mãe arrepiada com a novidade, a mandar trocar de roupa. Bem se lembra de pasmar a terra com os modelos desiguais que apresentava. “Sem curso de modista, sem moldes, só de cabeça”, sublinha.

Nesta imagem um conjunto de terrina e respetivos pratos, chávenas de jarro, um cadeirão para a boneca e ainda um conjunto de sofás com mesa de centro e até candeeiro de pé alto

Aos pais a vida deu-lhes cinco filhos, “três igualmente engenhosos, um nem tanto e o outro sabe Deus”, porque cedo levou o pequeno. O pai, Vicente, “era um homem muito criativo”, lembra. Passava horas a pintar as típicas cadeiras alentejanas, a fazer cestos ou no tear, na madeira talhava mesas ou outras peças de mobiliário, “fazia pequenas urnas para as crianças falecidas das famílias pobres”, particularmente durante a doença que de quando em vez o levava à cama do hospital por causa da morte do filho mais novo. “Com o desgosto deixou de comer e ficou tuberculoso durante oito anos”, explica Maria.

Foi do pai que herdou a criatividade e talvez seja por causa dele que nas horas dedicadas à malha rendada prefere tricotar cestos de flores. “Inspiro-me nos cestos de verga”, e depois manda a imaginação e a paciência.

Maria mostra-nos uma minúscula panela de pressão para justificar o trabalho minucioso e a tolerância à agulha dotada de um gancho, fina no trato da largura do fio utilizado. “Gasto muito dinheiro neste passatempo, e às vezes pergunto-me: Maria para que é que isto serve?… mas faz-me falta”, afirma. E quando não é Maria a comprar as linhas vai o marido às compras e nunca falta matéria-prima em casa, num gasto mensal de pelo menos dois novelos de linha. “Não há cor nenhuma que eu não tenha!” assegura.

Nem sabe atribuir preço às peças apesar de ter muitos interessados em comprar. “Então brasileiros… através do Facebook, querem comprar… mas não vendo. Todas as peças são diferentes. Só vendia isto se tivesse tempo para fazer e se vivesse no Algarve, lá vale a pena nas lojas de artesanato. Aqui as pessoas não têm possibilidades de comprar nem dão valor ao trabalho”. As peças são posteriormente adornadas com vidrinhos brilhantes, passarinhos de imitação, flores secas, penas ou lantejoulas.

No croché teve a mãe Joana como mestra e com 15 anos executou a sua primeira miniatura, um pequeno fogareiro com uma panela. Como era habitual no Alentejo “estava sentada a rendilhar, a minha mãe queria que fizesse um naperon, mas ao ver na rua a vizinha que cozinhava uns feijões num fogareiro, nas costas dela imitei o que estava a ver”.

O fogareiro e a panela foi a sua primeira miniatura, tricotada quando tinha 15 anos

Aqueles eram tempos duros, de finanças curtas e gente pobre, por isso Maria foi viver com a tia que não tinha filhos. “Queria que fosse professora” mas a jovem sonhava em ser “inventora de modas”. O futuro não lhe trouxe nem uma coisa nem outra, embora tenha costurado centenas de vestidos, saias, calças, bibes e macacões sempre de graça, apenas pelo gosto de criar.

Quando tinha oito anos “a minha tia ia ver televisão para a Casa-do-Povo e eu ficava em casa para coser à máquina” ri. Maria era a costureira de serviço das amigas que suspiravam por vestidos novos para as bonecas, talhados com os restos de tecidos oferecidos pelas modistas. Ainda hoje veste as bonecas da neta Margarida, se preciso for, com o que a natureza dá, sejam folhas de nogueira sejam flores ou espuma de junco seco.

O gosto e a perseverança levaram Maria e a irmã a costurar “70 bonecas em pano” para uma exposição em Alvito. “Os estrangeiros queriam comprar aquilo mas só vendemos duas com uniformes de marinheiro porque eles imploraram”.

Sentada à mesa da sala, que serve de montra às miniaturas que vai espalhando para nos mostrar o seu trabalho, o que ela gostava era de estalar os dedos e ter uma nova oportunidade para realizar o sonho de inventar modas. “Esse é que foi o meu grande desgosto”, confessa. Sem desenhos, bastava olhar para o tecido para ver na mente o resultado final. “Os primeiros vestidos que fiz para as minhas irmãs tinha onze anos” pela época do São João, quando era costume estrear roupa nova.

Inventa as miniaturas em croché para passar o tempo, precisa delas para acalmar os nervos, encontra na linha e na agulha uma forma de afastar a solidão. “Tenho muita gente em casa, mas vê aqui alguém para conversar?” questiona, entendendo os braços na direção do quintal. Uma vida isolada própria da ruralidade, de um Portugal interior cada vez mais sozinho e envelhecido, diferente do Baixo Alentejo que conheceu onde os vizinhos matavam o tempo na conversa.

São dezenas os modelos de chapéus tricotados por Maria Galiau

“Agora não é viver é sobreviver e dantes a gente convivia. Tínhamos a máquina de costura atrás da porta” em local estratégico para conversar com quem passava e por ali se detinha em cavaqueira sobre trapos. Em Alvega, no concelho de Abrantes, onde vive há 18 anos, a vizinha Isabel “só a vi este verão no dia dos fogos, se calhar não a via há três anos”, observa.

Em Alvito “tínhamos a mania de ir para a porta da rua, três ou quatro amigas, mas não íamos apenas brincar ou conversar, as nossas mães exigiam trabalho. Umas faziam quadrilé, outras bordavam, umas croché, outras tricotavam. A minha mãe deixava-me ali para fazer uma camisola de malha, eu fazia uma pequenina. Foi sempre a minha ideia”.

Estamos em outubro, mas a aragem de uns 30 graus não pede agasalho, o que transporta Maria até certa vez em que o cunhado deslocado em trabalho para a ilha da Madeira e a irmã de viagem marcada para voar de avião pela primeira vez com as três filhas.

“Estava preocupada, não sabia o que ia encontrar. Naquele tempo não era como agora. Não íamos às compras ao chinês ou ao supermercado. Não existiam lojas de pronto-a-vestir e queria levar roupa”. Então foi deitar os pés ao pedal e em 15 dias “costurámos um enxoval inteiro” como os tecidos que uma cigana errante vendia por aquelas bandas a 100 escudos o metro.

Casou cedo, aos 15 já punha a comida no prato do marido e pouco depois foi transpirar as aflições de dar à luz, um caminho de mãe que passou ao lado de uma carreira de estilista. “Antigamente os ricos é que tinham acesso às coisas, os pobres não. Não fui criadora de moda, mas sou dona de casa”, diz, orgulhosa da educação que deu aos quatro filhos, ainda hoje muito unidos e amigos.

Maria Galiau gosta de passar o tempo a tricotar. O processo criativo ajuda a passar o tempo

Em 1985, por razões profissionais do marido mudou-se para Alpiarça, uma terra de motas e motorizadas, “boa para o negócio”. Comprou naquela vila uma casa que ainda hoje mantém, e dela faz o cofre das obras acumuladas, que depois da sua morte serão herança da família. “Não vendo uma única peça. Às vezes ofereço, mas nunca ganhei meio tostão” com o croché.

Ganhar o pão foi igualmente o motivo da sua mudança para Alvega. Enquanto isso a casa de Alpiarça acumula histórias. Se hoje é um lar familiar, tempos foi em ditadura uma tipografia clandestina do Partido Comunista Português. Uma década após a Revolução dos Cravos “ali encontrámos máquinas, folhetos e panfletos” também eles guardados no sótão e “muito espaço” para criar os filhos. Agora assume a missão de guardiã do número crescente de miniaturas que vão nascendo do génio inventivo de Maria Galiau.

Sem moldes, sem gráficos executa tudo “a olho, ponto por ponto” o que a sua imaginação permitir desde malas a chapéus, de bules a chávenas, de terrinas a pratos, de tachos a panelas. Nunca aquelas peças foram expostas. Só a família e os amigos as conhecem e recentemente alguns virtuais do Facebook, página que abriu por insistência dos filhos. “Não gosto, sou uma pessoa recatada, tímida”, justifica. Até porque manifesta-se um bocadinho aborrecida com as modernices das redes sociais. “Já estive para largar aquilo”. As ‘amigas’ “dizem que vou buscar os gráficos ao estrangeiro para fazer as peças, mas não encontram e depois querem que partilhe os meus… que não tenho, não uso gráficos” garante.

Anos sem tempo para tricotar não lhe roubaram o talento. Após o nascimento dos netos gémeos, agora com 9 anos, voltou a dedicar-se ao croché. “Enquanto eles dormiam” inventava o que se assemelha a brinquedos feitos em linha. Cada peça demora várias horas a executar. “Um cesto de flores leva mais de um dia”, explica, sendo as “mais demoradas”.

E a nossa conversa termina a meio da tarde. Quando a noite chegar Maria já terá todas as miniaturas em croché arrumadas no móvel da sala. De novo quietas, à espera de quem as visite e pasme perante o talento da criadora. Pequeninas, ternurentas, coloridas, aquecidas pelo sol que entra pelas cortinas até deixarem de ver a luz ao serem guardadas em mais uma caixa, substituídas que foram por novas ideias.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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