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Quarta-feira, Dezembro 1, 2021

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Almourol | Os segredos do Castelo que os Templários ergueram há 850 anos

Lugar de beleza singular no nosso país, do Castelo de Almourol avista-se o mundo. Abraçado pelas águas no Tejo, com uma localização estratégica que permitia vigiar movimentos inimigos na mais importante via fluvial do país, é hoje uma fortaleza quase in natura, precisamente pela sua característica insular, cujos condicionalismos evitaram que fosse cenário de guerras. Adaptado a residência oficial da República Portuguesa no século XX, ponto de importantes eventos do Estado Novo, este ano assinalam-se 850 anos desde a sua reedificação por Gualdim Pais, grão-mestre da Ordem dos Templários. Longe de conseguirmos desvendar toda a história deste tesouro das terras de Paio de Pele, podemos aproximar-nos fazendo uma visita guiada pela história e pelas memórias deste ex-libris do concelho de Vila Nova da Barquinha.

Assumimos desde já que esta é uma história incompleta. Aliás, os próprios historiadores e investigadores o admitem: contar a história de Almourol desde o seu início é “quase impossível”. Isto porque, como afirma o professor e curador do Centro de Interpretação Templário de Almourol (CITA), Manuel Gandra, “Almourol ainda é um poço sem fundo.” Há muitas questões que se colocam ainda e “há matéria para muitas investigações”.

Não obstante a impossibilidade de fixar a data de fundação de Almourol (derivado de “mouro”, que significa pedra alta), a sua antiguidade pode ter origem num castro lusitano reconstruído durante o domínio romano no século I a.C., posterior e sucessivamente remodelado por vários povos – hipótese que é justificada pela presença de diversos materiais (despojos) que, nomeadamente nas fundações, se diferenciam da maior parte do aparelho construtivo do castelo.

Vista do Castelo de Almourol para o rio Tejo. A fortaleza assinala este ano o 850.º aniversário desde a sua reedificação. Créditos: mediotejo.net

Diversos investigadores, como José Leite de Vasconcelos, sustentam que o lugar de Almourol corresponderia à cidade romana de Moron, hipótese adversada por outros que, baseados na obra do geógrafo Estrabão, a situam perto da atual Santarém. Verdade é que a utilização de materiais romanos para a sua reedificação ainda hoje é visível no castelo, nomeadamente através dos elementos pétreos.

“Há vários materiais romanos na reconstrução de Almourol por Gualdim Pais. Alguns presentes, e que são memória viva, que são as pedras. Em primeiro lugar, uma epigrafia romana de um túmulo – significa que perto daqui, ou aqui, existiu de facto alguma cidade ou aldeia romana em que os materiais foram aproveitados para reedificação. Mais visível isso se torna junto da base da torre de menagem (toda a base da própria torre, nomeadamente, a zona baixa da mesma é constituída por paralelepípedos, cortes certos, quando a partir de determinada altura já são cortes aleatórios – significa que a pedra não foi trabalhada, foi depositada)”, explica o investigador de história local (e presidente da Câmara) Fernando Freire.

A presença romana ganhou também força com a descoberta de moedas, aquando das escavações de 1898 e 1899, levadas a cabo pelo coronel Gomes Teixeira. “Encontrámos medalhões do século XII, XIV, encontrámos esporas, pedras de coluna, muitas medalhas romanas e de outras dinastias (da I e II dinastias em Portugal)”, conta Fernando Freire. Já em 2018, aquando do acompanhamento das obras de arranjo paisagístico da ilha e do castelo, Carlos Batata encontrou cerâmicas islâmicas durante as escavações – as primeiras provas de ocupação do local no século VIII e seguintes.

GUALDIM PAIS, O MESTRE DA ORDEM DOS TEMPLÁRIOS QUE TROUXE “A LUZ” PARA ALMOUROL

Este ano celebram-se os 850 anos sobre a data de 1171, quando o grão-mestre da Ordem dos Templários, Gualdim Pais, reedificou a fortaleza. É isso que a lápide epigráfica presente junto à segunda cerca (porta) do castelo nos diz: “Na Era de 1209 [1171 na Era de Cristo] o Mestre Gualdim, de Braga, que é cabeça de Galiza, edificou o castelo de Almourol com freires seus irmãos”.

“Na placa epigráfica aparece o termo Lúcifer. Não no sentido de diabo mas no sentido de aquele que traz a luz, que é inspirado divinamente porque [Gualdim Pais] esteve na Palestina e veio iluminar o nosso território. Cumprindo a sua missão na terra santa, voltou para junto do rei que o havia educado e o tinha feito cavaleiro – esta placa é um dos poucos vestígios que permite comemorar os 850 da reedificação de Almourol”, refere o presidente da Câmara da Barquinha ao nosso jornal.

Importa contextualizar: a partir de 1169 os templários tornaram-se detentores de um vasto domínio que lhes deu o controlo de parte relevante do vale do Tejo. Nesse mesmo ano, em outubro, a ilhota granítica onde foi erguida a fortaleza foi doada aos templários por D. Afonso Henriques, no âmbito da doação do castelo do Zêzere. Um ano depois, em 1170, Gualdim Pais concede foral a Almourol – o que sugere a existência de uma povoação permanente (conforme refere o catálogo da exposição do CITA de novembro de 2018, “O castelo de Almourol, Gualdim Pais e a Cavalaria Espiritual”).

“Ciente do valor estratégico do território em apreço, Gualdim Pais terá concretizado de imediato (1171-72) um programa construtivo, edificando ou reabilitando castelos como o do Zêzere, da Cardiga ou Tomar, suscetíveis de alertar, em caso da necessidade, toda a região que integrava as bacias do Tejo, Zêzere e Nabão”, pode ler-se no mesmo catálogo.

E a presença templária é visível neste lugar que é, citando Manuel Gandra, “o mais aureolado de quantos lugares abrigaram templários no nosso país”. Exemplo dessa presença é o alambor, uma técnica defensiva trazida pelos templários para Portugal, vindos das cruzadas da Terra Santa.

“São técnicas de introdução, junto das muralhas, do rampeado – no sentido de dificultar o acesso às muralhas, objetivamente à entrada dentro do castelo”, especifica Fernando Freire.

ALMOUROL, UM LUGAR ESTRATÉGICO DE VIGIA NO MEIO DO TEJO

Com duas cercas [portas], a principal (sita a poente), e a porta da traição (voltada a nascente, para facilitar a fuga), a fortaleza é composta por dois recintos autónomos: “O primeiro, que é feito através da porta de entrada rodeada por dois torreões circulares onde podemos aceder ao primeiro recinto, destinado à habitação da guarnição militar”, e o segundo, na parte superior, onde predomina a torre de menagem, separado do primeiro por uma muralha interna. “No topo do muro da fortaleza, protegido por merlões e ameias, encontra-se o adarve ou caminho de ronda, fundamental à vigilância da fortificação”, conforme é explicado no catálogo do CITA.

Mas, não obstante a robustez deste castelo assente em rocha granítica, Almourol é “parco em memórias militares”, tendo a sua função sido estratégica para vigiar e controlar os movimentos da via fluvial em que se insere, ao invés de cenário destinado a campo de batalhas.

“Não há nenhum relato histórico de que isso tenha acontecido. Os historiadores inclinam-se para que seja um castelo estratégico, um lugar de vigia, de controlo dos movimentos do rio, porque está no meio do rio, todos os bens e mercadorias passam neste território e são controlados. (…) Aliás, seria completamente impossível o acesso por parte da cavalaria ou de outros meios bélicos utilizados para assalto ao castelo (…), e o assalto nunca se teria realizado através de combate corpo a corpo no próprio castelo”, elucida Fernando Freire.

Apesar da passagem dos séculos e dos episódios pelos quais passou, como um “violento incêndio” no século XIV, tendo sido inclusive encontrada “à profundidade de 3,17 uma camada de cinza espessa com fragmentos de madeira carbonizada”, Almourol é hoje um castelo quase in natura. Tal deve-se, nomeadamente, por não ter sido pilhado – como aconteceu em outros castelos onde os elementos pétreos foram reaproveitados pelas populações para reedificar casas.

A este fator, intimamente ligado ao caráter insular da fortaleza, junta-se a já exposta questão de não ter sido cenário de guerras e ainda a realização de restauros, bem como a sua conservação sob tutela militar – depois de extinta a Ordem do Templo, o castelo transitou no século XIV para a Ordem de Cristo, sendo pertença do exército português desde finais do século XIX e até aos dias de hoje.

O BANQUETE DADO POR SALAZAR EM ALMOUROL

Monumento nacional por decreto de 16 de junho de 1910, Almourol foi adaptado a residência oficial da República Portuguesa em 1955, após rejeitada a pretensão da Câmara de Vila Nova da Barquinha anos antes para construção de uma pousada no castelo.

De entre os eventos que aqui tiveram lugar, destaca-se no tempo do Estado Novo o banquete, de caráter propagandístico, dado a 27 de junho 1938 por Salazar (então ministro dos Negócios Estrangeiros) ao corpo diplomático – ocasião que levou a obras de restauro e adaptação de forma a receber embaixadores, cônsules e familiares.

Atualmente administrada pelo Município de Vila Nova da Barquinha, a fortaleza tem uma utilização sobretudo turística, vocacionado para a visitação, para “a parte histórica enquanto memória”, tendo entre 2014 e 2015 a Câmara Municipal promovido o seu restauro e musealização. Inserido em rotas templárias, Almourol tem ainda um centro de interpretação em sua homenagem: o CITA – Centro de Interpretação Templário de Almourol (CITA), já referido nesta reportagem, inaugurado em novembro de 2018.

AS LENDAS DE ALMOUROL

Presente nas mais diversas áreas, Almourol é “um monumento fértil em património cultural intangível”, deixando a sua marca na cultura popular, na literatura – desde os romances de cavalaria, das cortes de amor, na poesia, nas crónicas, citado nos teatros… e nas lendas.

“Gigante de Almourol”, “Dom Ramiro”, ”Almouro”, “Assalto ao Castelo”, “Almourol e da Cardiga”, “Do pescador e das três mouras” são as mais difundidas. Na lenda alusiva ao gigante de Almourol, por exemplo, conta-se que o senhor e guardião do castelo “nele acolheu as princesas Polinarda e Miraguarda, as quais o famoso cavaleiro Palmeirim de Inglaterra tentou raptar em vão, tendo ficando muito maltratado no duelo com o gigante”. “Dramusiando, outro gigante, com ciúmes de Almourol, viria combatê-lo, vencendo-o e conservando as princesas sob a sua tutela”, pode ler-se ainda nas paredes do CITA, que contam outras das lendas, como a de Dom Ramiro.

“Nobre godo que recolheu no castelo um jovem mouro, o qual para vingar o assassinato da mãe e da irmã por cristãos, envenenou a esposa e seduziu D. Beatriz, filha do cavaleiro”, conta a lenda, que diz ainda que a tradição assegura que na noite de São João “o jovem e a donzela aparecem na torre mais alta do castelo, renovando cada ano a maldição que perdurará até ao Dia do Juízo”.

Castelo de Almourol, VN da Barquinha. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Por sua vez, a lenda de Almourol conta-nos a estória de um emir muçulmano cuja filha “se apaixonou por um cavaleiro cristão que a atraiçoou, abrindo as portas da fortaleza aos seus companheiros de armas; em consequência desse ato, o emir preferiu lançar-se ao rio, abraçado à filha, a ficar cativo dos cristãos”.

850 anos depois, Almourol é ainda um poço sem fundo

Num incontável leque de histórias, memórias e descobertas que a cada dia encantam e embelezam mais Almourol, há ainda muitos segredos por desvendar. Estará mesmo um poço entulhado junto à Porta da Traição? Será aqui que está guardado o tesouro templário? O que ainda falta descobrir? Muito, certamente. Porque Almourol é ainda, 850 anos depois, “um poço sem fundo”, possível de visualizar de variadas maneiras, em diversas temáticas.

Nas palavras do presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, os 850 anos de Almourol resumem-se a “viver e conservar”.

“É preciso sobreviver, resistir e acreditar. Acreditar sempre que podemos conseguir um mundo mais solidário, mais humano e dignificar aquilo que Gualdim Pais construiu, e que tem a ver com viver e sentir Portugal.”

Como referimos no início desta reportagem, do castelo de Almourol avista-se o mundo, mas ele encerra em si mesmo um mundo muito maior, que merece ser (re)descoberto.

DESCUBRA UM POUCO MAIS SOBRE O PASSADO E O PRESENTE DO CASTELO DE ALMOUROL NESTA FOTOGALERIA

Abrantina mas orgulhosa da sua costela maçaense, rumou a Lisboa com o objetivo de se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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