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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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“Almeida Garrett – um príncipe, mais que um visconde”, por Adelino Correia-Pires

Comecemos pelo fim. Alguns anos antes, com um “foge cão, que te fazem barão! Mas para onde, se me fazem visconde?” ironizava Garrett a profusão de condecorações com que a Rainha confortava a torto e direito. Longe imaginaria que também ele haveria de esticar o pescoço e fazer-lhe a vénia. Para alguém, ufano e orgulhoso, aquele título assentava-lhe que nem uma luva, tal qual o colete que se lhe colava ao corpo, que não à alma.

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Se por aqui ficássemos, pouco haveria a dizer sobre um visconde de ocasião. Só que João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett foi muito, mas muito mais do que isso: um verdadeiro príncipe da cultura e liberdade.

Perdoemos-lhe então alguma vaidade na forma e avivemos o conteúdo. Nascido em 1799 no Porto, por ali viveu perto do rio, com um pé na Quinta do Castelo e outro na do Sardão, como se a natureza, a sua e a dos deuses lhe moldassem a musa. Com um ouvido na Brígida, outro na Rosa de Lima, velhas criadas de lendas e lengalengas, as memórias da meninice foram-lhe aguçando o espírito.

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Num Portugal ainda rico mas já decadente e em vésperas de uma invasão que marcaria a história lusitana, Garrett partiu com o pai para os Açores refugiando-se dessa invasão afrancesada, marcada pela napoleónica ambição peninsular. Intuindo-lhe o génio, logo um tio seu, Bispo de Angra, bem quis que o rapaz lhe seguisse o trilho. E o latim, o grego e todos os clássicos ali lhe foram debitados, com pai-nossos e avé-marias, amén. Só que, nas costas do tio e de Deus, escondiam-se também leituras conjuradas e excomungadas.

E aos dezassete anos Garrett encontra em Coimbra o que lhe faltara nas ilhas. Na sua paixão pelo teatro, pelas mulheres e pela liberdade, a inspiração para escrever as suas primeiras tragédias. Na revolução de 1820, a fogosidade com que se entrega à causa liberal e o motivo para o seu refúgio em Inglaterra.

Daí virá a decisiva influência do seu olhar romântico e pitoresco com que mais tarde nos delicia nas “Viagens na Minha Terra”, livro intemporal, que talvez não pudesse ser escrito sem a sua passagem por terras de Sua Majestade. Porque foi por lá, pelas ruínas dos velhos castelos e casas apalaçadas, pelas cultivadas hortas e campos verdejantes, mas, ao mesmo tempo, pelos tristes casebres plantados no chão revolto e queimado, com todos os sinais de um vulcão vizinho, por aquela névoa e cheiro de enxofre e pelos vestígios das minas de carvão, que Garrett assimilou um tipo de romantismo aberto ao exterior, diferente do francês, nação de pensadores e, como tal, muito mais envolta nos seus conflitos psicológicos.

Viveu, depois, num mundo de peripécias várias. Entre França e Portugal onde esteve preso. Com o regresso a Inglaterra e aos Açores. Com a fama, a glória e os dissabores. Mas cultivando sempre uma política de liberdade e uma literatura superior. Foi cônsul e encarregado de negócios em Bruxelas, parlamentar brilhante e sobretudo um homem de vistas largas e obra feita. A ele se deve a criação da Inspecção Geral dos Teatros, do Conservatório de Arte Dramática e do futuro Teatro Nacional.

Da poesia lírica ao teatro, do jornalismo à sua obra romanesca, Almeida Garrett, mais que um visconde de ocasião, foi um príncipe da cultura e da liberdade.

Talvez, melhor que ninguém, Ramalho Ortigão, o tenha descrito nas suas Farpas:

“…Garrett aparece como um mensageiro do novo espírito europeu. Foi ele que, de chapéu branco, calças aos quadrados, gravata encarnada, monóculo no olho, um charuto nos beiços e uma chibata em punho, vergastou as orelhas do velho mundo português e o obrigou a abrir a primeira garrafa de champagne. Nós não éramos senão uns pobres velhotes, uns ginjas, uns chéchés. Foi ele, o primeiro que, por meio dos seus livros, nos deitou nos copos e nos fez beber o vinho da mocidade. E foi depois de reconfortados por esse generoso licor de poesia, que nós aprendemos a estimar a beleza, a amar a liberdade, a compreender as artes e a querer o progresso…”.

Por ocasião da passagem de mais um ano sobre a sua morte, em 9 de dezembro.

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

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