Sábado, Fevereiro 27, 2021
- Publicidade -

““Alienação Parental – mito ou realidade?”, por Vânia Grácio

Todos/as nós já ouvimos falar, pelo menos uma vez, no “Síndrome da Alienação Parental”. Os defensores desta “doença”, referem que a “síndrome de alienação parental” se carateriza pela intenção do progenitor que tem a guarda da criança, de destruir a relação afetiva da criança com o outro progenitor. Recorre-se muito à utilização deste “síndrome”, em situações de conflito parental, em casos de divórcio, ou violência doméstica. No entanto, nem a Organização Mundial de Saúde, nem qualquer outra entidade competente na matéria a nível internacional, reconhece esta “doença”.

- Publicidade -

Os casos de divórcio ou separação são resultado de relações que não correram bem, que se tornaram tensas, desprovidas de sentimentos positivos, com situações mal resolvidas, enfim…de um conjunto de factos que fizeram com que chegasse ao fim. Por si só, são já situações com alguma tensão, em que sentimentos menos positivos prevalecem, em que a mágoa e a zanga falam por vezes mais alto. É portanto comum assistirmos muitas vezes ao uso das crianças, para magoar o outro. No entanto isto não quer dizer que estejamos perante uma “doença”, mas sim perante um situação de conflito que pode ser resolvida com apoio psicossocial ou com mediação familiar.

É normal que as relações entre os progenitores fiquem menos simpáticas durante algum tempo, mas também é normal que voltem a ser cordiais passado algum tempo. Deixaram de ser um casal, mas não deixaram de ser pais. E os pais têm direitos e deveres.

- Publicidade -

As “supostas” falsas acusações de abuso sexual que surgem em processos de divórcio são muitas vezes ignoradas pela justiça, ou negligenciada pelas autoridades, por ser entendimento de alguns que não passa de uma manobra de manipulação da mãe para afastar o pai. Não raras vezes assistimos ainda, a crianças que viram o pai bater, humilhar, violentar a mãe e que depois do divórcio esperam que as crianças se relacionem com eles como se nada tivesse acontecido. Quando isso não acontece, acusam a mãe de “alienação parental” e pedem a guarda da criança para si, sendo que em alguns casos, o pedido é atendido pelo Tribunal.

É certo que uma criança que possa ouvir diariamente que “o pai não presta”, acabe por assumir esse sentimento. Mas também é legitimo que uma criança que assistiu e/ou foi vitima direta de maus tratos, se recuse a estar com o pai. Se eu, que sou adulta posso escolher com quem quero ou não estar, porque é que as crianças não o podem fazer. Acresce o facto de ser um perigo para a criança estar com um pai que é agressor (nos casos de violência doméstica). Já ouvimos muitas vezes dizer que “ele batia na mãe, mas nos miúdos não”. Não?!? Podia não lhes bater mas maltratava-os psicologicamente e emocionalmente. Quem garante que agora que não tem lá a mãe dos filhos para bater, não bata nas crianças? É uma hipótese que pode não se concretizar, mas pode acontecer!

Não podemos deixar que as falsas acusações acabem com a relação com o outro pai/ mãe. Mas não podemos, a priori, entender que são falsas, só porque acontecem na fase da separação/ divórcio do casal. Oiçam as crianças. Avalie-se a situação. Promova-se a mediação familiar. Disponibilize-se apoio psicossocial às crianças e aos pais. Ninguém tem uma varinha mágica, mas acredito que rapidamente as mentiras serão desmontadas (se forem mentira).

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

- Publicidade -
- Publicidade -

3 COMENTÁRIOS

  1. O conceito de alienação parental existe para lá do que se designa Síndrome. Se deseja conhecer melhor o conceito na sua abordagem mais científica veja o estudos do Dr. Craig Childress onde esta situação é abordada em funções de distúrbios psicológicos já largamente aceites e estudados cientificamente. Aliás, ao intervir nestas matérias faz sentido que se atualize com o que existe.
    Todas as situações devem ser investigadas mas ao comentar sobre este assunto é um dever indicar que essas investigações podem demorar muitos anos havendo muitos casos onde demoram mais de 5 anos. Mas se disser o que faz para desmontar rapidamente mentiras isso seria muito útil.
    A lei é clara ao dizer que as crianças devem dizer o que pensam mas não devem ser elas a ter o peso de tomar a decisão.
    Os estudos sociológicos (projecto DOVE) indicam que em 80% dos casos as agressões físicas e psicológicas são mútuas e não existe grande diferença entre homens e mulheres. Pelo que o mais normal é que as crianças tenham assistido a pai e mãe em discussões.
    O seu texto a assumir que é o pai que foi violento está a considerar só metade da realidade.

    A criança ao ser afastada de um dos progenitores está mais propensa a maus tratos pelo outro progenitor ou por outras pessoas com quem este conviva.

    Se alerta para o bem estar da criança e se foca nos pais deveria também dizer que este ano em Portugal já foram mortas 5 crianças que estavam à guarda da mãe, algumas pela própria mãe.
    Não vejo como esta realidade se enquadra nos exemplos que dá.

  2. Assumo, pelo texto que li, que na sua opinião de mediadora de conflitos, adopta uma posição pouco neutra quanto a este assunto. Aponta como “supostas” falsas acusações, e que as mentiras são facilmente desmascaradas…
    Os processos crime destas “supostas” falsas acusações chegam a demorar anos e maioritariamente arquivadas por falta de indícios, chegando, por exemplo em Espanha, a verificar-se 95% de arquivamentos das denúncias de violência doméstica e de abusos sexuais, com a maior percentagem sendo mesmo verificada a validação das acusações como falsas. Em Portugal, a Alienação Parental está em crescimento e essas percentagens deverão ser na ordem dos 80%, segundo recentes estimativas.
    Facilmente, um progenitor guardião, manipula uma criança e implanta falsas memórias ou sentimentos. Não é necessário que o pai não residente (pai ou mãe) seja má pessoa, sendo mais fácil até que seja um progenitor dedicado e afectuoso o alvo mais fácil de uma mente desequilibrada, quem sabe narcísica, borderline, … alguém que pretende ter o controlo e manipulação tanto dos filhos como do/a ex-companheiro/a, para não ter que dar satisfações sobre as suas próprias falhas com os filhos, ou por ciúmes, insegurança, baixa auto-estima, vitimização, ou até para encobrir os seus próprios maus-tratos sobre os filhos, arranjando um bode espiatório que nem pode “fiscalizar” a educação e o dia a dia dos filhos.
    Há de tudo um pouco. Não é simples e quer descambe em síndrome ou outra nomenclatura que se lhe dẽ, o facto é que há cicatrizes que ficam para sempre nos filhos, seja por haver efectiva violência doméstica ou abusos, seja por haver violência ou abusos inventados, que são em si, abusos psicológicos, e como tal, passiveis de ser considerados de violência doméstica.
    Tanto a difamação caluniosa como a simulação de crime estão contempladas no código penal português, bem como a subtracção de menores, entre outros deveres que os alienadores usualmente infringem ou direitos da criança e da restante família que os alienadores limitam.

  3. Que visão tão parcial da questão. O seu artigo surgiu-me por acaso e é assustador que alguém com as suas responsabilidades possa ter um pensamento tão enviesado. Será que actualmente ainda pensa desta forma?

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).