“Alho”, por Armando Fernandes

Descanse o leitor: não vou abordar esta planta nos parâmetros históricos, científicos, muito menos medicinais, porque se o fizesse metia-me numa alhada por falta de conhecimentos. Porém, animado pela experiência prática/praticada do acto de procurar aprazimento degustando ao contrário dos narizes e estômagos esquisitos. Gosto do cheiro e de saborear alhos cozidos em água e no vapor, assados, estufados, fritos, grelhados, guisados, e…crus. Seja na forma de saboreados a sós, testando os taninos de vinhos tintos, seja esfregados numa torrada ou simplesmente numa fatia de centeio escuro, pesado, provindo de forno a lenha, ou ainda tostados imersos em manteiga e anchovas em conserva.

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Os depreciadores da cozinha espanhola diziam (agora só alguns) ser uma cozinha escorada na tríade – sertã, alhos e azeite – cujos molhos resultantes da trindade ficavam pesados e rançosos insultando em gosto os comeres que recebam a molhanga.

O alho obriga a comedimento no seu emprego, obriga a renúncias derivadas da forte presença a diminuir a delicadeza de várias matérias-primas a impedir o seu desfrute em plenitude. Apesar das renúncias, é extensa e versátil a lista de produtos favorecidas pela acção dos alhos, sejam brancos ou de variadas cores e géneros.

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As mestras cozinheiras sabem de ciência aprendida na preparação dos comeres, quais e quando, e as quantidades a empregar. Uma coisa são as açordas, as migas, as sopas, os caldos e canjas, outra as frituras escabechadas em contraponto de frituras de massas tenras e arrozes.

Os alhos fazem parte de receitas «embruxadas» porque derivadas de ambições e vontade na sua concretização no âmbito da culinária negra de filtros e poções sem esquecer o facto de os vampiros e vampiras não suportarem os odores dos dentes de alho. Nesse mundo de superstição também os seguidores e executores comem, só que o receituário difere, enquanto os pratos têm designações estapafúrdias ou mirabolantes.

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Estamos em plena pujança do Estio, a peça ‘Sonho de Uma Noite de Verão’ podia ser, mas não é, pretexto sublime para os teatrólogos abrantino darem a conhecer peça alusivas ao Verão de vários teores e sabores (mesmo as de carácter esotérico) de modo a os espectadores enriquecerem a sua paleta de conhecimentos e sabores num programa composto por sopas frias de alhos, de frutas verdes, de frutos secos, capazes de trazerem ao de cima trabalhos de autores ora na penumbra, lembro Júlio Dantas (a ceia dos Cardeais), do abrantino Solano de Abreu, do cartaxense Marcelino Mesquita e por aí adiante. Em suma: livros que jazem nos depósitos da Biblioteca António Boto, sem esquecer os fundos das dizimadas bibliotecas de Alferrarede, Tramagal, Rossio ao Sul do Tejo e Mouriscas.

Sopa de alho francês fria, carapaus e achigãs em escabeche frio, cabrito assado no forno com arroz-de-alhos, salada verde e alhos laminados fritos e, no naipe doceiro, o toucinho do céu será (é) refeição supimpa em época de pandemia, de untar a máscara, desculpem, a barbela.

Porque sugestões sem execução é tão funesto quanto os dramaturgos em representação vou procurar, mais uma vez, cumprir o sugerido. Vinho? Um tinto elegante, de bom volume da chancela TEJO.

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