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Domingo, Dezembro 5, 2021
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Alferrarede | Não há quem vá a Barca do Pego e não pare na taberna da ‘Maria Torrada’

Em Alferrarede, no concelho de Abrantes, não há quem não saiba onde fica a Taberna da Maria Torrada. Aberta desde 1943 continua a manter uma clientela fiel em Barca do Pego. Por ali passaram gentes de várias regiões do País, de resineiros a trabalhadores das pedreiras de cal hidráulica. Maria Manuela tem 82 anos e toda a vida foi taberneira. Fez amigos e criou laços entre copos de vinho e petiscos com elas.

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Se pensasse nisso, talvez um príncipe encantado e não faltava nada a Maria Manuela Joaquim quando na sua adolescência pegou nas rédeas da Taberna do Torrado, em Barca do Pego, no concelho de Abrantes. Depressa o encontrou. Não era de longe. Vitorino Inês da Silva, serralheiro, profissão que abandonou para ir trabalhar para a CP, casou com Maria tinha a jovem 21 anos.

“Um homem bonito, sportinguista ferrenho mas que não gostava de confusões. Um homem bom!” recorda Maria Manuela ao mediotejo.net, aludindo aos costumeiros desacatos numa taberna em meados do século passado. Viúva há quatro anos, toma conta do estabelecimento comercial sozinha e pela localidade afirma-se à boca cheia: “não há quem vá a Barca do Pego e não pare na Maria Torrada”.

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Do vasto universo de pessoas que se deixam contagiar pelo entusiasmo de Maria Torrada, taberneira toda a vida, todos conhecem a sua simpatia, conversa fácil, histórias aos milhares que vai contando graças à fabulosa memória, os muitos amigos que fez, outros que viu nascer, e continua atrás do balcão, desde 1943, agora a servir os netos dos moços da sua juventude.

Maria Manuela Joaquim, na Taberna da Ti Maria Torrada, em Barca do Pego, Abrantes

Figura vigorosa, resistente, ajeitada à imagem do comerciante à antiga segundo as regras do mundo rural e duro em memória dos tempos em que o pai, Francisco Joaquim (Torrado), era mandarete da Marquesa do Faial, proprietária da Quinta da Anadia, da Fonte da Omnia que dava de beber a toda a comunidade de Alferrarede, e dos fornos de cal hidráulica do Bom Sucesso.

A Francisco Joaquim deram-lhe o nome de ‘Torrado’ teria uns onze anos, porque “certa vez com o calor no trabalho dos fornos tirou a camisa e logo lhe disseram: olha que ficas torrado” e Torrado ficou a vida toda, curta que morreu aos 44 anos vítima de um acidente de trabalho.

“Caiu-lhe uma pedra em cima”, conta Maria. A filha herdou a alcunha de ‘Torrada’ e provavelmente os seus filhos, se os tivesse tido, alcançariam a mesma herança. “Essa foi a nossa desgraça” desabafa quando se refere à falta de herdeiros. Quer Maria quer o marido Vitorino, ambos filhos únicos, deixaram sequer sobrinhos. A Taberna será legado de alguém mas ainda sem destino em testamento.

A foto Francisco Joaquim (Torrado) pai de Maria, e iniciador da Taberna

Por isso Maria casou de luto, cinco meses depois da morte do pai. “Não fizemos festa” recorda. A boda fez-se cinquenta anos depois, por altura da celebração das bodas de ouro.

Por ora Maria abre e fecha as portas da Taberna e ali passa os dias a conviver com os amigos. Ora um copo de vinho, ora um café, ora um maço de tabaco, que ainda agora se fica por três marcas.

Em tempos do Estado Novo, a venda de tabaco obrigava a uma licença especial, tal como os isqueiros, “só vendidos a homens que fumavam”, explica Maria. Tabaco conhecido por “de onça, mata-ratos, marca Duque, marca Definitivos e Paris”.

Francisco Joaquim junto de um guincho de retirar pedra para a cal hidráulica

A venda prossegue desde os tempos em que o pai, não querendo que a filha acabasse com uma gamela na cabeça a acartar pedra à semelhança das mulheres do Pego, vindas do outro lado do rio, decidiu construir uma taberna para a filha. Maria tinha sete anos e a ‘Taberna do Torrado’ passou a servir vinhos e petiscos “bacalhau assado, chouriço, farinheiras fritas, assadas e toucinho assado” explica Maria, com elas (as azeitonas) e com a mãe Jacinta a servir ao balcão. O pai permanece até hoje na taberna, em retrato, vigilante do negócio da filha.

A Taberna tinha três licenças de funcionamento, “uma das 06h00 às 08h00, outra das 08h00 ao recolher e tínhamos outra durante o verão até às 22h30. Hoje podemos ter tudo e mais alguma coisa”, observa. Um copo de vinho “custava três tostões e um copo grande 6 tostões, um litro de vinho 24 tostões,” relembra Maria.

Aos sete anos, antes de ir para a escola, Maria não sabia contar o dinheiro e por isso, quando estava sozinha ao serviço, fazia sete montinhos de três tostões. Mas “o homem dos burros grandes”, como Maria chamava aos cavalos, certo dia trocou-lhe as voltas e chegou com 25 tostões para pagar um copo de vinho.

Maria recusou fazer o troco, e insistia que o homem lhe desse o preço certo. Porventura ficaria até hoje atrás do balcão a bater o pé não fosse o tio António a convencê-la a entregar todas as moedas que tinha depois de receber apenas uma.

Vencida, mas não convencida, assim fez. Envergonhada por não saber contar dinheiro, aprendeu a importância dos trocos para um comerciante. “Quando fui para a escola já sabia. E queria que a professora me ensinasse contas grandes. Era boa nas contas” afirma. Pela escola andou até à quarta classe ao mesmo tempo que ajudava na taberna.

Maria Manuela mostra um retrato em criança com os pais Francisco Joaquim e Jacinta

A estrada cor de barro, onde as patas dos cavalos e dos burros calcavam a terra, estendia-se até à porta da taberna onde Maria proibia o estacionamento de animais. “Não queria porque, quando parados, os burros mijam para o chão e depois tinha de limpar com baldes de água” transformando a terra em lama. Então os homens não desmontavam a montaria e em partilha bebiam da mesma lata meio litro de vinho sem preocupações sanitárias.

“Ninguém ficava doente! Era raro ir-se ao médico. Só em casos extremos. O que diria hoje a ASAE de tal costume?” questiona Maria. Em Barca do Pego existiam dois médicos, “o Dr. Vasconcelos era o médico dos pobres, não cobrava dinheiro a quem não pudesse pagar”, o outro cobrava por consulta 20 escudos, o equivalente a “um dia de trabalho de um homem”, explica.

Nesse tempo a taberna abria as portas às 06h00 e vendia, além do vinho, “aguardente a abafado. Quase ninguém pedia cerveja”, compara. E tinha clientes de todo o lado, gente que vinha trabalhar para a Marquesa “de Envendos, do Carvoeiro, de Gonçalo na Guarda e de Viseu, estes últimos chamados de bimbos, vinham em ranchos para a apanha da azeitona” nos olivais da Quinta da Anadia. “Havia trabalho até janeiro”, diz. Alguns ficaram por cá.

Na falta de frigorífico, para refrescar as bebidas, tinham “um pequeno tanque sem fundo com areia virgem, onde metíamos, todos os dias, água do poço de uma vizinha, que era mais fresca que a do Tejo. Não se exigia muito porque não havia melhor. Não havia luz”, repara, acrescentando que Barca de Pego mereceu eletricidade há cerca de 55 anos.

A água para as lavagens, particularmente para os copos, ia todos os dias ao rio buscá-la no burro, o mesmo que a levava à Fonte da Omnia, caiada pelas moças no dia de São João, na recolha de água para beber, e a Alferrarede, onde se abastecia de vinho no armazém do sr. Vitória, montando dois barris, um em cada lado do animal.

“Éramos os únicos a ter um burro”, comenta, lembrando ainda o sr. Roldão e o sr. Nazaré, ambos com mercearias em Alferrarede. “Hoje não há nada, está tudo a cair”, lamenta.

Ruínas dos antigos fornos de cal hidráulica em Barca do Pego, Abrantes

A Taberna do Torrado era ainda local de paragem, para “comer uma bucha”, dos resineiros que dos anos 1940 aos 1960, em grupos, chegam das aldeias próximas como Alcaravela, Mação e Envendos para a lavagem em Alferrarede dos bidons de resina.

Mas os melhores clientes eram os homens dos fornos da cal que funcionaram até início dos anos 1960. Hoje ainda é possível ver em Barca do Pego, praticamente ao lado da Taberna, ruínas dos fornos.

“Não havia cimento”, revela Maria, explicando que a própria Taberna foi construída com cal hidráulica, tal como a primeira taberna, mais pequena, situada ao lado de um depósito de cal, onde fica a atual e a residência da família Torrado. Funcionou entre 1943 e 1956. A segunda taberna esteve aberta ao público, entre 1956 e 1961, na casa do rancho da Barca do Pego. E como não há duas sem três, a taberna passou-se para o local onde ainda está hoje: à beira da Estrada Nacional 3, no r/c da habitação familiar de primeiro andar, com um espaço reservado para o petisco.

Em Barca do Pego existiam três fornos de cal e a pedreira com 30 metros de profundidade. As pedras extraídas depois de içadas através de um guincho “ficavam 7 dias a arder, tirava-se a cal cozida e vendia-se. As mulheres acartavam as pedras à cabeça até aos barcos” que desciam o rio Tejo até Lisboa.

Mais tarde chegaram os vagões para aliviar o sacrifício do trabalho árduo, tal como as cantorias das mulheres do Pego, entre as quais Maria, que andava horas enquanto a mãe ia até à horta em Valhascos.

Maria Manuela (à esquerda), orgulha-se de já naquela época calçar sapatos em couro, com as duas filhas do capataz dos fornos de cal do Bom Sucesso, com sapatos de pano, e a mãe.

“Cantavam ao despique com as mulheres do outro lado do rio. As mulheres do Pego eram tramadas, e lembro-me que andavam sempre enfeitadas, com um bonequinho ou um raminho de flores ao peito ou no chapéu”.

Era uma época dura, de pés descalços. Maria orgulha-se de calçar, desde tenra idade, sapatos de couro. Eram tempos de trabalho de sol a sol, de muita gente a encher as ruas de terra batida, que até os comboios paravam em Barca do Pego “para levar o vagão cheio de cal. Quando estava cheio o meu pai comunicava através do telefone que ainda era daqueles de rodar” recorda.

O pai, contrariando a maioria, sabia ler e escrever, talvez por isso fosse “aproveitado” para o lugar de “criado dos senhores”. Os “senhores”, claro está, era a família da Marquesa de Faial, que mais tarde foi para o Brasil, prima do Conde Pais do Amaral, a quem deixou a Quinta da Anadia.

Maria Manuela no pátio da Taberna da Ti Maria Torrada

Francisco Joaquim ‘Torrado’ “ia fazer as compras diárias (não havia frigoríficos), a carne, o peixe, o pão, o leite, a manteiga, era tudo de bicicleta”. À conta disso era o único a ter tal veículo na aldeia. “Eram gente muito fina!” afirma Maria, “tinham sete empregados em casa”. Também não havia água canalizada e, para tal, mais um empregado.

“Todos os dias, o homem com uma carroça com 12 barris de água, de manhã, e mais 12 à noite, enchia uma talha alta com uma armação em madeira. E ainda mais 12 barris para o depósito ligado à casa de banho e um para a senhora da linha que abria e fechava a cancela” da linha ferroviária.

Maria Manuela recorda os tempos em que as mulheres de Barca do Pego “levavam uma hora de caminho para ir lavar a roupa ao Mosteiro Velho, quando o Tejo estava turvo, e outra hora para ir com uma bilha buscar água à Fonte da Omnia”. Os portos também era três: “o porto velho, o porto de passagem para o Pego e o porto das tramagaleiras, onde se carregava a cal”.

E se a Taberna do Torrado não dava muitas dores de cabeça, quando o gerente Afonso de Vasconcelos pedia ao pai de Maria para guardar o cofre com o dinheiro de uma semana de venda da cal, antes de o entregar à Marquesa e na falta de instituições bancárias, “era um martírio para a minha mãe”, revela.

O cofre era então enfiado dentro de um saco de serapilheira, com um avental sujo e um casaco velho por cima para disfarçar alguma eventual “má ideia” que rondasse a casa da família, e colocado em cima da arca do milho.

A Taberna da Ti Maria Torrada continua a receber quem por ali quer beber um café ou molhar a garganta. Pensou em fechar, preocupada que estava com as novas regras de faturação e transmissão eletrónica. “Não percebo nada de computadores”, afirma.

Mas os amigos vieram em seu socorro e a taberna mantém as portas abertas. Aliás, foram os amigos cantores de fados e de outros cânticos, dançarinos de fandango e diferentes movimentos que animaram durante anos aquela casa. O convívio mantém-se.

E a Taberna da Torrada abre diariamente das 08h30 sem hora certa para fechar. “É até ter fregueses bonitos”.

Maria Manuel Joaquim em cima de um burro onde ia buscar vinho dois barris de vinho ao sr. Vitória a Alferrarede

* Reportagem publicada em julho de 2018, republicada em janeiro de 2019

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Que pena não ter sido comissionada para ilustrar este artigo, tenho fotografado a Torrada através dos anos. Uma senhora valente e um local icónico, foi mesmo interessante saber a historia dela.

  2. Excelente artigo. Vivi parte da minha adolescência na Barca de Pego, ainda hoje lá vive a minha mãe, e não sabia parte da história que é contada. De facto, em pequenos lugares como o descrito há pessoas que se agigantam para lá do casario e é esse sem dúvida o caso da Maria Torrada. Talvez já nenhum esteja entre nós, mas outro exemplo do que digo são aqueles que passavam de barco a remos entre as duas margens do Tejo as pessoas que vinham desde o Pego para trabalhar do lado de cá. E daí o nome «Barca do Pego».

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