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Sábado, Julho 24, 2021

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Trincanela

Alcanena/Fátima: Marta Fernandes, uma ribatejana sem papas na língua (c/vídeo)

Nasceu em Santarém, passou a infância em Alcanena e a adolescência em Fátima, para depois procurar o teatro nos grandes centros do Porto e Lisboa. Marta Fernandes deixou os ecrãs da televisão e tem-se dedicado ao ensino, encontrando-se neste momento a dar aulas em Leiria, enquanto percorre o país aos fins-de-semana com uma companhia de teatro. Mesmo tendo despido a personagem, ainda lhe identificamos traços da “Lily” das Chiquititas, e admite que quase ninguém a reconhece pelo nome próprio. Uma conversa cheio de gargalhadas e música no Consolata Museu, em Fátima, no “Chá com Arte”, na noite de 27 de abril.

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Marta Fernandes, 36 anos, tem uma longa e profícua carreia na interpretação, desde a representação, ao canto e à dança, mas poucos a reconhecerão para além do seu papel na novela infanto-juvenil Chiquititas, a qual lhe ocupou mais de um ano da sua vida, entre 2007 e 2008. Afastada dos ecrãs, regressou ao teatro e à região onde nasceu, perto de Fátima e Alcanena, terras que recordou com saudade numa iniciativa do Consolata Museu, no âmbito das comemorações dos 25 anos da instituição.

“Nasci em Santarém, mas não tenho ligação nenhuma a Santarém. Os meus pais eram de Alcanena e lá estudei até ao 6º ano”, começou por contar ao público que se juntou para a ouvir falar no “Chá com Arte”. Nessa idade vai morar para Fátima, onde passa pelo Colégio do Sagrado Coração de Maria e pelo Centro de Estudos de Fátima (CEF), então no seu primeiro ano de funcionamento.

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Marta Fernandes no Consolata Museu. foto mediotejo.net
Marta Fernandes no Consolata Museu. foto mediotejo.net

Os seus primeiros tempos na cidade religiosa, então com 12 anos, foram complicados. “Foi uma fase um pouco complicada da minha existência”, admite, recordando que o apoio das freiras do Colégio do Sagrado Coração de Maria foi bastante positivo nessa altura. “Como elas estão em casa delas, estão sempre ali (…) sentia-me protegida”.

A passagem para o CEF abre-lhe os horizontes. “Era tudo novo, grande, nunca tinha visto uma escola com tanta gente…abriu muitos os meus horizontes”, constatou. Recorda uma equipa docente muito jovem, com professores que vinham de fora da região, que constituiu “uma lufada de ar fresco” na sua vida. Ao mesmo tempo, como o CEF na altura integrava também os alunos da Escola Profissional de Ourém (EPO), havia uma grande mistura de pessoas e interesses. “Tudo novo. Foi uma abertura de horizontes”.

Entrou no Agrupamento de Artes porque o CEF havia optado por oferecer uma Oficina de Expressão Dramática. “Que era o que eu queria. Nunca quis mais nada, tinha que ser algo ligado ao meio artístico”, confessa. Daqui saiu para o Porto, para a licenciatura de Estudos Teatrais, na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo. “E ainda bem que fiz lá”, afirma, notando o quanto o meio artístico é diferente entre o Porto e Lisboa, havendo na última cidade muito mais concorrência entre atores.

A meio da licenciatura o Porto foi capital europeia da cultura, surgindo a oportunidade de começar a fazer trabalhos como atriz. “Foi numa altura em que o Porto estava a ferver”. Teve o seu primeiro contrato no reinaugurado Teatro Helena Sá e Costa, onde “enchemos o teatro todas as noites. Foi muito bom”.

Ainda fez mais espetáculos no Porto, mas acabou por seguir para Lisboa, onde foi escolhida pelo Felipe La Féria para integrar a “Canção de Lisboa”. Confessando que não é grande apreciadora do tipo de espetáculo nem do mundo do Politeama, ficou ainda assim durante cerca de um ano. “O processo é muito penoso, não aconselho a ninguém”, refletiu sobre os ensaios e a preparação do espetáculo, onde atuava sete vezes por semana, cantava 17 músicas e trocava de roupa nove vezes. “Perdi quase 10 quilos, deixei de fumar”.

Seguiu-se uma experiência muito positiva, mas relativamente curta, na série de origem espanhola “Aqui não há quem viva”, o seu primeiro projeto em televisão, dirigido por Nicolau Breyner. Lamentou assim a forma como este tipo de produção é encarada no país: “Gasta-se muito dinheiro em cenários, para depois fazer poucos episódios”, “era uma série que tinha tudo para dar certo”.

Mas “fui uma privilegiada”, reconhece, não tendo problemas em mostrar a divergência de ordenados entre as diferentes experiências e como se tem mantido quase sempre a recibo verde. A experiência seguinte nas Chiquititas foi o grande êxito da sua carreira, que veio na sequela do fenómeno Floribela. Trabalhava seis dias por semana, mais de 12 horas por dia.

“Senti na altura que ficava”, lembra sobre o casting, onde concorreu com mais seis atrizes. A oportunidade teve tanto de positiva quanto de traumática. “Não vivia, só gravava”, comentou, referindo que a dada altura se apercebeu que não tinha mais vida, amigos ou namorado, para além do trabalho. “Quando parei de gravar é que me apercebi” da dimensão que a novela ganhara entre o público mais novo. “Quase ninguém sabe o meu nome”, apesar de ainda ser recordada como a “Lily”. Mas as gerações mais novas já não se lembram dela.

Critica a falta de apoios e as dificuldades em promover um espetáculo e atrair o público, por vezes por falta de iniciativa e vontade de quem tem por função fazê-lo. Além disso, “não há investimento privado. É muito difícil ser artista neste país”, refletiu.

Entretanto foi mãe, dedicou-se a projetos mais pequenos e surgiu a oportunidade de dar aulas de teatro. Atualmente é professora na M Studio – Escola de Teatro Musical, em Leiria, e faz espetáculos com a companhia Produções Fora de Cena por todo o país. Olhando para trás não lamenta a participação nas Chiquititas, “estaria a ser ingrata se dissesse mal disto”, mas também reconhece que o mundo artístico obedece a critérios que se afastam muito das capacidades de interpretação ou do currículo de um artista.

Em Leiria “sinto-me muito em casa”. Gosta de ser professora, mas ainda sonha com o palco. Nos fins-de-semana percorre o país, compara os públicos: no sul poucos vão ao teatro, no norte enche-se as salas. Há muito espaços dedicados à arte, mas nota que nem todos são cuidados como deveriam. “A grande mudança passa pela educação do público. O público pode-se educar”, defende.

Constata que as novas gerações conhecem muita coisa, mas é tudo de forma digital. Na prática “nunca viram nada”. “Eles veem mas não sentem, não vivenciam. É tudo digital”, refere.

Já no final do “Chá com Arte” surge a questão se Marta Fernandes é uma mulher de fé. “Sou, cada vez mais. O último ano tem sido uma descoberta”, afirmou. Reconhece que durante os oito anos que viveu em Fátima quase nunca foi ao Santuário e que a própria estrutura lhe desagrada, por ser “muito carregado, não gosto do cheiro”.

Adora a Basílica da Santíssima Trindade e “sinto-me lá muito bem”. “Mas isto é uma coisa muito recente, andei desviada. Comecei a ter medo e comecei a pedir ajuda”.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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