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Terça-feira, Novembro 30, 2021

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Alcanena | Vicente Batalha, o militar que assentou praça no teatro

A vida de Vicente Batalha cruza-se com todo o percurso da intelectualidade portuguesa do século XX. Daquela que combateu e fez a revolução, para depois deixar desse espírito testemunho nas artes e no espetáculo. Em entrevista, recordou ao mediotejo.net o seu contributo, como militar em Angola, para a transição da independência do território ultramarino, o seu envolvimento no Verão Quente e o culminar do 25 de novembro. Da vida militar saltou para os palcos do teatro, que nunca mais deixou. Atual promotor cultural do concelho de Alcanena, presidiu ao Instituto Bernardo Santareno, dramaturgo icónico que foi seu grande amigo. Ciente das muitas conquistas de Abril, lamenta porém o pouco se faz hoje pela Cultura, um dos setores mais afetados pela crise pandémica.

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Vicente Batalha, 79 anos, é há muito uma figura acarinhada de Alcanena. Natural de Pernes, no concelho de Santarém, tem dedicado a última década a promover a cultura alcanenense, através de múltiplas iniciativas culturais e o próprio teatro do grupo “Alcanena em cena”, do qual é encenador.

Longe vão os tempos de Angola, onde se encontrava como militar no 25 de abril, país que ainda acompanhou nos inícios da sua transição para a independência e onde conheceu os grandes nomes da luta angolana. Regressado a Portugal na semana do 11 de março de 1975, vive o ritmo do Verão Quente, para ser destituído das suas funções no 25 de novembro.

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Sem trabalho, este ex-estudante de Direito, que nunca terminou o curso por ter aderido à greve aos exames em 1962, seguiu finalmente o seu sonho e partiu em busca dos palcos do teatro, que nunca mais abandonou.

Na Casa da Cultura, pitoresco edifício cor de rosa de Alcanena, narra-nos estes e muitos outros episódios da sua rica vida militar e cultural. Apesar da figura discreta e do panorama ativo essencialmente a nível regional, Vicente Batalha cruzou-se e conviveu com algumas das maiores figuras da intelectualidade portuguesa do último século. Conheceu ainda o tempo das tertúlias em cafés e de uma Lisboa menos cosmopolita, mais fechada sobre si mesma, mas efervescente de ideias e de espírito revolucionário.

No último ano esteve envolvido nas celebrações do centenário do nascimento de Bernardo Santareno, dramaturgo nascido em Santarém e com raízes familiares no concelho de Alcanena, que deixou uma obra onde se captam os “fantasmas” da cultura portuguesa, refere. Um nome que se tem perdido no emaranhado da literatura portuguesa e que tem procurado preservar.

Durante seis anos, Vicente Batalha foi presidente do Instituto Bernardo Santareno Foto: mediotejo.net

Fale-me um pouco da sua infância e juventude. Sempre viveu em Pernes?
Sim, vivi em Pernes, onde fiz a instrução primária, e depois fiz o liceu em Santarém. A partir daí, comecei a deambular. O primeiro ano da faculdade fiz em Coimbra, depois fui para Lisboa, onde cursei Direito. Cumpri o serviço militar, depois voltei para Lisboa, até regressar novamente às origens. Tinha já 43 anos.

O que o fez enveredar pelo Direito?
Eu gostava da carreira diplomática, mas também de matemáticas. É interessante ver os opostos. Mas depois em reunião de família, e de me aconselhar com amigos, todos entenderam que era melhor ir para Direito. Na véspera da matrícula é que decidi. Não foi uma decisão fácil. Gostei do curso, mas depois a minha vida sofreu outras alterações que também me apaixonaram e abandonei o Direito. Nunca concluí o curso.

Como se interessou pelo teatro?
O teatro já estava presente na minha vida, esteve desde sempre. Pernes era uma terra onde havia um desenvolvimento cultural grande, em termos de teatro e de música. Era uma terra onde havia uma preocupação com a cultura, com a arte, e a minha família sempre esteve muito ligada ao campo cultural e artístico. O meu tio era o fundador da banda, nós morávamos paredes meias com a coletividade e, portanto, desde miúdo, dos meus 4 ou 5 anos, ia assistir aos ensaios da música, do teatro. O teatro era a minha segunda casa. Havia uma distância de 50 metros entre a minha casa e a coletividade, a Sociedade Musical União Pernense Música Nova, onde eu praticamente nasci para essas aventuras teatrais. A primeira vez que pisei o palco teria 5 ou 6 anos, e foi uma coisa que me fascinou. Mas depois fui para a universidade, e depois veio a mobilização para a tropa, o que veio perturbar esta minha paixão pelo teatro amador. 

Como é que os seus pais encararam esse interesse pelo teatro?
Não era acarinhado nesse aspeto. Mais pela minha mãe que pelo meu pai. Havia o curso, as responsabilidades que nós tínhamos. Os meus pais, sendo duma média burguesia, tinham dificuldades para que eu estudasse, porque tudo era mais difícil, os transportes, os alojamentos… Apanhei o primeiro ano da grande contestação em Coimbra, que foi a crise desencadeada pela célebre carta à jovem portuguesa na Via Latina, que mexeu com a universidade. Obrigou pela primeira vez na história as raparigas a participarem nas assembleias gerais da Associação Académica. Depois apanho em Lisboa a crise de 1962. Aí eu já participo. Foi um episódio marcante que mudou muito a minha vida, a minha maneira de pensar, embora o meu pai fosse um anti-fascista que desenvolvia alguma atividade política. Com 6 anos vi a minha casa ser invadida às 3 da manhã pela PIDE à procura de imprensa clandestina, que realmente estava lá, mas não deram com ela. Mas a crise de 62 foi uma grande viragem ideológica que eu tive…

Com 6 anos vi a minha casa ser invadida às 3 da manhã pela PIDE à procura de imprensa clandestina, que realmente estava lá, mas não deram com ela. 

Abriu-se a consciência?
Eu já tinha uma consciência social profunda, ainda tenho na memória a imagem dos meus colegas de escola irem descalços para a escola. Era uma coisa que me incomodava muito. Eu e o meu irmão levávamo-los lá a casa para comerem. Tivemos sempre esse lado social. No campo político, penso que a crise de 62 foi o que veio criar um fosso enorme entre mim e o regime político. Foi realmente muito importante.

Foi por isso que deixou os estudos?
Não. Entretanto fui chamado para a vida militar. Tinha feito um compromisso de honra de não ir aos exames naquele ano, embora a maioria acabasse por ir. Eu fiz uma cadeira atrasada do primeiro ano, mas não fui aos exames e acabei por ser chamado. Nunca se colocou a questão de não ir à guerra, nem lá em casa. Entendi que devia ir. Acabei por ir não por vontade, mas porque as circunstâncias eram aquelas. Pertenci àquela geração que era sacrificada. Hoje, quando se discute no 25 de abril quem é que teve o maior papel, quem politicamente acertou, se foi o Partido Comunista que aconselhou que fossem, que cumprissem o serviço militar, ou se foram aqueles que fugiram para Paris, para o norte da Europa… Não sei, todos tiveram o seu papel, convergido no 25 de abril. Acho que ainda não se prestou a devida justiça, ênfase e relevo aos oficiais milicianos. Nós, os universitários, que íamos para a tropa como oficiais, íamos com consciência política. Nas conversas, quer com os soldados, quer com os oficiais e sargentos do quadro, havia um debate de ideias que levou à criação de uma outra dinâmica natural. Porque o convívio 24 horas no arame farpado, as dificuldades, os pontos de vista que expressávamos relativamente à situação que nos empurrava para aquele beco sem saída, fez evoluir muito, na minha perspetiva, a consciência de muitos soldados. Gente rural, que nunca tinha visto o mar, analfabetos, na sua maioria. Penso que essa ação diária naquelas comissões, cada um no seu território, obrigava a pensar, a perguntar “o que estamos aqui a fazer”. O sentimento comum era de evolução do pensamento, não obrigado, mas natural. Essa recetividade natural criou essa consciência de que era preciso pôr fim à guerra. 

Vicente Batalha viveu o período inicial da libertação de Angola e anteviu muitos dos problemas que se seguiram Foto: mediotejo.net

Foi colocado em Angola. Como foi esse seu percurso militar antes do 25 de abril?
Tirei o curso de capitão e fui comandar o Destacamento de fotografia e cinema da região militar de Angola. Porque tinha sido o segundo classificado do curso e pude escolher. Acabei por escolher Angola e o curso de foto-cine, que possibilitava o contacto com o cinema, a rádio e a fotografia, áreas de que eu gostava. Depois, quando terminei a comissão, pediram-me para ficar. Gostava muito de Angola e o destacamento de foto-cine permitia-me uma ampla liberdade de contactos. Fiquei. Foi nessa altura que fui colocado numa unidade de quadrícula, os Dragões em Silva Porto, a cavalaria. No 25 de abril estava a comandar o Esquadrão de Cavalaria 403 no Luso (frente leste de combate ao MPLA). Interessante, que já se viam sinais. Já não havia força moral para punir. O regime já não tinha força. Havia uma certa permissividade, a rigidez militar estava posta de parte. O 25 de abril foi uma surpresa para a grande maioria, que estava a 10 mil quilómetros de distância de Portugal. Não estávamos em Luanda sequer. Houve uma delegação do MFA que foi à zona militar leste fazer uma reunião de oficiais e sargentos, para explicar o que se tinha passado em Portugal, quais os objetivos do movimento e o que se pretendia. Foi com alguma surpresa que me vi eleito naquela noite, naquele plenário, para a comissão do MFA na zona militar leste. Quando se formou a comissão ad hoc dos meios de comunicação social, eu fui chamado para o governo geral. Termino a minha estadia em Angola no governo geral em Luanda. Iam-me pedindo para continuar, mas quis voltar para Portugal.

Quando é que regressou?
Vim em 1975, apanhar precisamente o 11 de março. Por isso é que não saí da tropa. Tinha chegado há 48 horas e fui oferecer os meus préstimos. Fiquei imediatamente na 5ª divisão do Estado Maior General, na informação. Depois passei para o centro de sociologia militar, onde se realizavam as assembleias do MFA. Acompanhei todo esse processo, do 11 de março, do Verão Quente. Os comandos invadem a 5ª divisão no 28 de agosto de 1975. Vejo-me acordoado às 4 da manhã, a dizerem que os comandos tinham ocupado a 5ª divisão. Fui lá, preocupado com alguns documentos. Fiquei ali na inatividade, até ser colocado na Polícia Militar, onde vivi o 25 de novembro. Tenho esse privilégio, se podemos chamar-lhe assim, de fazer um percurso antes do 25 de abril, no 25 de abril, de chegar a 11 de março e acabar a carreira militar – porque fui expulso – no 25 de novembro.

Tenho esse privilégio, se podemos chamar-lhe assim, de fazer um percurso antes do 25 de abril, no 25 de abril, de chegar a 11 de março e acabar a carreira militar – porque fui expulso – no 25 de novembro

Porque foi expulso?
Quando o Campos Andrade e o Cucu Rosa foram presos, fui eu quem foi nomeado Comandante da unidade e estabeleceu conversações com o Coronel Vasco Lourenço. Quando se deu a invasão dos comandos, eu vim à porta de armas recebê-los. Foi uma cena muito patética, porque quem vinha a comandar a força da frente era um capitão do meu do curso. Cumprimentámos-mos, como se fosse a coisa mais normal do mundo, para revolta daqueles soldados que vinham completamente drogados invadir a Polícia Militar. Fiquei preso no regimento, depois soltaram-nos. Tive o processo na Polícia Judiciária Militar, que foi arquivado. Mas fui expulso das Forças Armadas. Lá tiveram as suas razões (risos). 

Quando partiu de Angola em 1975, temeu pelo destino do país?
Percebi que ia ser difícil. Percebi claramente. Tive a convicção que a África do Sul, o conluio americano, ia ser difícil. Embora o MPLA fosse dominante. Percebi que não ia ser fácil entre eles porque havia a incógnita da colónia portuguesa. A grande maioria nunca teve consciência política, nem quando foi nem quando veio. Foram por necessidade e vieram por necessidade. Percebo a mágoa, percebo o desencanto, percebo que acordaram de um sonho bom, com muitos sacrifícios, a viverem no mato mas a terem os seus bens, os seus valores. Compreendo que uma vida inteira não pode ser deitada fora. Compreendo isso perfeitamente. Mas põem as culpas nas forças armadas e não tomam as culpas a eles. Às posições que tomaram nos conflitos. Porque se pudessem fazer uma independência branca, era o que fariam. Os grandes agrários, tive a consciência clara que o que queriam era uma independência branca. A África do Sul estava sempre ali como padrão.

Pretendia-se a independência, mas comandada pelos brancos.
Evidente, esse era o sonho. A Frente de Unidade Angolana (FUA) foi criada com esse objetivo. Angola é uma terra deslumbrante. Fiquei com Angola no coração, mas vivi momentos muito difíceis. O desfile dos soldados negros em armas foi uma coisa aterradora. Nós percebemos que havia uma força moral grande, esmagadora. Ao contrário de quando foi a invasão do palácio pelos camionistas, que lembrou o Chile. Foi difícil, foi muito difícil. E cá em Portugal, o Verão Quente também foi muito difícil. Eu estou citado duas ou três vezes no Relatório da Comissão do 25 de abril, que foi compilado pelo General Henrique Calado, e tudo o que lá vem é mentira.

Então?
É mentira. Eu nunca reuni com a Isabel do Carmo nem com o Carlos Antunes. Nunca fui ao Guincho buscar areias para fazer a defesa do quartel. Penso que aquilo é um chorrilho de falsidades.

Como se deu esta cisão com os militares que acabou com a sua saída da tropa?
A situação política mudou. Não houve cisão com os militares, pelo contrário, sou amigo de todos eles. Fui testemunha do Cucu Rosa e do Tomé no Tribunal Militar e não foi fácil, porque sou íntimo amigo deles. O que eu acho é que a sociedade portuguesa, nomeadamente o Partido Comunista, teve uma visão idílica dos militares. Não houve uma elite, um Movimento das Forças Armadas. Não mudaram de um momento para o outro, não deixaram de ser o que eram. Evoluíram. Eu fui conotado sempre com os Gonçalvistas, os apoiantes do Vasco Gonçalves. 

Como vê as conquistas de Abril atualmente?
As conquistas de Abril estão muito ameaçadas. Mas nós não podemos esquecer que o poder local é uma conquista, que mudou de norte a sul a fisionomia do país, não tenho dúvida. O Sistema Nacional de Saúde é uma conquista que se mostrou agora perfeitamente consistente, coerente, indispensável, à vida do povo português. A educação, a segurança social, são conquistas essenciais. Obviamente muita coisa ficou pelo caminho. O trabalho está precarizado, desvalorizado. É uma sociedade que vem, a pouco e pouco, desvalorizando o trabalho. Vimos agora o último estudo que diz que quase 40% dos portugueses empobrecem a trabalhar. Isto revela um empobrecimento, uma falta de dignidade para com a noção do trabalho, o mundo do trabalho, para com os trabalhadores. Aí sim, a alteração das leis laborais, põe em causa de determinadas conquistas. Mas, ainda assim, se não fossem as conquistas do 25 de abril estávamos muito pior.

O Sistema Nacional de Saúde é uma conquista que se mostrou agora perfeitamente consistente, coerente, indispensável, à vida do povo português. A educação, a segurança social, são conquistas essenciais. Obviamente muita coisa ficou pelo caminho.

Celebrámos no dia 1 de maio o Dia do Trabalhador. O senhor é um homem das Artes, que tem sido dos setores mais afetados da pandemia. Como vê a evolução das condições de trabalho do setor artístico desde o 25 de abril?
Acho que tem sido uma vergonha. Eu não concebo a cultura fora das pessoas. A cultura são as pessoas, para as pessoas, com as pessoas. Podemos substituir pelo virtual, podemos fazer tudo. Mas a arte tem um objetivo: são as pessoas, as emoções das pessoas. Esta classe tem sido completamente posta de parte. Não tem tido apoios, nem condições de trabalho. Nem ninguém está preocupado com a cultura. Quando cultura no fundo somos nós, é a nossa identidade, o que nos representa. O Francisco Garcia da Horta dizia: “País que não tem teatro, não está morto, está moribundo.” O teatro como metáfora de todas as outras artes, de todas as outras formas de cultura. Estou completamente solidário com o setor da cultura.

A cultura, por norma, está sempre na frente dos movimentos societários. Atualmente parece que se perdeu alguma riqueza cultural.
O que acho é que nós estamos numa fase de transição, grande. Os avanços tecnológicos alteraram muito a mentalidade dos jovens, que vão sendo educados a trabalhar com determinadas ferramentas, com determinados mundos. Mas na minha perspetiva são fases, são modas. Quando veio a televisão dizia-se com o cinema ia morrer. O cinema não morreu. Toda a vida ouvi falar que o teatro está em crise, mas continua a fazer-se. Os jovens estão afastados do livro e da leitura, que é essencial. Vamos deixar estas fraturas sociais assentarem, como num tremor de terra. São tremores de terra, mas depois volta tudo ao sítio. Noto que os jovens não são uma entidade única. Há muitos aspetos. Conheço jovens com grande preocupações culturais… Penso que são fases e é preciso assentar o lugar das tecnologias na educação do cidadão. Que não substitui a cultura. A tecnologia é uma ferramenta, é um complemento, vem-nos facilitar a vida em determinados aspetos mas não nos vem dar o substrato, a cultura de base. É uma ilusão pensar que ali na caixinha mágica vamos encontrar o mundo. Não vamos. Vamos encontrar o mundo virtual. Mas o mundo das pessoas gira cá fora.

Sente-se ainda um revolucionário?
Não. Sinto-me um buscador da cultura, um buscador do conhecimento. Sinto-me um cidadão do mundo, que pensa sobre as coisas. Não sou um revolucionário, penso que estou muito longe disso. Sou um cidadão normal, que sempre teve preocupações, e a primeira foi pensar, pensar pela minha própria cabeça. Saber o que ando aqui a fazer e para que serve esta vida. Sou um buscador do conhecimento.

Celebrou-se no último ano o centenário do nascimento de Bernardo Santareno, de quem foi amigo e presidente do Instituto com o seu nome. Pode-nos contar como se conheceram e tornaram amigos?
Conheci o Bernardo Santareno em 1962, quando fui estudar Direito para Lisboa. Eu tive a sorte de encontrar uma certa Lisboa, nessa altura. A intelectualidade era uma força muito dominante. As tertúlias de café eram as segundas casas dos intelectuais. Tive a oportunidade de conhecer o Ary, a Natália, de participar em recitais com eles, em conhecer o José Gomes Ferreira, o Carlos Oliveira, os grandes jornalistas, os grandes pintores. Ou estavam na Brasileira do Chiado ou no Monte Carlo. Dividiam-se: estavam a beber café num lado, iam passar a tarde a outro…

Que inveja…
Era muito interessante, era. Estávamos à espera que saísse o Diário de Lisboa para o lermos no café… E portanto, o Santareno está aí, tinha uma tertúlia na Pastelaria Paraíso, na Rua Alexandre Herculano. Era aí que se juntava com o seu grupo. Já era uma referência para o setor universitário, que frequentava as tertúlias, estudava muito em cafés. Entretanto conheço a Fernanda Lapa, sua grande amiga e confidente. A seguir ao 25 de abril era quase uma presença diária, quer no Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais, quer nas manifestações de toda a Lisboa. Nós corremos aquela Lisboa toda com a Mariana Machado. Tínhamos a afinidade de sermos de Santarém, e de ele ter uma ligação ao Espinheiro [Alcanena]. Foi assim que o conheci, nas tertúlias literárias e no intercâmbio que os universitários faziam dessa intelectualidade. Fomos nesse aspeto privilegiados, por podermos conviver. O José Saramago também aparecia, que não era “o Saramago”, nem de longe, era um jornalista que vivia com a Isabel da Nóbrega…

Vicente Batalha, nos seus tempos de juventude, em Lisboa. Créditos: DR

O que aconteceu a essas tertúlias? Isso desapareceu completamente…
Desapareceu muito, as tertúlias desapareceram.

E os intelectuais também…
Os intelectuais começaram a ter outro estilo de vida. Lisboa transformou-se completamente. Os anos 80, a entrada na União Europeia deu outra dimensão à cidade. Mesmo em termos arquitetónicos. A volumetria da cidade é outra. Tudo se alterou muito. Os intelectuais começaram a estar mais ensimesmados, mais interiorizados. Deixaram de ser figuras públicas, de todos os dias, próximos de nós. Foi o que aconteceu. Os cafés foram acabando. Deram origem, a maior parte deles, a agências bancárias. O único que existe é a Brasileira, mas é para turistas, para irem tirar fotografia ao Fernando Pessoa e estar por ali, pelo Chiado. Nós não só estávamos na Brasileira como na Sá da Costa e fazíamos o percurso do café à livraria. Tudo isso era um mundo. 

Como era Bernardo Santareno?
Era um homem ensimesmado. Era um homem que não era imediatamente simpático. Mas era um homem próximo, compreensivo. Era um psicólogo, sabia perceber muito bem, e intuitivamente quase, e depois cientificamente, o comportamento das pessoas. E tinha uma gargalhada icónica, ouvia-se à distância. Era um grande perfecionista. Um homem de grande cultura. Era um pivot do conhecimento europeu daquela época. Que era uma época muito fechada, onde a censura era férrea. Foi sempre muito perseguido pela censura por ser Martinho do Rosário [o pai foi um grande revolucionário e ativista que, com um grupo, arrancou a azinheira da Cova da Iria, em 1918].

Era injustificada, essa perseguição?
A obra de Santareno é um grito de liberdade, em todos os seus aspetos. Liberdade pessoal, liberdade intelectual, cultural, económica, sexual, religiosa. Ele, em todas as suas peças, faz transparecer esse grito de necessidade da liberdade. As peças de Santareno são ambientes claustrofóbicos, em ciclos que apetece romper. Alguém escrevia que não há dramaturgo que levante mais fantasmas que Santareno. E isso assustava a censura. Mas é interessante que a primeira peça de Santareno que é censurada – “A Promessa”, escrita em 1958 – não foi alvo do grupo de censores “oficiais”, mas sim dos microfones da Rádio de Renascença, por um padre do grupo mais reacionário da Igreja Católica, que pediu a intervenção do Estado para proibir a peça.

A obra de Santareno é um grito de liberdade, em todos os seus aspetos. Liberdade pessoal, liberdade intelectual, cultural, económica, sexual, religiosa.

Havia moral nas suas peças? Ele queria alertar para alguma coisa?
Ele desmontava as crendices populares. A grande simbiose entre religião e crendice, como no “Crime da Aldeia Velha”, inspirado num caso real [uma rapariga queimada viva na fogueira por ser demasiado bonita e ter o demónio no corpo].

Apesar de tudo, ele não é um dramaturgo conhecido de todos, nomeadamente para as camadas escolares. Porque acha que isso acontece?
Desde que a sua obra “O Judeu” saiu do programa do 12º ano e “Nos Mares do Fim do Mundo” saiu das leituras recomendadas do ensino, pronto, deixou de ser conhecido. Foi um erro, quanto a nós, e exigimos que seja retificado. “Nos Mares do Fim do Mundo” é uma obra maravilhosa, histórica, conta a saga dos portugueses na pesca do bacalhau na Terra Nova e na Gronelândia, onde Santareno foi médico. A obra descreve o drama daqueles jovens que iam para a pesca do bacalhau e morriam lá, outros ficavam sem mãos porque gelavam e tinham que ser amputados. É um livro de prosa poética, de história. É um estupidez terem retirado esse livro. É uma obra lindíssima. 

O que nos diz Santareno sobre Portugal?
Ele depois do 25 de abril escreveu pouco, só “Os Marginais e A Revolução”. Santareno teve um grande choque com o recuo da revolução portuguesa. Ele viveu tão intensamente e com tanta alegria o 25 de abril, que teve um choque profundo com o refluxo da revolução. Isso perturbou-o a tal ponto que escreveu pouco, e o que escreveu continuava a ser uma denúncia da situação. “Os Marginais e A Revolução” fala-nos sobre todo tráfico dos seres humanos, com a droga, a prostituição. São peças que denunciam e procuram desmontar as ilusões que se tiveram no 25 de Abril.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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2 COMENTÁRIOS

  1. O Batalha já tinha feito uma comissão como alferes na Guiné salvo erro. Só o conheci quando foi comandar o destacamento de fotografia e cinema em Luanda .eu já lá estava há 1 ano em 1972 chega uma nova rendição onde sai o capitão Carvalho que era uma excelente pessoa e entra o capitão Batalha.apartir dessa altura foi um terror .esse homem pensava que estava a comandar um bacalhoeiro à vela

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