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Alcanena | Rede de saneamento precisa de 10 milhões para resolver problemas de poluição e maus cheiros

Os problemas de poluição e mau cheiro em Alcanena podem ser resolvidos através de um plano de longo prazo, até 2030, estimado entre oito a 10 milhões de euros, de modo a intervir no sistema de saneamento, incluindo na própria ETAR. O objetivo é investir em algumas câmaras de visita degradadas (que promovem infiltrações), nos emissários de efluente doméstico (prevenir afluências indevidas), nos emissários de efluente industrial, na concentração de sulfuretos e gás sulfídrico superiores ao devido (que promovem o mau cheiro e condicionam o desemprenho da ETAR) e nos requisitos da licença de descarga.

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O Plano Estratégico do Sistema de Saneamento de Alcanena (P.E.S.A) foi apresentado no dia 25 de fevereiro, na 10ª reunião do Observatório Ambiental de Alcanena. Dos dados apresentados do estudo de diagnóstico, efetuado pela consultora HIDRA, Hidráulica e Ambiente, conclui-se que o sistema sofre várias infiltrações e uma parte das unidades industriais do concelho descarrega sulfuretos para o sistema acima dos valores legais. A ETAR é boa, frisou-se, mas simplesmente não aguenta o excesso de afluente indevido.

O município de Alcanena tem agora em mãos um plano até 2030, estimado entre oito a 10 milhões de euros, para intervir no sistema de saneamento, incluindo a própria ETAR.

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Os dados do estudo no terreno e o respetivo plano “estratégico” de intervenção foram apresentados pelo gerente da HIDRA, José Saldanha Matos, numa reunião que decorreu por videoconferência com direto online. “É um sistema muito complexo”, frisou o responsável, destacando um P.E.SA. com mais de 200 páginas. O estudo decorreu ao longo de 2020.

Alguns dos problemas logo identificados, referiu, resultado da estrutura de saneamento ser dos anos 80, é a propensão para “overflows” (quando chove as águas pluviais misturam-se com as domésticas e causam excedentes, também devido à ligação indevida) e alguma mistura entre águas domésticas e industriais.

Outro problema é a grande concentração de unidades industriais com fortes descargas poluentes no sistema e a sua proximidade a zonas habitacionais. Por outro lado, a licença de descarga da ETAR é também atualmente extremamente exigente.

Controlar os sulfuretos, “overflows” e respeitar os limites de descarga foram os grandes desafios para este plano e que motivaram da parte da HIDRA todo um conjunto de análises aos vários fatores que poderiam estar a motivar o mau cheiro. A equipa de Saldanha e Matos procurou avaliar o presente, “perceber o que se passa”, e fazer previsões para o futuro.

parte do orçamento apresentado Foto: print screan mediotejo.net

Segundo o investigador, para além da idade da estrutura (que já pesa no seu funcionamento), a ETAR está a tratar muito mais efluente que aquele que é descarregado pela indústria e setor doméstico, o que se traduz em “afluências indevidas” (quase o dobro). “Infiltração desfasada” e “afluência indevida não contabilizada” são algumas das causas apontadas.

Nos emissários, referiu, foram contabilizadas concentrações de sulfuretos muito acima do devido. “Em ocasiões pontuais o que está a fluir em sulfuretos para o sistema é superior ao que deveria ser, por regulamento”, constatou.

A precipitação também causa, com alguma facilidade, “pressão” sobre os coletores, explicou. Os piores dias, analisou, coincidiram com descargas com elevada concentração de sulfuretos. “Uma parte das unidades industriais descarregou pontualmente efluentes com concentrações de sulfuretos superiores a 100 miligramas”, concluiu.

Já a ETAR apresenta outro tipo de problemas. José Saldanha Matos considerou que a ETAR é “boa do ponto de vista dos seus componentes”, mas o tipo de efluente industrial de Alcanena exige demasiado das suas capacidades. “É preciso fazer ali qualquer coisa”, adiantou, porque os novos requisitos da licença de descarga que se prepara para entrar em funcionamento são impossíveis de ser cumpridos por esta ETAR.

Analisados os dados dos últimos cinco anos, a ETAR “nunca cumpre”, frisou. “Por mais que seja o esforço da equipa de gestão, por mais que sejam os reagentes, ela não consegue. É uma ETAR. É mais evoluída que muitas das ETARs do país, que praticamente todas, mas dadas as características do afluente ela tem que ter aqui uma mudança”, explicou.

Uma auditoria à ETAR em 2019 detestou também alguns problemas nos equipamentos, que já estão a ser resolvidos, referiu. Todos estes fatores acabam por criar situações de poluição e mau cheiro.

José Saldanha Matos apresentou de seguida a sua proposta para soluções a estes problemas. O plano é “de longo prazo”, até 2030, e tem custos previstos entre oito a 10 milhões de euros. Pretende-se investir em algumas câmaras de visita degradadas (que promovem infiltrações), nos emissários de efluente doméstico (prevenir afluências indevidas), nos emissários de efluente industrial, na concentração de sulfuretos e gás sulfídrico superiores ao devido (que promovem o mau cheiro e condicionam o desemprenho da ETAR) e nos requisitos da licença de descarga.

O plano destaca a necessidade de se controlar o caudal a partir da origem, identificando os pontos onde esse controlo pode ser feito. Há um grande foco na prevenção de infiltrações, substituição de tampas e melhoramento do funcionamento da ETAR (parafusos) e libertação de odores. Prevê-se também monitorizar a descarga de sulfuretos, mudando os sistemas de medição para metodologias mais eficazes.

Para controlar os sulfuretos/gás sulfídrico na ETAR é proposto a cobertura dos tanques de homogeneização, com extração de ar e encaminhamento para tratamento do ar. Sugere-se ainda a substituição do equipamento de arejamento com injeção de ar dos tanques de homogeneização por equipamento de injeção de oxigénio puro.

Há ainda soluções para que a ETAR cumpra os requisitos da licença e um plano de emergência para lidar com odores ofensivos. Só a ETAR precisa de um investimento de 5,7 milhões de euros, a maioria do orçamento apresentado.

A sessão, que contou com a presença e colocação de dúvidas dos vários parceiros, foi encerrada pelo vice-presidente da APA – Agência Portuguesa do Ambiente, José Pimenta Machado. O responsável considerou ser este um plano “muito abrangente”, que vai à origem dos problemas da rede de saneamento de Alcanena.

Observatório Ambiental 10ª reunião Foto: print screan mediotejo.net

Manifestou assim a disponibilidade da APA para agilizar o processo e procurar financiamento para concretizar as obras necessárias. “Estou muito confiante com o que foi apresentado”, frisou, uma vez que tem a linha temporal de uma década e com objetivos muito concretos.

O P.E.S.A está aberto a contributos até 12 de março. Na Assembleia Municipal de 26 de fevereiro, sexta-feira, foi combinado agendar uma sessão extraordinária dedicada à discussão deste plano.

A presidente da Câmara de Alcanena, Fernanda Asseiceira (PS), frisou o muito trabalho a fazer pela frente, destacando a impossibilidade de se fazer em dois anos o que não foi feito em 30. “As prioridades estão identificadas”, salientou, e o município encontra-se à procura de financiamento, inclusive junto das entidades governamentais. No limite, referiu, a Câmara Municipal poderá recorrer a empréstimos.

Apelou ainda ao CTIC – Centro Tecnológico das Industrias do Couro o acompanhamento da implementação das medidas exigidas às unidades industriais para controlo dos maus cheiros, uma vez que muitas ainda não conseguiram cumprir o prazo de 2018.

A presidente referiu ainda que os relatórios da qualidade do ar melhoraram bastante em 2020.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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