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Alcanena | Polémica com “Caixa Solidária”, presidente critica modelo de caridade

O grupo de voluntariado “Nós vamos por si Torres Novas” colocou na praça 8 de maio, frente à Câmara Municipal de Alcanena, uma “caixa solidária”, que foi retirada pelos serviços municipais por falta de autorização. Na reunião camarária de 4 de maio, segunda-feira, o vereador dos Cidadãos por Alcanena, Gabriel de Oliveira Feitor, criticou a atitude, que considerou autoritária e sem sentido. A presidente da Câmara, Fernanda Asseiceira (PS), argumentou que a autarquia não foi contactada e que a caixa não cumpria as medidas de segurança. “Não é assim que se trabalha”, afirmou, manifestando o seu desacordo com o modelo da iniciativa, que passa por deixar e retirar, em autogestão, bens diversos.

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Um “não assunto transformado em assunto”, comentou Gabriel de Oliveira Feitor, criticando a forma como a Câmara Municipal geriu a “caixa solidária” no concelho, uma “iniciativa muito meritória” de um grupo de jovens, que já decorre noutros concelhos. Uma “prova de autoritarismo”, afirmou o autarca, questionando sobre o futuro da caixa e dos bens que já possuía.

Em resposta, Fernanda Asseiceira começou por explicar que a Câmara Municipal não foi contactada antes da estrutura ser instalada, tendo-se simplesmente deparado com a “caixa solidária” na praça 8 de maio. “Desconhecia por completo o projeto” e os respetivos objetivos, admitiu a presidente.

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Nesta caixa solidária podiam ser deixados e recolhidos bens, conforme a necessidade Foto: João Campos/Facebook Alcanena em Movimento

Após se ter colocado a par da situação, a autarca tomou uma posição e mandou retirar a caixa. “Não é assim que se trabalha, há que ter respeito”, defendeu, referindo que não há qualquer salvaguarda de segurança na iniciativa, que seria impossível de controlar pelos serviços municipais. “Não brincamos à caridadezinha”, afirmou, frisando que estava a ser colocada em causa a dignidade das pessoas.

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De uma forma geral, a autarca não se identificou com o modelo. Fernanda Asseiceira lembraria, inclusive, que o município já possui um cabaz solidário, destinado ao mesmo efeito.

O mediotejo.net contactou João Campos, fundador do  grupo “Nós vamos por si Torres Novas”, que dirige a “caixa solidária” nesta região. “O nosso projeto nasceu da vontade de ajudar a população de risco de Torres Novas. Contactei um amigo meu, que fundou a iniciativa comigo, e começámos a publicitar a mesma de forma a chegar a todos aqueles que podiam precisar da nossa ajuda”, explicou.

A ideia inicial do grupo passa por fazer compras de supermercado ou de farmácia aos que se encontram no grupo de risco, evitando assim deslocações desnecessárias. “Ainda temos uma parceria com a MRW que nos patrocina o transporte. Para além deste serviço, fomos contactados pela Santa Casa da Misericórdia e estamos a fazer a distribuição dos alimentos as famílias sinalizadas e refeições aos idosos”, adiantou.

A “caixa solidária” em concreto é uma ideia que já existe a nível nacional e que os jovens decidiram assumir e desenvolver na região. “Construímos a nossa própria caixa e colocámos a primeira em Torres Novas para ver como era a adesão. Podemos dizer que todos os dias fica cheia e todos os dias esvazia!”, referiu.

A metodologia, que a presidente da Câmara de Alcanena critica, passa por as pessoas irem deixando bens e retirando conforme a necessidade, num modelo de autogestão.

O grupo entretanto abordou as juntas de freguesia, tendo um parecer positivo para caixas solidárias em Riachos (Torres Novas). Sobre a atitude da Câmara de Alcanena, João Campos apenas comentou que “são ordens que nos ultrapassam e que temos de acatar. Acreditamos que a decisão seja para prevenir a população, contudo não deixamos de ficar tristes com a decisão porque este é um projeto que se faz a nível nacional”.

Recentemente a delegada de Saúde Pública do Médio Tejo, Maria dos Anjos Esperança, em declarações ao mediotejo.net, excluiu as “caixas solidárias” como “boa forma de ajudar o próximo” porque “são veículos de transmissão do vírus” SARS-CoV-2 agente causador da doença covid-19.

Maria dos Anjos Esperança considerou que “quer os particulares quer as instituições – Juntas de Freguesia, Câmaras – todos sabem onde se encontram as pessoas que necessitam de bens sejam eles materiais, económicos sejam até de afeto”. Por isso, defendeu igual ajuda mas de outra forma.

“As pessoas vão pôr os alimentos [dentro da Caixa] não se sabe se têm as mãos lavadas, não se sabe de onde vêm os alimentos”, alertou, reconhecendo que nos supermercados bens alimentares “também estão nas prateleiras, é verdade! Também corremos esse risco, mas que todos temos de correr porque precisamos de nos abastecer, em função das nossas necessidades”.

Já as  “caixas solidárias’” não são “uma forma que possamos ter à disposição das pessoas, que depois vão mexer, escolher e pode haver uma contaminação do vírus”, disse.

Além disso “podem ser colocados na Caixa alimentos perecíveis, com outros riscos alimentares. São Caixas que podem estar à chuva, ao sol, podem estar ao frio”, notou ainda Maria dos Anjos Esperança, em declarações ao mediotejo.net.

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Cláudia Gameiro
Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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