Alcanena | Poeta António Lúcio Vieira homenageado num emotivo regresso a casa

Maria João Gomez, vice-presidente da Câmara Municipal de Alcanena, com o poeta António Lúcio Vieira. Foto: mediotejo.net

Houve lágrimas, mas também sorrisos e gargalhadas. Olhares cúmplices, abraços sentidos. Houve momentos tocantes de silêncio, outros de estremecimento e ovações. Na tarde de sábado, 23 de junho, cumpriu-se a devida homenagem ao poeta António Lúcio Vieira, que nasceu na vila há 75 anos e ali nunca tinha apresentado nenhuma das suas obras: mais de uma dezena, ao longo das últimas cinco décadas.

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A tarde de calor convidava a outros programas mas, ainda assim, o auditório da Biblioteca Municipal Dr. Carlos Nunes Ferreira, em Alcanena, recebeu cerca de duas dezenas de admiradores de António Lúcio Vieira para a apresentação do livro “25 Poemas de Dores e Amores”, obra vencedora da primeira edição do Prémio Literário do Médio Tejo, em 2017, na categoria de Poesia, e editada pela Médio Tejo Edições/Origami Livros.

António Mário Santos na apresentação do livro de António Lúcio Vieira, com a vice-presidente da autarquia Maria João Gomez. Foto: mediotejo.net

O poeta, que também tem larga obra na área do teatro e do jornalismo, reside em Torres Novas há várias décadas mas fala sempre da sua terra natal com uma emoção particular, havendo múltiplas referências a Alcanena nos seus poemas.

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António Lúcio Vieira já tinha sido condecorado em 2015 com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural do concelho e, desta vez, recebeu um conjunto de livros editados pelo município e uma placa honorífica das mãos da vice-presidente do município, Maria João Gomez, para assinalar este seu “regresso a casa”.

A tarde foi pontuada pela leitura de poemas (pode ouvir um deles no final deste artigo) e contou com a intervenção de outras personalidades do concelho, como o encenador Vicente Batalha. A apresentação do mais recente livro de António Lúcio Vieira ficou a cargo do historiador António Mário Santos, que enquadrou toda a obra do poeta nascido em Alcanena, texto que aqui se reproduz.

Ao aceitar apresentar o livro “25 Poemas de Dores e Amores”, de António Lúcio Vieira, Prémio Literário do Médio Tejo, no concelho que o viu nascer, fi-lo por uma razão de amizade. Ambos temos praticamente a mesma idade, ambos partilhámos uma vida cultural no cineclube de Torres Novas, ambos nos dedicámos à actividade literária, desde cedo, no único jornal que existia antes de Abril no concelho de Torres Novas, o semanário “O Almonda”. Numa antologia sobre poesia torrejana contemporânea, que coordenei, publicada em Dezembro de 2008, o incluí como uma das vozes poéticas mais importantes. Também com a Maria Sarmento, outro grande nome da poesia contemporânea, natural de Torres Novas, professora residente em Évora, publicámos no ano anterior, em Dezembro, um opúsculo poético colectivo; “três poetas, 30 poemas”.

Mas, para além do que nos ligou ao longo de décadas, há a figura do Lúcio, o homem do grande teatro que se fez em Torres Novas, o impulsionador do cinema amador com os falecidos António José Cardoso e Manuel Gonçalves, o radialista interventivo e polémico, o jornalista que inventariou a vida associativa do concelho torrejano, como nenhum antes ou depois, ou como ousou o levantamento dos usos e costumes das sua freguesias, numa obra inédita e que demasiados engulhos lhe criou, ao ser repetidamente anunciada para publicação e depois preterida, sem que houvesse uma explicação clara da sua manutenção na gaveta das recusas.

Segui-lhe, ao longo destas já numerosas décadas, o percurso, nas suas múltiplas facetas, visível na sua biografia. Mas, para lá do enunciado da obra multifacetada, da sua pátria de nascimento, Alcanena, quem é António Lúcio Vieira?

Só há duas maneiras de o saber. Pelo que ele diz e pensa de si, pelo que os outros dizem e pensam dele.

Quando da publicação, no ano de 1974, do seu livro de poesia “En Volvimento” e da peça “Aldeiabrava”, escrita em três dias, o autor, no posfácio desta última, define-a como “farrapos de uma infância próxima-longínqua, no seio dos operários e ganhões da minha Alcanena natal, já nesse tempo despertos para o futuro dos homens, condensaram-se-me no sangue, nessas horas que antecederam o início da construção dos diálogos.”

A partir das vivências familiares da infância, da tasca do Facão, onde os homens iam à praça, para serem escolhidos para o trabalho sazonal. Local de vivências onde acompanhava, com frequência, os passos do avo materno, António Coutinho, o albardeiro, antigo tocador de requinta. Outras figuras lhe marcam a infância, o António da Albertina, nocturno, improvisador de quadras chacoteiras, o Ti’ Calhabotas, fogueteiro, invulgar tocador do sino da igreja, animador de garraiadas, o Ti’ Zé Zabeleta, tocador de harmónio, do melhor que se ouvia no lugar, poeta e cantor. Era lá, nessa tasca que se lhe tornou mítica – recorda – que os homens desfolhavam a vida, entre sucessivas rodadas de tinto e partidas de bisca lambida.

“Dessas idas ao antro dos operários e ganhões, duas imagens me ficaram. A primeira, o aperceber da luta diário pelo pão, dos revezes e das frustrações, das doenças dos filhos, das lágrimas das mulheres e da servidão do braço e do sangue. A outra, como um retrato sensorial, impressionado pela penumbra da casa dos pipos, com chão de terra batida, regada pelo vinho, da qual se exalava um odor estranho e inebriante, um odor de mistério, que a meia-luz reforçava e que, à sua maneira, era tão espiritual como o incenso. Foi, acredito, a magia do povo da minha terra, a virilidade dos homens e a sua ânsia de cavalgar a vida, como se ela fosse o mais fogoso corcel, que me vestiram a cor e a força e até a palavra, elementos fundamentais à moldura do texto e ao clima da obra.”

É uma visão retrospectiva, escrita em 1980, que o autor deixa dessa peça, que o “tenha marcado dum modo mais profundo e vital e diferente, de tudo o resto que eu escrevi ou realizei artisticamente”. Do poeta que assumindo o grito colectivo da canção, já em 1974, afirmava: “sou um homem telúrico. A terra corre-me nas veias e sinto-lhe a lactência e todo o sopro de humanidade do meu acto de viver.”

Quando, em 1975 a “Crónica do Ribatejo”, o seu primeiro tema gravado em disco, na sua colaboração com Paco Bandeira, reflectia: “Foi assim que tudo começou. Decorria o ano de 1975 e a sociedade portuguesa sofria um reflorescer; mudavam-se as mentalidades, mudavam as palavras e mudavam as canções. Digo-vos que me orgulha ter remado no barco onde tantas dessas mudanças navegaram, nesses dias mágicos, quando a canção andou por aí à solta, acordando o país de lés-a-lés, ciente que estava também a reescrever a história.”

“Nasci no Ribatejo. Conheço, como ninguém, cada estrofe, cada gota de sangue e da seiva dessa canção de acordar. Nasci no povo e do povo. Aqueles primitivos dezoito anos, na minha Alcanena natal foram, sei-o hoje, nada mais do que os alvores de uma vida, mergulho as minhas raízes, desde esse início, nos alcatruzes dos dias, nos sonhos dos homens e nos socalcos desta orgia de existir.”

“Sou assim. Da infância retenho a plenitude dos mágicos momentos, a paixão pela vida, pela terra, e sobretudo pelo mar, de quem cedo fui amante. Desse remoto acordar conservo as palavras urgentes que me vestem os poemas, os gritos da revolta e o sangue sacrificado de tantos irmãos que apenas clamaram vida. Da infância desperto as prédicas, avisadas e sábias, do avo António, os mundos por descobrir, que se derramavam dos olhos do meu pai e as ferramentas forjadas pelos malhos da esperança, que haviam de permitir o cerne e a seiva e a alma e os seus anseios, deste aprendiz de alquimista, mal refeito do acto de ter nascido, que tanto quis amar e a quem tão pouco foi dado ver amor.”

“En Volvimento” (1974), “Re Cantos” (1997), “Do Canto da Voz” ( duas edições, a 2ª em 2011), colaboração em antologias, esse crescer nas palavras, essa alquimia de vida e de sonho, de esperança e de tragédia, de amores e de raivas, em dezenas de poemas e canções escondidas em páginas de livros à espera de serem folheados, lidos, cantados. Ou das suas mais recentes obras novelísticas, “O Mouro da Praia da Foz” e “Contos das Terras d’Água”, onde o poeta abre as portas das suas histórias de vida, através duma alteridade de personagens que representam, no fundo, as memórias do seus sinais, as raízes que marcam e definem o ser e o crescer, através das camadas do mundo, que marcam e doem a existência.

Mas o poeta é também o que os outros dizem e pensam da sua obra, de si como artista e como ser humano.

Partamos para esta segunda parte, dos dois livros “Re Cantos” e deste último, “25 Poemas de Dores e Amores”, das respectivas introduções, ambas escritas pelo maestro, escritor, pintor, cantor, Pedro Barroso. Se em 1997, após lhe desenhar o retrato psicológico “de um homem que vive ele próprio, dia a dia, em poesia, no dia a dia parece agitado convulso impulsivo desordenado, tudo assim mesmo-sem vírgulas”, diz também que ao lermos a sua poesia viajamos no sentimento dos sentidos e na alegria intensa da alegoria.

“É uma tempestade sem rédea, sempre na fímbria do desejo, do amar e do viver. É uma poesia de excessos, apaixonada e nunca fútil. Cheira-nos aos lençóis enrodilhados de uma noite de amor e ao cheiro a terra molhada depois duma chuvada de Verão.”

Aplaudi. Creio que Pedro Barroso definiu, duma forma sintética, tudo o que era a criação poética do António Lúcio Vieira. Em 2017, no belo texto que prefacia os “25 Poemas de Dores e Amores”, ante uma vida vergastada pela borrasca inóspita da doença, pelo indiferença e egoísmo do concelho onde criou, no teatro, na rádio, na imprensa, no papel, uma vida e um destino, escreve: “Eu considero o Lúcio Vieira um poeta maior. E, contudo, a vida nunca lhe outorgou o mérito e o proveito… nem os prémios e os respectivos dividendos. Frágil cultura – ingrata lavoura, a das palavras.”

“Tenho para mim que tudo na vida lhe foi difícil. E que desse cinzento amargo da sua própria cinza ele soube erguer uma poesia de culto e de excelência. Arrepia ler-te, meu amigo Como te gosto de sentir na folha branca que assim nos deixaste, tão contida e, contudo, tão gritada de dor e sensibilidade interior. Bravo. Bravo mesmo.”

Do livro que hoje aqui me cabe apresentar, só há algo ainda por fazer. Lê-lo. É uma poesia de grande fôlego. Amadureceu, ascendeu, abriu caminhos noutros caminhos que as palavras guardam dentro de si como viagens de descobertas, aventuras e derrotas, num oceano encapelado e estranho como é a incógnita do universo.

Poderia tentar defini-lo como um espelho em que o poeta encontra sempre uma imagem diferente da sua, um rosto perspicaz, dorido, desencantado, em que descobre avulsos sinais dum outro, que foi o seu, nos muitos anos de amores e desamores que a própria memória já confunde. Um outro que lhe conta o que foi, mas de que já mistura os sinais, já que o presente assenta numa dorida e consciente ausência: do que sonhou ser, do que quis ter, do que o tempo lhe colocou no olhar como uma redescoberta, da fragilidade do desejo, da consciência da efemeridade dos sonhos, dos barcos esvaziados e ósseos nas praias da alma dum artista-poeta que acima de tudo acreditou ser possível viver da magia da palavra que nascia, do texto que lhe ardia nos dedos, do filme que intentava um novo caminho de linguagem cinematográfica, dum programa de rádio capaz de marcar pela diferença e criatividade.

“25 Poemas de Dores e Amores” é um livro sobre a nudez de si, a incerta certeza dum corpo transitório demais para o fogo excessivo da palavra. A sabedoria triste que se reacende nas cinzas prontas ao incêndio duma vida em viagem, duma palavra que é o cerne e o arrepio, o chão e o oceano do universo.

Um poeta que recuperou da noite do seu desencanto a luz do que vale a pena para se ser, do que acima de tudo importa, o que está escrito no livro de seu percurso em busca da humanidade que o fez um eterno vagabundo do amor pelo amor.

Repito as palavras de Pedro Barroso. “Bravo. Bravo mesmo.”

Termino com a leitura de um dos poemas do António Lúcio Vieira, “Por onde Me Leva o Vento”, que diz muito mais do que tentei dizer sobre a sua obra.

Um poeta não se explica. O poema é o seu olhar, a sua voz, a sua alma, o que disse e o que os outros reescrevem desse dizer. Nenhuma palavra sintetiza o paradoxo, o labirinto, a busca duma resposta para a razão da sua escrita. O poema é o melhor de si, a sua essência, o que o ultrapassa, o que ele desconstrói do seu próprio casulo de vida. O que nos deixa como um copo de água fresca para a sede interior de cada um.

“Por Onde Me Leva o Vento”, poema de António Lúcio Vieira, lido por António Mário Santos na Biblioteca Municipal de Alcanena, a 23 de junho de 2018.
Música de Ryuichi Sakamoto | edição mediotejo.net

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