- Publicidade -

Segunda-feira, Dezembro 6, 2021
- Publicidade -

Alcanena | Oito mil bonecas festejaram o 11º aniversário do Museu da Dona Rosa

O Museu da Boneca em Alcanena celebrou o seu 11º aniversário no sábado, dia 9 de maio, mas de portas fechadas, face à atual situação de crise pandémica. Este museu, único no país, é uma parceria da Câmara Municipal de Alcanena com a colecionadora Rosa Vieira, proprietária da coleção. Oportunidade para revisitarmos o espaço e as milhares de bonecas que o compõe.

- Publicidade -

O edifício que acolhe o Museu da Boneca é um antigo refeitório primário, com a traça característica do Estado Novo. Ainda assim, é essa envolvência que nos cativa logo à entrada neste espaço criado em 2009 para albergar a já extensa coleção de Rosa Vieira e que aqui foi crescendo ao ritmo das muitas visitas e várias doações.

A boneca mais antiga existente no espólio tem 200 anos e foi oferecida por uma senhora de Santarém. “Mas não está aqui”, adianta logo a sua diretora, explicando que a boneca de porcelana possui dois dedos danificados e foi retirada para ser recuperada.

- Publicidade -

Sonho inesperado de Rosa Vieira, Alcanena tem um museu único no país. Depois de várias polémicas e algumas amarguras, a proprietária do espólio de mais de 8 mil bonecas quer ver o património crescer e ganhar dimensão no meio museológico português. Tarefa difícil mas não impossível para esta mulher que dizem ter um temperamento difícil, talvez porque recusar aceitar “nãos” como resposta.

museu2
Rosa Vieira abre o Hospital de Bonecas nas primeiras quartas-feiras de cada mês

Dona Rosa mistura-se com o museu que dirige, onde cada recanto tem uma história e guarda memórias de um momento marcante da sua longa paixão por bonecas. Começou há 57 anos, quando foi viver para o Brasil com a família e pediu uma boneca pelo Natal.

“Naquela altura, as bonecas não eram para brincar”, recorda, sendo mais próximas do que se entendia por artigos de luxo. Na noite de consoada aguardou pacientemente pela descida do Pai Natal pela chaminé com a prenda desejada, mas esta não chegou.

Desanimada, perguntou ao pai: ter-se-ia portado mal? “O meu pai ficou tão triste que me disse a verdade”, recorda. As prendas eram todas de avós e tios e a boneca prometida estava apenas atrasada, não tendo os tios conseguido enviá-la a tempo. Exposta logo à entrada da exposição, intitulada de “Meu Bem”, ali figura essa relíquia com meio século e inspiração de uma vida inteira. “Foi com ela que descobri que não havia Pai Natal”, comenta Dona Rosa com nostalgia, sublinhando que continua a ser uma das suas preferidas.

Depois foi comprando, adquirindo este ou aquele exemplar cuja beleza lhe cativava o olhar e lhe animava os dias mais negros. Em breve a coleção ocupava-lhe boa parte da casa em Vila Moreira, em Alcanena, quando surgiu por acaso a ideia de apresentá-las ao público.

Mas desta parte da história prefere não falar. Muitos contratempos, muitas desilusões. Segue adiante, sublinhando que hoje tem, por fim, as condições ideais de acondicionamento das bonecas – a única coisa que lhe falta é espaço. É que este Museu está praticamente com a lotação esgotada, com 8347 exemplares. Falta pouco para atingir os 10 mil artigos que fixou como objetivo para a sua coleção.

museu3Espalhadas pelas vitrinas e prateleiras desta casa recheada de memórias há bonecas de porcelana, de pano e de plástico. Há donzelas com esplendorosos vestidos oitocentistas, casas de brincar de médio tamanho com móveis em miniatura, super-heróis, palhaços e princesas Disney (numa tentativa de cativar a atenção dos mais novos para o universo específico deste brinquedo). Depois há o Hospital da Boneca, um espaço que “está mais ou menos como estão os Hospitais deste país”, mas que tem “serviço de urgência” todas as primeiras quartas-feiras de cada mês.

Abrindo a porta à esquerda da receção, uma pequena arrecadação perfila um amontoado de bonecas e brinquedos à espera de reparação. A ideia inicial passava por montar uma sala com pequenas camas e imitação de equipamento hospitalar, de forma a ajudar os mais novos a superarem o medo dos Hospitais. A falta de espaço contribui para que as bonecas se vão amontoando, retardando a sua apresentação ao público.

Dona Rosa faz questão de manter o Hospital aberto ao público, mas sente alguma relutância da parte da população em vir entregar as suas bonecas danificadas. “Também já não recebo bonecas repetidas e, na atual situação económica, muita gente quer vender. Aí já tenho que fazer seleção”, explica.

Não deixa de continuar a receber doações, procurando sempre respeitar os desejos daqueles que oferecem as suas bonecas ao Museu. No espaço paralelo ao Hospital encontra-se um extenso armazém onde são guardadas as bonecas que não estão em exposição. Dona Rosa conhece a história de cada uma, de todas tem aventuras para contar.

“Quantos peitos elas já não aconchegaram? Quantos sorrisos? Quantas confissões não terão ouvido?”, divaga. Teme por isso pelo futuro da sua coleção. “É tudo muito incerto”, refere, “vejo o nosso país com muito desinteresse na Cultura. A Cultura é sempre o primo pobre. E quanto mais um povo é ignorante, mais fácil é de manobrar”.

Fechamos as portas das arrecadações, permanecem abertas as das duas exposições. Lá dentro, o olhar ausente das esplendorosas bonecas de porcelana de vestidos requintados dão um ar solene à exposição, como que num grande salão a aguardar pelo derradeiro baile de um romance russo.

Pelas paredes, bem no alto, a palava “Boneca” está escrita em várias línguas e alfabetos. O silêncio preenche os corredores habituados aos gritos das crianças e àqueles que regressam com frequência a esta casa para rever bonecas que compuseram a história dos seus avós, da sua família. Há emigrantes que todos os anos vêm ver as novas exposições. Há sempre algo diferente. “O espólio dava para fazer o triplo!”.

*Republicado a 11 de maio de 2020

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome