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Sábado, Julho 24, 2021

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Alcanena | O sr. Vítor das pedras e a Serra: “Tive amor a mais à pátria”

Serra de Santo António é uma aldeia e sede de freguesia no cimo da serra com o mesmo nome, no concelho de Alcanena. Aí nasceu há 81 anos Vítor Agostinho. Quem o encontra na sua velha casa, herança dos avós, solitário e pobre, pensará que nunca terá conhecido outras paragens. Mas Vítor teve hipóteses de viver no Canadá, viajou pelos EUA e conheceu Espanha e França. Nunca casou, nunca teve filhos, possui três irmãos e vários sobrinhos espalhados pelo mundo. Mas nunca desejou viver senão na Serra.

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O portão, assim como a porta lateral, encontram-se abertos. De dentro, o sr. Vítor responde de imediato a quem o chama. Não chegamos a entrar. Permanecemos no pátio e é Vítor Agostinho quem vem ao nosso encontro. Curvado, dedos calejados e um deles com um “penso” caseiro, de chinelos de quarto, roupa empoeirada, encostando-se a um cajado ou a um bidão vazio, conforme se vai sentindo mais confortável, garantindo que não precisa de ajuda. Apesar de ainda mostrar alguma lucidez, o espaço que nos envolve denuncia uma caso social.

Vítor Agostinho foi um dos moradores da Serra (nome simplificado por que é conhecida a aldeia) que usufruiu dos cabazes de Natal para os mais carenciados, distribuídos todos os anos nesta época pela Câmara de Alcanena.

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Recordado da visita do ano anterior, o octogenário quis oferecer uma prenda à presidente Fernanda Asseiceira. O objeto foi singelo, mas de grande valor para quem é conhecedor das particularidades do solo: duas pedras, denominadas vulgarmente por cerebelos ou nódulos cerebróides, que, basicamente, fazem lembrar massa encefálica (o cérebro).

Na prática são registos geológicos da época Jurássica que se encontram com frequência no Maciço Calcário Estremenho, após desagregação do calcário onde estavam incutidos.

Registo da Cãmara de Alcanena aquando a entrega dos cabazes de Natal, com Fernanda Asseiceira e Vítor Agostinho. FOTO: CM Alcanena

Não foi a primeira vez que ofereceu estas pedras peculiares, que vai encontrando dispersas pelos terrenos da serra. Oferece-as porque são “bonitas”, explica, e diferentes do que se vê pela região. Queremos saber mais sobre o valor e as razões de tão inusitado presente, mas das pedras o sr. Vítor tem pouco mais o que contar. Fala-nos antes da sua vida, por onde andou e o que conheceu, e porque sempre preferiu voltar a Serra de Santo António, ainda que solitário.

Nasceu segundo de quatro filhos, relata-nos, e fez apenas a quarta classe. “Andei vários anos a acartar peixe para Espanha, tive em França algum tempo e estive em Vancouver, no Canadá, a visitar o meu irmão”, comenta. “A freguesia da Serra de Santo António tem a emigração mais antiga do distrito de Santarém”, garante, “já daqui saíram pessoas importantes para as colónias”.

As histórias de Vítor Agostinho são as da sua família. Tios, primos e familiares mais afastados que fizeram vida em Lisboa, Angola, Brasil, Timor, Venezuela ou Canadá, enquanto Vítor foi ficando pela Serra. Vai narrando os episódios, saltando de familiar em familiar numa lógica apenas sua, lembrando um que “era esperto”, outro que “esteve na cavalaria” e outros tantos que fizeram a sua vida profissional com algum sucesso.

Vítor trabalhou essencialmente no campo, apesar de ir narrando experiências no transporte do peixe e tentativas falhadas na emigração.

Vítor Agostinho tem 80 anos FOTO: mediotejo.net

A mãe, recorda em lágrimas, ficou viúva cedo e “teve uma vida miserável”. “Tinha bom coração e era uma boa mulher”, salienta, com “espírito de coragem e força”. Lembra de seguida a irmã mais velha, que aos 10 anos foi trabalhar para uma fábrica e, por isso, só fez a terceira classe. “Também tive pouca sorte. Trabalhei muito, sou a pessoa mais pobre do distrito de Santarém”, vai comentando.

Um rapaz franzino que andou a acartar café no Largo do Rato, em Lisboa, e que numa ocasião por pouco ficou sem pernas num acidente de trabalho. “Voltei para a Serra”, resume.

Sabe que se vive bem no Canadá, onde ainda se encontra um irmão, mas refere que mesmo com ordenados bons a vida naquelas paragens tornou-se muito cara. Numa visita de dois meses àquele país viu um pouco de tudo, comenta, terá passado a fronteira e visitado o Palácio das Nações Unidas. “Vi pontes e tudo o mais”, recorda, “já vi o mundo”. Mas, ao mesmo tempo, “já vi que chegasse para mim. As pessoas quando têm juízo e um pouco de conhecimento já não têm essa audácia” de continuar a partir. “Tive amor a mais à pátria”, reconhece, “tive amor à terra e à família”.

Perguntamos-lhe como é o mundo. Vítor Agostinho comenta que “o mundo podia ser bonito”, e que “quem está a estragar o mundo são os políticos”. Incomoda-o ver na televisão aquelas pessoas que vão nos barcos e morrem sem salvação. Um tio, cita ainda, costumava dizer-lhe que são “os pobres que seguram o mundo. Se não houver pobres o mundo acaba”.

Narra-nos de seguida a sua vida amorosa, uma única namorada a registar, que, garante, o trocou por outro num baile. Dos encontros secretos que patrocinava aos amigos, ficando ele de sentinela. “Era bom rapaz”, admite. Acabaria porém por não encontrar mais nenhuma noiva, referindo que ao longo da vida lhe roubaram muita coisa, sobretudo gado, mas que descobriu sempre quem era o malfeitor.

Voltamos às pedras. “Tenho várias”, embora muitas já lhas tenham roubado. “Umas são rugosas, outras mais lisas. Espere que também lhe dou uma”.

E lá vamos nós, terra abaixo, onde Vítor rapidamente encontra novo cerebelo e apressa-se a ir lavá-lo antes do entregar. Uma vez “vi umas pedras feias em Santarém e lembrei-me que haviam uma pedras bonitas na Serra”, recorda. “Dei à presidente pela mesma razão que lha estou a dar a si…”, remata.

Também o mediotejo.net recebeu um cerebelo, que Vítor Agostinho se apressou a limpar. FOTO: mediotejo.net

Não chega a explicar o intuito da ideia, apenas que quis dar uma oferta a Fernanda Asseiceira. “Recebi uma carta da Câmara Municipal para os cabazes de Natal. Lembrei-me que a presidente já tinha vindo no ano passado” e da promessa que fizera então de lhe oferecer um presente. “Ela pensou que eram mais leves”, recorda rindo a reação da presidente quando pegou nos cerebelos.

Vítor Agostinho, mesmo com o peso da idade, levanta a pedra como se de um pequeno seixo se tratasse. Agarramos nós também, mas com dificuldade. Sim, é pesado!! “É uma mulher jeitosa”, constata ainda sobre Fernanda Asseiceira, “tem sido uma boa presidente”.

Aproxima-se o almoço. Passam vizinhos e dão as Boas Festas, comentando o dia soalheiro. “Hoje está bom, nem parece época de Natal”, constata o sr. Vítor. Passa outra senhora idosa e mete conversa. Ainda conversamos sobre as pedras.

“Encontro-as na serra. Só há dois ou três sítios que as têm. É a única zona onde existem no país…”

*Artigo publicado em dezembro de 2016, republicado a 30 de dezembro de 2017

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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2 COMENTÁRIOS

  1. Que supreesa ver um PRIMO da ninha terra natal,uma supresa agradável,para um primo que não via a tantos e tantos anos, seu irmão JOAO Agostinho vive também na SERRA,{ REFORMADO MAS VIVEU MUITOS ANOS EM VANCOUVER}Sua irma { falecida} a 2 anos creio em Alcanena{ Sua mae a bastante tempo,irma da minha AVO,portanto sumos PRIMOS………..{ SAUDE VITOR Abraço Fernando

  2. Eu sou nascida e criada na Serra, fui vizinha, durante alguns anos, do Vitor, que nesse tempo vivia com a mãe e a irmã, pessoas que eu adorava, todos os dias ia comprar lhes leite, pois elestinham muitas vacas
    Gente boa, trabalhavam muito!! Pessoas que sempre estão no meu coração!! Fiquei contente deste artigo, acerca so sr Vitor, bom hajam!!!!

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