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Domingo, Setembro 26, 2021

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Alcanena | O mundo encantado das “casitas” de Rui Louro

Rui Louro cria casas de pedra em miniatura há mais de uma década e a sua arte está patente desde o dia 10 de julho (e até 31 de agosto), na Biblioteca Municipal de Alcanena com a exposição “II Mostra Casinhas de Pedra – Há sempre uma segunda vez”. A técnica do artista de Alcanena foi desenvolvida nos anos em que construiu casas numa escala maior, à qual juntou o gosto pela História, a cultura portuguesa e o pormenor. Este é a segunda mostra do criador de casitas que nos fazem querer bater à porta e entrar no seu mundo imaginário, depois de, em 2018, ter exposto no Átrio da Câmara Municipal de Alcanena as suas “Casitas” e conversado com o mediotejo.net sobre a sua arte. 

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Os 67 anos de Rui Louro começaram na antiga freguesia de Alcanena, hoje União das Freguesias de Alcanena e Vila Moreira, onde morou até se mudar para a terra natal da esposa. Manteve-se no concelho, mas mudou-se para a freguesia vizinha de Bugalhos e por ali se mantém há cerca de quarenta anos. Foi lá que nasceram as duas filhas, que vão brincando os quatro netos e construiu as primeiras casas.

Não aquelas que motivaram a nossa entrevista ao artista durante a exposição que esteve na Galeria Municipal do Entroncamento em 2017 e que esteve em 2018 em Alcanena, mas as que ajudou a construir nos muitos anos em que trabalhou como pedreiro na construção civil. A profissão permitiu-lhe conhecer a técnica enquanto construía “casas grandes” e começou a aplicá-la há pouco mais de uma década nos exemplares em ponto pequeno.

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As primeiras construções em miniatura não eram em pedra, nem moradias, mas sim barcos em madeira a partir das “caixinhas de fruta” que ia encontrando e a esposa se queixava de encherem a casa. Rui Louro acabou por lhe fazer a vontade, não levou mais caixas de madeira para os barcos, mas passou a levar pedras, madeira, argila e tudo aquilo que lhe desperta o interesse para criar as “casitas” que distinguem a sua arte e geram curiosidade nos visitantes das suas exposições.

Fotos: mediotejo.net

A matéria-prima principal é a pedra que recolhe na zona da Serra dos Candeeiros e “se lasca muito bem”, facilitando a tarefa ajudada por “um martelo e um alicate” da qual resultam as paredes ou os muros. O barro também marca presença nas telhas, criadas uma a uma, e noutros elementos que surgem consoante a inspiração do momento e são pensados como se as criações em miniatura tivessem moradores. Um exemplo é a recente escada em leque, uma inovação, que não pode ser “muito íngreme”.

À história de cada casa junta-se a própria História dos “muitos fósseis” que Rui Louro diz encontrar quando parte a pedra e a dos muitos livros que compõem a sua biblioteca pessoal, juntamente com os temas de Geografia. A literatura é um dos pontos de partida, mas também os pormenores que foram sendo registados pela máquina fotográfica e ficando na memória durante as viagens motivadas pelo gosto por “tudo aquilo que é português” e pelo trabalho numa empresa que o levou “ao norte” diversas vezes.

Quando decidiu meter mãos à obra surgiu também a influência das profissões do avô e do sogro, ambos agricultores, e a primeira criação foi a “Casa dos Currais”. Rui Louro lembra esses tempos “fiz a primeira, agradou, fiz a segunda, agradou e, pronto, não me largaram”.

As casitas não o largaram mesmo e, juntando os exemplares criados nos últimos 12 anos, quase meia centena, conseguíamos criar uma aldeia com habitações, maioritariamente, de um andar e varandas com cadeiras em que dá vontade de sentar a ver o por-do-sol. Um lugarejo onde não faltaria o moinho de vento, nem os latidos dos cães e dá para espreitar por janelas para descobrir camas, mesas, candeeiros e até um penico.

Fotos: mediotejo.net

Metade da povoação foi sendo oferecida e vendida, a outra metade está guardada no seu “refúgio” anexo à casa de família onde apenas quebra o silêncio quando quer, ora com a música e as conversas “interessantes” que saem do rádio, ora com os sons das galinhas, dos cães e dos pássaros que entram pela janela. Aos últimos junta-se um dos seus favoritos, o da chuva, que lhe traz inspiração e torna as pequenas casas rústicas numa arte quase sazonal pois dedica-se à sua construção, sobretudo, no período setembro – março.

O espaço não se trata apenas de um atelier, é também um pequeno “museu” pessoal onde tem expostos os trabalhos em bancadas, igualmente, criadas por si. O tempo não passa por ali quando a mente está motivada e as mãos se entregam aos pormenores durante seis horas, apenas interrompidas pelas chamadas da esposa para as refeições. Como qualquer artista, também nascem dias em que a inspiração não chega a uma hora, outros em que esta é trazida pela insónia e registada no bloco da mesa de cabeceira.

Os pedidos para exposições multiplicam-se, mas o maior problema não reside na falta de tempo. A antiga carrinha está parada e deu lugar ao carro pessoal, dificultando o transporte das frágeis construções, que viajam “acondicionadas” e acompanhadas pela cola e peças extra para o caso de enfrentarem alguma “calamidade”. Outro fator crítico apontado é a falta de ajudas de custo por parte das entidades públicas “aos expositores”, destacando a reforma “pequenina” que nem sempre lhe permite assegurar as despesas associadas a transporte, refeições e estadias.

Fotos: mediotejo.net

Estas limitações não o param e diz que “enquanto puder, eu vou”, sobretudo se os pedidos chegarem de escolas, bibliotecas e centros de dia. As “casitas” já percorreram muitos quilómetros e Rui Louro chegou a participar em feiras, mas estes locais continuam a ser os de eleição pois permitem-lhe fazer o que gosta: “mostrar” o seu trabalho. Os maiores fãs são os idosos e as crianças e é dos últimos que recebe as reações mais “genuínas”.

No entanto, os elogios recebidos não escolhem idade e no livro de visitas pessoal, que faz questão de ter presente nas suas exposições e gosta de ler quando se sente menos inspirado, estão alguns desses testemunhos. Pequenas frases que poderiam constar no verso de um postal com imagens da pequena aldeia criada por Rui Louro em que cada casa aconchega a imaginação e onde quase apetece bater à porta para escutar um “pode entrar, está aberta”.

*Noticia de Sónia Leitão atualizada e republicada em julho de 2021

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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