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Sábado, Julho 24, 2021

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Trincanela

Alcanena | O artesão de miniaturas que tem um “museu” em Vila Moreira (c/vídeo)

Chama-se Rui Silva, tem mais de 60 anos de vida dos quais 40 anos em Vila Moreira, Alcanena, apesar de ser natural de São Vicente do Paúl, em Santarém. Serralheiro de profissão, com anos de experiência na metalomecânica, dedica-se a um passatempo que exige preciosismo e bastante paciência: a recriação em miniatura de instrumentos agrícolas, desde carroças, arados, máquinas, a moinhos e lagares.

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De tudo um pouco recria Rui Silva, sem esquecer os mais simples pormenores. O seu objetivo, afirma, foi preservar a memória de práticas e labores que se foram relegando para a modernidade tecnológica. Hoje tem em sua casa uma pequeno “museu”, o qual mostra a quem se interesse pela preservação da história agrícola de Portugal ou, simplesmente, aprecie a arte que estas miniaturas representam.

No coração de Vila Moreira, Rui Silva abre-nos a porta da sua “Exposição”, letreiro colocado logo à entrada mas do qual só nos apercebemos à saída. É não mais que uma pequena sala, numa casa térrea tradicional, que alberga no seu exíguo espaço 40 peças miniaturizadas dos mais diversos instrumentos e máquinas agrícolas, passando ainda por reproduções representativas das velhas técnicas do curtume, tão próprias do concelho de Alcanena.

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Trabalhos executados com rigor e exatidão, seguindo à risca os objetos que lhes deram inspiração, criados a partir de materiais reciclados que Rui Silva vai recolhendo do seu trabalho e de ferro velho.

debulhadora do Tramagal em miniatura, com apoio de locomotiva a vapor. foto mediotejo.net
debulhadora do Tramagal em miniatura, com apoio de locomotiva a vapor. foto mediotejo.net

“Na minha zona o trabalho que havia era na agricultura”, começa por narrar. Mas após terminar o ensino escolar, mudou-se com os pais para Parceiros de Igreja, no concelho de Torres Novas, onde começaria a trabalhar na metalomecânica. Daí passou para a indústria dos curtumes, onde permanece até hoje, já no concelho de Alcanena.

Não sabe explicar bem a que se deve este seu gosto pelas miniaturas e a iniciativa de recriar os engenhos agrícolas. “Como fui criado em espaço agrícola, vi estas máquinas a trabalhar na meninice. Aos 48 anos tomei noção de que estava tudo a desaparecer”, constata. Começou então a procurar recriar as máquinas e os instrumentos da sua infância, seguindo a memória, blogues, velhos utensílios e tudo o que conseguisse encontrar na sua pesquisa.

Faz medidas, procura materiais, recria ao detalhe cada máquina, cada moinho, cada utensílio, carroça, saco de milho, mó, inchada, etc. O resultado final são construções que fazem lembrar casas de bonecas ou as “granjas” da famosa marca de brinquedos Playmobil. As crianças, confessa, deliram com as carroças e os cavalos.

miniatura de balança com pesos. foto mediotejo.net
miniatura de balança com pesos. foto mediotejo.net

“Eu faço as casas, mas o que me dá mais prazer fazer é o miolo”, comenta Rui Silva. Observar as suas construções é uma descoberta. As mós e lagares funcionam a eletricidade, assim como as pequenas lanternas que compõem a decoração. Os moinhos e as noras giram, as debulhadoras trabalham. Tudo tem vida no “museu” deste artesão.

Mas há também pias, cisternas, fornos, teares, prensas para a palha e uma variedade de outros equipamentos de que já não recordamos o nome.

Rui Silva já correu o país para tirar medidas a velhos lagares e máquinas que quer recriar. “Uma vez começado, parece que já não sou capaz de parar. Trago sempre em mente alguma coisa para executar”, admite, uma espécie de vício que parece ter vindo para ficar. A próxima miniatura, mostra numa foto, é uma máquina que está num jardim junto ao Intermarché da Chamusca.

"Presépio" feito com pinhas. foto mediotejo.net
“Presépio” feito com pinhas. foto mediotejo.net

Sabe que a “debulhadora Tramagal”, máquina no centro da sua exposição, lhe demorou cerca de seis meses a concluir, mais quatro meses para a locomotiva que completa a estrutura. “Este terá sido o trabalho mais complexo, assim como o cilindro de sola da indústria dos curtumes”, explica. Das restantes peças perdeu a noção.

“O que me dá prazer é fazer isto ao pormenor e vê-lo trabalhar”, confessa. “E agrada-me ver a reação das pessoas. Dão incentivo e os parabéns”. Rui Silva não sabe dizer se isto é Arte. “Temos que saber manusear o material e ter paciência e muito gosto”, comenta apenas.

Já vendeu algumas peças, mas este é sobretudo um museu pessoal, com o qual correu em exposição algumas zonas do país e que quer “mostrar ao povo o passado e fazer relembrar”. “Já tentei mais sítios, mas por vezes não há sensibilidade para estes artigos”, explica.

Miniaturas de máquinas da indústria de curtumes. foto mediotejo.net
Miniaturas de máquinas da indústria de curtumes. foto mediotejo.net

Na busca da perfeição das miniaturas, o seu lema é : o conhecedor não pode ver defeitos! Para o especialista de uma máquina de curtumes ou de uma velha estrutura agrícola estas recriações têm que ser cópias sem defeitos dos originais. Só assim Rui Silva dá o trabalho por concluído! Trabalha sozinho, a esposa apenas ajuda nos trabalhos de costura e pede algum apoio na estrutura elétrica. “Todas as peças têm um mecanismo que as faz funcionar”, frisa.

No coração de Vila Moreira, Rui Silva tem um museu. E quer muito poder mostrá-lo aos amantes das tradições da terra…

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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