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Segunda-feira, Dezembro 6, 2021
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Alcanena | Na ETAR, a AUSTRA também procura uma origem para o mau cheiro

Há um certo sentimento de cansaço e alguma frustração entre quem ali trabalha. Nascida em 1988, a ETAR de Alcanena passou já por um percurso de ampliações e mudanças até chegar aos dias de hoje. A tecnologia muda sempre, os conhecimentos também, razão pela qual a Associação de Utilizadores do Sistema de Tratamento de Águas Residuais de Alcanena (AUSTRA) pediu um estudo à Universidade de Aveiro, que deverá ficar concluído até final do ano, sobre a ETAR, para tentar definir se é efetivamente dali que partem os maus cheiros intensos que afetam desde o início do ano a vila de Alcanena. Na própria ETAR há vários processos de modernização a decorrer. Técnicos e administração recusam porém as críticas de um mau serviço prestado aos utilizadores, frisando que tudo tem sido feito ao longo do tempo para diminuir o impacto ambiental da indústria de curtumes. 

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A AUSTRA e em concreto a ETAR de Alcanena têm estado no centro das críticas sobre os maus cheiros que afetam a vila. O problema do odor é já crónico no concelho devido à presença da indústria de curtumes, porém a requalificação da rede de coletores em 2016 parecia ter suavizado substancialmente o mau cheiro próprio do setor, melhorando a qualidade de vida da população. No início do ano, porém, o cheiro regressou, com períodos mais intensos nos últimos meses, o que levou a população a mobilizar-se e a exigir soluções. Os receios dos efeitos para a saúde são a preocupação transversal e os olhos voltam-se para a AUSTRA, que parece não conseguir cumprir com as suas funções de fiscalização à indústria de curtumes e gestão da ETAR.

O mediotejo.net visitou na quinta-feira, 2 de novembro, a ETAR de Alcanena, acompanhado por Carlos Martinho, responsável administrativo e financeiro da AUSTRA, Maria Luísa Grilo, responsável geral do sistema de saneamento, Maria Teresa Silva, responsável técnica da ETAR de Alcanena, e Cristina Pimpão, responsável técnica do aterro e do sistema de recuperação de crómio. A visita percorreu os quatro setores que integram a ETAR, passando pelo aterro de lamas e o SIRECRO – Sistema de Recuperação de Crómio de Alcanena.

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AUSTRA encontra-se a investir em novos sistemas de desodorização para dois focos que podem estar na origem do mau cheiro através da ETAR Foto: mediotejo.net

Da parte da estrutura ficou a preocupação pela desinformação que graça em torno do funcionamento da ETAR e do esforço da AUSTRA para tentar chegar à origem do problema do mau cheiro e encontrar soluções. Há ainda o aviso, por diversas vezes reiterado, que a ETAR de Alcanena tem características próprias e não deve ser comparada com outras ETARs.

Junto ao aterro de lamas, mostram-nos o velho aterro, classificado como um perigo ambiental há cerca de uma década e entretanto desativado e as lamas retiradas. Há equipamentos que libertam perfume para anular o impacto do odor e encontra-se a decorrer um investimento para mais tecnologia de desodorização. Há pequenos pontos identificados de mau cheiro, como na entrada da ETAR e junto à “prensa” das lamas, que continuam a libertar odor.

Será daqui a proveniência do mau cheiro?

Depois há o crómio e os sulfuretos, químicos usados na curtimenta e cujas águas são tratadas na ETAR mediante um processo, garantem-nos, bastante controlado. Aquando a visita o mediotejo.net não chegou a sentir um odor forte junto ao tanque de dessulfurização e do de tratamento do crómio, mas explicam-nos que os químicos efetivamente libertam cheiro, sobretudo os sulfuretos. Apenas duas entidades têm recusado a fiscalização da AUSTRA aos seus tanques e aí, admitem, não podem garantir que o tratamento primário realizado pelas unidades industriais esteja a ser o adequado.

Será daqui a proveniência dos odores intensos?

O convite está aberto à população: as segundas-feiras passam estar abertas para quem quiser visitar e conhecer o funcionamento da ETAR.

A nossa visita não deu respostas. A AUSTRA também está à procura da origem dos maus cheiros que tanta agitação têm motivado nos últimos meses. A ETAR fica a cerca de dois quilómetros da vila. Questionamos o porquê de se ter construído a estrutura tão perto da população. As respostas, no entanto, ficaram com os decisores dos anos 80. Aguarda-se o estudo da Universidade de Aveiro e, espera-se, algumas respostas.

***

Nos aterros sente-se um ligeiro perfume, resultado de um sistema de desodorização que visa anular os maus cheiros próprios das lamas e dos resíduos dos curtumes. Foto: mediotejo.net

Dada a especificidade técnica de algumas explicações e a natureza polémica do tema, o mediotejo.net optou por reproduzir a entrevista gravada. A conversa decorreu nos escritórios da AUSTRA na ETAR de Alcanena, antes da visita ao espaço. Optámos por colocar algumas das questões/preocupações obtidas junto da população, nomeadamente aquando a reunião do Movimento pela Saúde de Alcanena, a 28 de outubro. A equipa de entrevistados foi a mesma que nos acompanhou na visita. O presidente da administração da AUSTRA tinha previsto estar presente, mas não pôde comparecer.

mediotejo.net (MT) – Temos um problema de maus cheiros que se intensificou este ano. A queixa tradicional é que a AUSTRA falha na fiscalização e tem, portanto, culpas nesta questão. Qual a vossa posição?

Carlos Martinho (CM): A AUSTRA exerce a sua ação de fiscalização nos locais onde lhes é permitido fazê-lo. No comunicado que enviámos à comunicação social fazia-se referência que temos dificuldade na fiscalização num associado e num utilizador. Nos restantes exercemos a nossa ação normalmente, sem problema.

Hoje, de há dois anos a esta parte, nós temos um sistema de monitorização online que nos permite perceber qual é o caudal, o efluente, quantitativamente em cada momento que sai das fábricas. Conseguimos perceber em termos quantitativos o que está a sair em cada momento, a qualquer hora do dia. Depois temos ainda um sistema, uns amostradores refrigerados nas unidades que são da classe 1, 2 e 3, naquelas que representam 84% do caudal desse tipo, que nos permitem avaliar a qualidade do efluente à saída da fábrica.

Portanto, a ação de fiscalização a este nível está salvaguardada. Mas onde nós não conseguimos entrar, não podemos…

MT: Porque é que não conseguem entrar?

CM: As dificuldades que nós temos nessas duas situações são de diversa ordem. Desde não deixar entrar, questionarem a nossa legitimidade de entrar. Nós temos denunciado às entidades competentes e as coisas seguem os trâmites normais de uma denúncia relacionada com algumas coisas que nós achamos que não estão bem e depois essas entidades exercerão também a sua ação. Mas nós não temos tido grande feedback em relação às ações que têm sido levadas a cabo por essas entidades.

MT: Poderá ser nessas duas unidades que está a origem dos maus cheiros?

CM: Nós não conseguimos dizer isso com essa clareza. O que podemos dizer é que nós não conseguimos exercer a nossa ação nessas unidades, portanto eles de alguma forma podem prevaricar nalgumas áreas que sejam causadoras de mau cheiro. Eventualmente. Mas como não conseguimos entrar lá… Temos alguns indícios, temos, que são relatados às entidades competentes e a partir daí espera-se que essas entidades exercem a sua ação.

MT: Outra das críticas frequentes é que a ETAR funciona mal. A ETAR funcional mal? No vosso comunicado falavam numa torre de desodorização que nunca havia funcionado. A ETAR está a cumprir em pleno a função para a qual foi construída?

Maria Luísa Grilo (MLG): O que é funcionar mal? A ETAR está a cumprir a função de tratar a água que deverá tratar. Não havendo avarias, não havendo relatos e factos, não percebo o que é trabalhar mal. Porque é que uma ETAR trabalha mal?

CM: Fomos nós os primeiros, nesse tal comunicado, que dizemos que existiu e que existe um equipamento na ETAR que nunca funcionou, mas isso não tem nada a ver com o tratamento da água. Tem a ver com um sistema de desodorização num ponto que não tem nada a ver com o funcionamento da ETAR. Porque é que não está a ser usado?

“temos dificuldade na fiscalização num associado e num utilizador. Nos restantes exercemos a nossa ação normalmente, sem problema”

Em 2012, quando este conselho de administração entrou em funções, havia um protocolo datado de 2009 entre a APA (Agência Portuguesa do Ambiente), a Câmara Municipal, que previa a requalificação da rede de coletores e a remodelação da ETAR. Durante anos não houve enquadramentos para esses financiamentos, por vicissitudes várias. Chegados a 2012, quando esta administração entrou em funções, deparou-se exatamente com essa situação de necessidade de investimento numa rede de coletores que estavam completamente colapsada e uma ETAR que tinha algumas deficiências no seu funcionamento.

Numa visita que foi feita logo em 2012, deparámo-nos com aquele equipamento que ali está (a torre de desodorização que não funciona). Falámos com os nossos consultores ambientais (especialistas no tipo de ETARs em que se enquadra a de Alcanena, nomeadamente o engenheiro Roberto Lobo) que aconselharam a dar prioridade à requalificação da rede de coletores, tratar bem a água, cumprir com os valores da licença, fazer tudo como deve ser no cumprimento do bom funcionamento da ETAR e depois tratar da desodorização.

A AUSTRA preocupou-se em começar os investimentos pela parte do tratamento da água e estamos na fase de colocar biofiltros na ETAR. (…) Estamos a falar de 3,5 milhões de euros na requalificação da ETAR. Agora é a altura de, por força de vicissitudes várias, do que se está a passar também, canalizar os investimentos para essa área de desodorização. E é o que estamos a fazer.

MT: Acham que este investimento na desodorização vai colmatar os problemas do mau cheiro ou não passará por aí?

CM: O problema é exatamente esse. Está em curso um estudo da Universidade de Aveiro e eles farão uma avaliação técnico-científica – são uma entidade isenta, competente, reconhecida por todos – e eles dirão se os cheiros da ETAR são, por força de factores térmicos, de amplitudes, de ventos, de dispersão atmosférica, dessas componentes todas, os que chegam a Alcanena.

Nós sabemos que existem na ETAR dois locais onde temos algum odor. Agora dizer que é este odor que está em Alcanena… São dois locais que vamos atuar na desodorização (tratamento do ar através de biofiltro), que é na entrada, quando a água vem em bruto, sem qualquer tipo de tratamento, e na desidratação das lamas.

MLG: As notícias que tenho visto publicados referem-se aos investimentos previstos em 2009 ou 2011. Havia um compromisso, mas em 2012 não havia nenhuma resolução. O conselho de administração da AUSTRA decidiu que tínhamos que começar por algum ponto. Porque só agora falamos em desodorização? Desde 2012 que temos vindo a caminhar, só que, como em tudo, isto tem a ver com orçamentos, com dinheiro.  Este é um passo dos que definimos em 2009 ou 2011. Como não se continuou por essa via (o projeto inicial previa mais investimento), a AUSTRA em 2012 entendeu que ia começar com capitais próprios, fazendo melhorias gradualmente.

CM: Se tivesse sentido essa necessidade (de investir na desodorização) o ano passado, obviamente que se teria apontado para aí. Mas o ano passado não houve estes problemas e nós dentro da ETAR, entretanto, só melhorámos. E hoje é que surgem os problemas de odores.

“A AUSTRA preocupou-se em começar os investimentos pela parte do tratamento da água e estamos na fase de colocar biofiltros na ETAR”

MT: Quando é que este sistema de desodorização estará a funcionar em pleno nestes dois pontos?

CM: Cerca de um mês… É a prioridade das obras a avançar neste momento.

MT: Qual o valor do investimento?

CM: Um investimento num biofiltro para a desidratação, biológico, fica em 180 mil euros.

MT: Um dos pontos apontado na reunião do Movimento pela Saúde de Alcanena foi que o aterro das lamas não era feito devidamente. O que me podem dizer sobre esta situação?

MLG: O que é ser feito devidamente?

CM: A melhor resposta que temos para isso é irem ao local. Não vamos parar nada.

MLG: Nós aqui, desde o início assim foi estabelecido, existe uma determinada percentagem de humidade nas nossas lamas e fazemos um tratamento para que a lama vá estabilizada e cumpra uns determinados requisitos. Não estamos a falar, por outro lado, de uma lama aguada. Quando falamos normalmente em lamas associamos às partes mais sólidas das ETARs que não têm estabilização, não têm tratamento, não há secagem.

Esta ETAR é um caso de estudo a nível de universidade. Em 1980, com a entrada de Portugal na Comunidade Europeia, toda a legislação ficou mais apertada. Anteriormente a água era deitada para o rio. Aqui em Alcanena, e muito bem, as próprias indústrias uniram-se com a Câmara e esta ETAR e os aterros, o tratamento da parte de resíduos das indústrias, foi tomada como um todo. A nível nacional não foram assim tantas as pessoas e as localidades onde isto acontecesse.

(…)

Tudo o que qualquer das quatro unidades cumpre não foi definido por nenhum técnico na AUSTRA ou por nenhum técnico na Câmara. Foi definido pelas entidades oficiais que na altura, vou dizer assim, ajudaram na construção dessas tabelas que temos que respeitar. Inclusive parâmetros que outros aterros nem sabem que existem porque estes aterros são específicos para este resíduo e este resíduo foi analisado pelos laboratórios oficiais da altura.

CM: É preciso ter muito atenção quando se faz esse tipo de comentários. Estamos a comparar a ETAR de Alcanena com outras ETARs, com estudos de outros ETARs. Isto não é comparável. Uma coisa é a ETAR de Alcanena que é uma ETAR com componente industrial e doméstica e outra coisa é uma ETAR com componente doméstica.

Maria Teresa Silva (MTS): Todos nós temos assistido a muitas acusações através da internet e outros meios, e pessoas diretamente. Tenho visto publicados alguns documentos científicos de pessoas muito entendidas em tratamento de resíduos e de ETARs. Mas não vêm aqui ver. Nós, como corpo técnico da AUSTRA, penso que temos identificados todos os pontos que podem produzir odores na instalação. Principalmente nestes últimos tempos, enfrentando estas acusações, temos feito um trabalho afincado junto das pessoas que aqui trabalham, nas pessoas que aqui entram, nas pessoas que trabalham mesmo na AUSTRA e nas que vêm de fora, sobre o cheiro.

MT: Outra crítica que tem sido levantada é que os químicos usados na curtimenta, os sulfuretos e o crómio, não estarão a ser utilizados/tratados devidamente. Qual a vossa posição?

CM: É a primeira vez que eu oiço falar no crómio. O crómio é o SIRECO, é lá (que é tratado). O crómio não tem cheiro, não é mau cheiro.

MLG: Tecnicamente eu vou responder assim. Na indústria dos curtumes o que é que é usado?

MT: Químicos?…

MLG: Que são essencialmente dois: à base de crómio, para remoção dos cabelos, e depois, noutra parte do tratamento, também são usados sulfuretos. São produtos químicos à base destes dois componentes químicos que são utilizados. Logo não tem um cheiro característico de uma indústria petrolífera, certo? Tenho produtos químicos característicos daqueles que são usados nos curtumes. Logo são dois produtos químicos potenciadores de odores em Alcanena. Mais um que outro.

“Estamos a comparar a ETAR de Alcanena com outras ETARs, com estudos de outros ETARs. Isto não é comparável. Uma coisa é a ETAR de Alcanena que é uma ETAR com componente industrial e doméstica e outra coisa é uma ETAR com componente doméstica”

MT: Qual o mais potenciador?

MLG: A questão do gás sulfídrico, sulforoso, na questão da condução, na questão da oxidação, na questão do produto de onde vem, a questão do contacto com o oxigénio, se vem dentro da conduta…

Algumas das indústrias, dependendo da classe, que utilizam no seu processo água com crómio ou contendo crómio, deverão elas próprias ter uns determinados tanques, reservatórios, para onde devem encaminhar essa água e, a seu tempo, contactam com a nossa unidade (o SIRECO). O que é que ela faz? Ela vai transformar uma água poluída, de maneira a que lhe consiga retirar um bocadinho desse produto contaminante e poluidor, para ser reutilizado. Para mim esta é a minha unidade verde, que faz a recuperação do crómio.

Temos um camião que dirige-se à indústria, recolhe e depois temos uma prensa para fazemos quimicamente o processo contrário. Faz-se uma pasta e etc e a seguir entregamos na indústria. Portanto, a água vem tratada. Em vez de vir a água direitinha com um determinado componente químico, muitíssimo carregado, aí pelo coletor abaixo, não! Vem depois a água resultante desse processo do crómio, vem à mesma ser tratado na ETAR, mas essa água já (terá muito menos carga de crómio).

Cristina Pimpão (CP): O crómio que nós vamos buscar para o SIRECO resulta do processo da curtimenta, aquela parte do processo em que sai mesmo uma carga maior. Estamos a falar de cargas de 3 mil miligramas por litro, 4.500, 5 mil miligramas por litro. O que chega à entrada da ETAR será menos que isso, 30 miligramas. No SIRECO estamos a falar de 3 mil. É isso que é tratado.

O crómio tem um cheiro característico? Tem. Mas acho que não se pode dizer que é um cheiro que se espalhe ou que incomode. É um cheiro característico de um líquido.

MT: Será uma questão então dos sulfuretos?

MLG: Eu vou dizer a mesma coisa. Existem determinadas indústrias. Consoante a classe em que trabalham, utilizam e têm produtos que ficam curtidos num determinado tanque. Aqui temos um ponto que na própria indústria poderá haver a emissão de algum cheiro. A indústria aqui vive ao lado de uma casa de habitação. Existem indústrias espalhados por tudo quanto há aqui em Alcanena. São muitas? Não, são poucas as indústrias que têm um processo completo logo onde têm esse tanque.

Não foi de agora. Há muitos anos atrás, quando fizeram aqui um estudo, disseram que essa água (com sulfuretos) deverá ter um tratamento. O tratamento será a oxidação dos sulfuretos. Ou seja, introduzir ar. As unidades industriais deverão ter uns tanques preparados para fazer oxidação dessa água. A partir do momento em que têm um determinado valor de redox e ph deverá ser encaminhada à ETAR.

Tem um horário estabelecido para que essa água seja enviada. Foi estabelecido há muitos anos um período noturno, para que a água chegasse o mais rapidamente à ETAR. O princípio é este: se aqui está a ser tratado com oxigénio, se passa muito tempo na conduta, uma conduta fechada onde não tem oxigénio, o que é que vai acontecer? A tal reversão. Por isso a entrada é um dos sítios onde cheira pior na ETAR. Porquê? Vem tudo numa conduta fechada, com a presença de dióxido de carbono não com oxigénio, portanto há reversão.

Mesmo que a indústria trate bem e envie (a água com sulfuretos) com um determinado valor, vai haver reversão. Chega cá com um valor em que nós possamos dizer que a indústria esteve em incumprimento ou não dessulfure? Nós temos um amostrador automático nas indústrias e o amostrador automático está programado para fazer a recolha horária, ou por metro cúbico, e tem umas garrafinhas em que de acordo com a programação nós colocamos uma determinada amostra. Eu depois consigo verificar (se o processo está a decorrer corretamente e há tratamento dos sulfuretos).

Muitas vezes não é aquele que sabe que tem que enviar os sulfuretos naquela determinada hora que é o nosso receio. Porque esse sabe que tem que enviar a água tratada com sulfuretos. O problema está em quem sabe e tem conhecimento que quando se mistura uma água de sulfuretos tratada com uma água que não é tratada que dá mistura explosiva. Porque estamos a falar de produtos químicos…

MT: Há quem faça isso?

MLG: Não sei…

CM: Temos duas situações, como relatámos no início, que não controlamos.

MLG: Quem faz a pergunta se a ETAR funciona bem, quem faz a pergunta se fiscalizamos bem, não sei se poderá ter alguma indicação ou alguma achega a esta nossa observação.

MT: Têm um tanque de dessulfurização?

MLG: Temos. Esse tanque não constava do projeto inicial. A determinada altura não se sabia exatamente se iríamos ou não conseguir ou concluir, então levantou-se a questão das águas dos sulfuretos. Aí a AUSTRA achou que, com capitais próprios, construía também um tanque para tratar a água dos sulfuretos. (…) Já que estávamos a fazer obras numa zona de entrada da ETAR, foi definido construir o tanque dos sulfuretos.

Neste momento, há mais de um ano, na entrada existe um medidor de ph, constantemente, a verificar se a água que chega tem ou não um ph indicativo de que a água tem sulfuretos. Essa água é encaminhada automaticamente, sem intervenção humana, para um determinado tanque e temos introdução de ar (também já experimentaram a introdução de oxigénio líquido). Já fizemos testes transportando por camião e fazendo a passagem da água.

Nós estamos abertos a sugestões. Mas também estamos atentos e estamos sempre a trabalhar no sentido de qualquer coisa que nos digam nós tentarmos sempre melhorar para pelo menos combatermos essa ideia.

“O problema está em quem sabe e tem conhecimento que quando se mistura uma água de sulfuretos tratada com uma água que não é tratada que dá mistura explosiva. Porque estamos a falar de produtos químicos…”

CM: A partir de segunda-feira (6 de novembro), para nós também desmontarmos essa dúvida, vamos começar a fazer o transporte, não já da totalidade (das unidades industriais) que não é possível, dos sulfuretos em camião. Vamos tirar da rede o sulfureto da primeira lavagem.

MT: Quando estará concluído o estudo da Universidade de Aveiro? Já há algum balanço?

CM: Eles estão neste momento a fazer a recolha no terreno. A Universidade de Aveiro impôs os timings. (…) Disseram que após dia 20 de novembro levariam 30 dias a apresentar o estudo. Pedi, dada a situação de urgência, se havia possibilidade de antecipar os resultados. O mais tardar é que tenhamos o estudo a 20 de dezembro, mas queremos antes.

MT: Esta situação do mau cheiro estará de alguma forma ligada às alterações climáticas?

MTS: Há um histórico em Alcanena, nestas alturas do ano, principalmente no mês de outubro, de ser um mês que se nota mais os cheiros. Principalmente no outono já houve outras ações de protesto. Sim, também pensamos, e eu tenho praticamente a certeza, que as condições atmosféricas potenciam muito a dispersam na atmosfera do mau odor.

CM: E este estudo a seguir, está previsto com a Universidade de Aveiro, que seja replicado noutros pontos (da vila onde cheira mal). E todos os locais onde se ache que há focos potenciais geradores ou acumuladores de odores. Para se perceber.

Nós queremos de uma vez por todas perceber e encontrar soluções para o que podemos atuar.

 

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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