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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

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Alcanena | Município avança com queixa na ERC ao programa Linha Aberta da SIC

O programa “Linha Aberta com Hernâni de Carvalho”, da SIC, emitiu dia 5 de dezembro uma reportagem em torno do problema dos maus cheiros em Alcanena. Na reunião camarária de 18 de dezembro, segunda-feira, a presidente da Câmara, Fernanda Asseiceira, anunciou que o município vai avançar com uma queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) por parcialidade jornalística.

A reportagem, realizada em direto de Alcanena com imagens da ETAR e dos estores das casas negros pela ação da poluição atmosférica, incidiu sobre as consequências do mau cheiro para a população, com algum foco na vida das pessoas com algum tipo de problema de saúde e no comércio. Neste contexto foram ouvidos alguns dos elementos do Movimento pela Saúde de Alcanena (MSA) e da CDU, mas identificados na qualidade de cidadãos. Na mesma ocasião foi ainda ouvido o vereador dos Cidadãos por Alcanena, Gabriel Feitor, sobre o tema. A jornalista terminaria o direto a referir que não teve mais testemunhos porque seriam funcionários da indústria de curtumes ou do município e temiam represálias.

A emissão passou de seguida para o estúdio da SIC, onde foi entrevistada por Hernâni de Carvalho a ex-deputada da CDU e engenheira química, Suzel Frazão, que explicou o porquê do uso dos sulfuretos na indústria de curtumes e o seu impacto na qualidade de vida das pessoas, e Carlos Cunha, também elemento do MSA. Hernâni de Carvalho referiu que foi contactado o município e que este enviou um “relatório extensivo das iniciativas que tem tomado”.

Suzel Frazão foi à reunião de câmara de 18 de dezembro defender a sua presença no programa Linha Aberta, defendendo a elaboração de estudo sobre o impacto da poluição na saúde da população. Foto:mediotejo.net

Suzel Frazão abordaria já no final da entrevista que a população está desiludida com o facto dos grandes investimentos públicos realizados não terem resolvido o problema ambiental, razão pela qual surgiu um movimento de protesto. O programa passou cerca das 19h00, na SIC, dia 5 de dezembro.

Na reunião camarária de 18 de dezembro, algumas das pessoas entrevistadas na reportagem do Linha Aberta compareceram no público, intervindo no final da sessão. Na agenda estava o tópico, para apreciação, “posição da Câmara Municipal sobre o tratamento jornalístico no programa Linha Aberta, da SIC, sobre o concelho de Alcanena, realizado no dia 5 de dezembro”. Segundo Fernanda Asseiceira, não estava em causa o tema da reportagem – os maus cheiros e o seu efeito na população – mas o tratamento jornalístico da mesma, que seria considerado parcial, razão pela qual se ia avançar como uma queixa à ERC.

“No nosso ponto de vista não foram respeitadas questões básicas, nomeadamente a nível legal, não foi respeitado o direito do contraditório à Câmara, tendo em conta que foi visada”, afirmou. A presidente referiu que a informação municipal enviada à SIC foi desvalorizada, sem referência ao seu conteúdo, e que quem devia ter sido entrevistada em representação do município era a presidente da Câmara e não um vereador.

Fernanda Asseiceira também não gostou da jornalista ter mencionado possíveis represálias da Câmara. “Em oito anos, nunca exerci represálias sobre ninguém”, defendeu.

“Foi um programa que foi um mau serviço público, que pôs em causa todo o concelho, todo um trabalho de valorização de todo o território”, salientou, “passou uma imagem como se…fujam, afastem-se (…) eu fiquei chocadíssima quando vi o programa, não queria acreditar”. Deste modo, “na defesa da liberdade de expressão mas também pelo garante da boa informação e do contraditório que deve ter lugar, está preparada uma queixa à ERC”, com conhecimento à SIC, referiu.

Gabriel Feitor considerou a análise da presidente exagerada, mas Fernanda Asseiceira argumentaria que quem viu o programa ficou a achar que era o vereador o porta-voz do município. Já a vereadora Maria João Rodolfo (Cidadãos por Alcanena) constatou que foram apenas relatados factos e que a posição da Câmara não foi menosprezada. “Não me revejo nessa postura”, comentou, “tudo o que possa vir para praça pública que nos auxilie (…) não nos prejudica, só nos reforça”.

Fernanda Asseiceira acabaria por abandonar a sessão antes do final, devido a compromissos de agenda, não chegando a ouvir o público que, na sua maioria, vinha falar dos maus cheiros e da reportagem da SIC. Suzel Frazão foi a primeira a intervir, comentando que a sua intervenção no Linha Aberta parecia ter envergonhado o município. Mas “vergonha para mim é encobrir” os efeitos da poluição na saúde das pessoas ou ter-se gastos milhões de euros numa indústria privada que continua sem funcionar devidamente, defendeu.

A ex-autarca apelaria à realização de um estudo sobre o impacto da poluição na vida das pessoas, referindo que os poluidores deviam pedir desculpa. “Quem dá má imagem do concelho não é quem protesta é quem polui”, afirmou, “denunciar um problema é contribuir para a sua resolução”. “Quem protesta não é quem está contra a Câmara, é quem está contra a poluição”, terminou.

Carla Pereira, ex-candidata da CDU à Câmara, também esteve presente, frisando o que dissera na reportagem: que a situação de poluição afeta o desenvolvimento do concelho. Citando um estudo publicado no jornal Expresso, referiu ser Alcanena o concelho com o m2 mais barato do país. A desvalorização será na ordem dos 200 por m2, apontou.

Carlos Cunha também compareceu, frisando que o único objetivo do MSA é “extinguir-se” e não tem agenda política.

A vice-presidente, Maria João Gomez, referiu que a presidente apenas gostaria de ter tido oportunidade de defender-se, salientando que a reportagem do Linha Aberta foi feita em “tom jocoso”. “A condução daquela entrevista não foi digna das pessoas que aqui trabalham”, defendeu.

Já o vereador Hugo Santarém, anterior detentor do pelouro do Ambiente, comentaria que a indústria de curtumes de Alcanena não pode ser comparada à asiática, até porque está em causa um mercado muito mais exigente que não quer ser associado à poluição. A reportagem, foi referido, terá passado a imagem que o município não está do lado da população, quando o investimento na rede de coletores resolveu parte dos problemas, nomeadamente na poluição hídrica.

A discussão prosseguiu com variadas intervenções dentro do mesmo tema, alertando-se também para a degradação das condições de trabalho na indústria dos curtumes.

Do MSA, Pedro Caetano questionaria porque razão o mau cheiro desaparecera de um dia para o outro no concelho. Maria João Gomez considerou a pergunta pertinente, mas que não possuía elementos técnicos para avançar com uma resposta.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

1 COMENTÁRIO

  1. Não é por acaso a existência de doenças renais, entre outras, associadas aos curtumes, que atravessam gerações, não sabemos nós muito bem o que deixamos aos nosso filhos e netos. Da minha família são 5. Tudo isso é uma indústria poluente, que se uns dominam muito bem, outros não tanto e cujos dejetos acabam por vir parar a valas ao ar livre, empestando o ar que respiramos e aquilo que comemos. Não seria muito mau obrigar as fábricas a escoar os seus detritos por valas subterrâneas, muito bem controladas, até às ETARES onde os elementos seriam devidamente decompostos e encaminhados, sem prejudicar o cidadão comum….Estou, talvez, a sonhar um futuro…..

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