Alcanena | Maus cheiros e um concelho dividido à espera de soluções (c/vídeo)

Um buzinão noturno e dezenas de emails de apelo contra a poluição em Alcanena encheram caixas de correio de instituições. Foto: mediotejo.net

O protesto contra os maus cheiros que têm afetado Alcanena nas últimas semanas mobilizou na sexta-feira algumas dezenas de pessoas, a maioria de movimentos organizados ambientalistas e/ou partidarizados: o movimento SOS Alcanena, a CDU, o Bloco de Esquerda, o reativado CLAPA – Comissão de Luta Anti Poluição do Alviela, o movimento proTejo e o PAN. Na sessão da Assembleia Municipal que se seguiu, oposição e presidente da Câmara debateram pouco e falaram muito. O presidente da mesa, Silvestre Pereira (PS), apelaria à união, mas a Assembleia, muito mais amena que o que se aguardava, acabou tão dividida como começou e sem soluções imediatas à vista.

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Na praça 8 de maio reuniram-se pouco mais de meia centena de pessoas e um “caixão” alegórico que deixava os “pêsames” ao concelho. A GNR circulou discretamente, mas não se registaram conflitos, nem tão pouco palavras de ordem.

População junta-se em protesto contra a poluição antes da Assembleia Municipal de Alcanena

Publicado por mediotejo.net em Sexta-feira, 24 de julho de 2020

 

Os deputados eleitos pelo distrito de Santarém, Fabíola Cardoso (BE) e António Filipe (CDU), vieram prestar a sua solidariedade à causa, mas nenhum dos eleitos tinha intenção de se reunir com a presidente da Câmara, Fernanda Asseiceira (PS). O tema, afinal, é antigo e bastante conhecido das instituições governamentais.

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Também esteve presente no protesto o candidato pelo distrito de Santarém do PAN – Partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza às legislativas de 2019, Pedro Machado. Encontravam-se ainda presentes elementos do movimento ambientalista proTejo.

Aguardava-se a intervenção dos cidadãos em protesto aquando o período do público, no final da sessão de Assembleia, mas apenas o CLAPA tomou a palavra, lembrando que o problema da poluição do Alviela vai além de Alcanena. O histórico grupo de combate à poluição, reativado em 2019, pediu assim para integrar o Observatório Ambiental do município, pedido esse que foi de imediato aceite pela presidente da Câmara.

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Na sessão de Assembleia Municipal todas as bancadas abordaram o tema dos maus cheiros, com especial ênfase pela oposição dos Cidadãos por Alcanena e a CDU. Rui Anastácio, dos Cidadãos por Alcanena, lembraria a sua luta desde os anos 90 em movimentos de protesto contra a poluição, afirmando que “tudo de bom e de mau” neste âmbito que ocorreu desde 2009 é da responsabilidade do atual executivo socialista.

Já a CDU, por Ivo Santos e José Carlos Pereira, apelaria a uma intervenção forte do município, que faça com que os industriais de curtumes cumpram as obrigações ambientais.

Reativado em 2019, o movimento de defesa do Alviela, CLAPA, pediu para integrar o Observatório Ambiental de Alcanena Foto: mediotejo.net

Da parte do PS, Joaquim Gomes comentou que Alcanena tem essencialmente um problema de ordenamento do território.

Antes da intervenção da presidente da Câmara, Silvestre Pereira, presidente da Mesa, solidarizou-se com as queixas da população, mas lembrou que o concelho depende da indústria de curtumes e tem que se procurar um equilíbrio com o ambiente. “Este problema não se resolve uns contra os outros. Enquanto estivermos divididos não o conseguimos resolver”, defendeu.

Também na sessão, a diretora-geral da empresa de água e saneamento AQUANENA fez uma breve exposição do problema na ETAR que esteve na origem da recente onda de maus cheiros. Segundo explicou a responsável, valores “inadmissíveis” de hidrocarbonetos foram identificados no sistema, originando problemas no tratamento.

Na sua exposição, a presidente da autarquia, Fernanda Asseiceira, começou por enumerar os erros que conduziram à atual situação: a localização da ETAR e respetivo modelo de construção e o ordenamento do território (as empresas de curtumes estão dispersas pelo concelho e perto das povoações).

Não obstante a dispendiosa requalificação da rede de coletores não tenha resolvido de vez o problema dos maus cheiros, “eu não quero imaginar como nós estaríamos se não houvesse rede de coletores”, comentou a autarca, salientando a importância deste grande investimento para a diminuição da poluição.

No seu discurso, a presidente da Câmara revelou também que recebeu ameaças de morte, frisando todo o esforço feito nos últimos anos para terminar a concessão com a AUSTRA e criar a entidade municipal, AQUANENA, que garante uma fiscalização mais independente e tem já vários processos de contra-ordenação em curso. Apelaria assim à colaboração da população com o município.

O tom da presidente, porém, não agradaria a Rui Anastácio, que tornou a criticar a forma como Fernanda Asseiceira tem lidado com a indústria de curtumes e a problemática ambiental. No final da sessão a maioria dos cidadãos já havia desmobilizado.

“A protestar, os mesmos de sempre”, refletiu em jeito de balanço o movimento SOS Alcanena na sua página de facebook. A manifestação agendada pelo grupo foi desconvocada porque não se pediu a devida autorização, mas o SOS Alcanena apelara à participação cívica num protesto contra a nova onda de maus cheiros no concelho.

População junta-se em protesto contra a poluição antes da Assembleia Municipal de Alcanena

Publicado por mediotejo.net em Sexta-feira, 24 de julho de 2020

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