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Domingo, Julho 25, 2021

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Alcanena: Leonoreta Leitão, a professora que não tinha medo de ensinar

Leonoreta Leitão foi sub-Diretora da Escola Técnica de Torres Novas, assumindo assim a direção, em 1965, da nova Secção Preparatória de Alcanena (atual Escola Secundária). Até 1968 foi a grande estruturadora da instituição, que deixou para regressar a Lisboa por motivos de saúde. Nas suas Memórias, apresentadas este sábado, dia 29 de outubro, em Alcanena, dedica um capítulo à sua passagem pelo município. “Era uma vez uma boina – Memórias de uma Professora do Estado Novo à Democracia” é um testemunho na primeira pessoa sobre a vida na docência no regime de Salazar e desta transição para a democracia.

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Teve asma em criança e a mãe fazia-a usar uma boina. Do cuidado maternal ficou o hábito. Leonoreta Leitão era a professora que andava sempre de boina, embora nesta tarde não a tenha trazido.

A história, narrada quase por acaso por Leonoreta Leitão durante a apresentação das suas Memórias na Biblioteca Municipal de Alcanena, fez com que o gráfico do livro lhe sugerisse que alterasse o título da obra. Em vez de “Contar a vida, autobiografia” ficaria “Era uma vez uma boina”, a que posteriormente adicionou o subtítulo “Memórias de uma Professora do Estado Novo à Democracia”.

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Sessão na Biblioteca Municipal contou com a presença do executivo municipal e vários representantes do Agrupamento de Escolas de Alcanena. FOTO: mediotejo.net
Sessão na Biblioteca Municipal contou com a presença do executivo municipal e vários representantes do Agrupamento de Escolas de Alcanena. FOTO: mediotejo.net

O livro, afirmaria a professora Maria Otília Mota, a quem coube a apresentação, torna-se afinal uma obra essencial para compreender os dois sistemas pedagógicos. “Não se poderá fazer um estudo sério e competente dessas áreas sem ler a Dra Leonoreta”, defendeu, elogiando a sinceridade que a autora colocou na obra.

Leonoreta Leitão veio para Alcanena com o objetivo de subir de posição, de professora provisória para efetiva, mas acabaria por deixar o concelho sem qualquer tipo de progressão na carreira docente, explicou aos presentes. “Passei por 12 sítios diferentes até ser professora efetiva”, recordou.

Ao mediotejo.net narrou outras particularidades desta sua história. De como não tinha medo de ensinar e, em pleno Estado Novo, abordava o neo-realismo com os seus alunos. Após o 25 de abril descobriria que lhe fora negada uma posição na direção de uma escola, à qual se tinha candidatado, por ter tido uma má recomendação da PIDE.

Ex-alunos quiseram cumprimentar e elogiar a diretora e professora que marcou o percurso dos primeiros três anos do Ensino Técnico em Alcanena. FOTO: mediotejo.net
Ex-alunos quiseram cumprimentar e elogiar a diretora e professora que marcou o percurso dos primeiros três anos do Ensino Técnico em Alcanena. FOTO: mediotejo.net

Alcanena foi um momento de passagem para esta professora natural de Leiria, nascida em 1929 e afilhada do poeta Afonso Lopes Vieira. Quando chegou ao concelho, recordou ao jornal, “uma senhora nem ia tomar um café depois do almoço”. Conseguiu lentamente ir tentando mudar rotinas – e as mentalidades – e “no terceiro ano já íamos para o café e até já havia” colegas a fumar cigarros. “Não há dúvida que uma escola oferece uma certa abertura a uma terra”, constatou.

A Secção Preparatória da Escola Técnica foi uma das grandes obras deixadas pelo então presidente da Câmara, Joaquim Baptista, que muito insistiu para conseguir trazer este ensino para o concelho. Foi graças a esta “tenacidade” junto dos dirigentes de então, conforme lembrou o presidente da assembleia municipal, Silvestre Pereira, que Alcanena pôde enfim ter uma escola secundária e dar uma possibilidade de prosseguir os estudos aos alunos que não tinham meios para deslocar-se para Santarém ou Lisboa. A escola abriria em 1965 com cinco professores e 80 alunos.

Leonoreta foi a primeira diretora e a quem competiu “construir” a escola, salientando por diversas vezes a competência da equipa que com ela desenvolveu um trabalho que “não foi fácil” e que continuou a manter a escola com bom funcionamento após a sua partida. Ensinava Língua e História Pátria, tendo o seu ensino e auxílio sido recordado com carinho por vários colegas e ex-alunos presentes, incluindo o próprio Silvestre Pereira. “Era uma amiga, era alguém que nos ensinava a ser cidadãos”, frisou. A sessão contou ainda com vários representantes do Agrupamento de Escolas de Alcanena.

"Era uma vez uma boina" são as memórias de uma professora que lecioniou entre o Estado Novo e a Democracia. FOTO: WOOK
“Era uma vez uma boina” são as memórias de uma professora que lecioniou entre o Estado Novo e a Democracia. FOTO: WOOK

O livro “Era uma vez uma boina” tem edição da Colibri. Leonoreta Leitão é licenciada em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa, fez estágio do 8º Grupo do Ensino Técnico e Exame de Estado em 1959/61. Na carreira docente, foi Professora Provisória (1957/61), Agregada (1961/63), Auxiliar (1965/68) e Efetiva (1969/93). Além do seu trabalho em Alcanena, foi delegada da disciplina de Português (1961/83), assistente de Metodologia, orientadora de Estágio de Português e desempenhou funções pedagógicas e inspetivas na Direção-Geral do Ensino Secundário.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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