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Domingo, Janeiro 23, 2022
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Alcanena: Leonoreta Leitão, a professora que não tinha medo de ensinar

Leonoreta Leitão foi sub-Diretora da Escola Técnica de Torres Novas, assumindo assim a direção, em 1965, da nova Secção Preparatória de Alcanena (atual Escola Secundária). Até 1968 foi a grande estruturadora da instituição, que deixou para regressar a Lisboa por motivos de saúde. Nas suas Memórias, apresentadas este sábado, dia 29 de outubro, em Alcanena, dedica um capítulo à sua passagem pelo município. “Era uma vez uma boina – Memórias de uma Professora do Estado Novo à Democracia” é um testemunho na primeira pessoa sobre a vida na docência no regime de Salazar e desta transição para a democracia.

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Teve asma em criança e a mãe fazia-a usar uma boina. Do cuidado maternal ficou o hábito. Leonoreta Leitão era a professora que andava sempre de boina, embora nesta tarde não a tenha trazido.

A história, narrada quase por acaso por Leonoreta Leitão durante a apresentação das suas Memórias na Biblioteca Municipal de Alcanena, fez com que o gráfico do livro lhe sugerisse que alterasse o título da obra. Em vez de “Contar a vida, autobiografia” ficaria “Era uma vez uma boina”, a que posteriormente adicionou o subtítulo “Memórias de uma Professora do Estado Novo à Democracia”.

Sessão na Biblioteca Municipal contou com a presença do executivo municipal e vários representantes do Agrupamento de Escolas de Alcanena. FOTO: mediotejo.net
Sessão na Biblioteca Municipal contou com a presença do executivo municipal e vários representantes do Agrupamento de Escolas de Alcanena. FOTO: mediotejo.net
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O livro, afirmaria a professora Maria Otília Mota, a quem coube a apresentação, torna-se afinal uma obra essencial para compreender os dois sistemas pedagógicos. “Não se poderá fazer um estudo sério e competente dessas áreas sem ler a Dra Leonoreta”, defendeu, elogiando a sinceridade que a autora colocou na obra.

Leonoreta Leitão veio para Alcanena com o objetivo de subir de posição, de professora provisória para efetiva, mas acabaria por deixar o concelho sem qualquer tipo de progressão na carreira docente, explicou aos presentes. “Passei por 12 sítios diferentes até ser professora efetiva”, recordou.

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Ao mediotejo.net narrou outras particularidades desta sua história. De como não tinha medo de ensinar e, em pleno Estado Novo, abordava o neo-realismo com os seus alunos. Após o 25 de abril descobriria que lhe fora negada uma posição na direção de uma escola, à qual se tinha candidatado, por ter tido uma má recomendação da PIDE.

Ex-alunos quiseram cumprimentar e elogiar a diretora e professora que marcou o percurso dos primeiros três anos do Ensino Técnico em Alcanena. FOTO: mediotejo.net
Ex-alunos quiseram cumprimentar e elogiar a diretora e professora que marcou o percurso dos primeiros três anos do Ensino Técnico em Alcanena. FOTO: mediotejo.net

Alcanena foi um momento de passagem para esta professora natural de Leiria, nascida em 1929 e afilhada do poeta Afonso Lopes Vieira. Quando chegou ao concelho, recordou ao jornal, “uma senhora nem ia tomar um café depois do almoço”. Conseguiu lentamente ir tentando mudar rotinas – e as mentalidades – e “no terceiro ano já íamos para o café e até já havia” colegas a fumar cigarros. “Não há dúvida que uma escola oferece uma certa abertura a uma terra”, constatou.

A Secção Preparatória da Escola Técnica foi uma das grandes obras deixadas pelo então presidente da Câmara, Joaquim Baptista, que muito insistiu para conseguir trazer este ensino para o concelho. Foi graças a esta “tenacidade” junto dos dirigentes de então, conforme lembrou o presidente da assembleia municipal, Silvestre Pereira, que Alcanena pôde enfim ter uma escola secundária e dar uma possibilidade de prosseguir os estudos aos alunos que não tinham meios para deslocar-se para Santarém ou Lisboa. A escola abriria em 1965 com cinco professores e 80 alunos.

Leonoreta foi a primeira diretora e a quem competiu “construir” a escola, salientando por diversas vezes a competência da equipa que com ela desenvolveu um trabalho que “não foi fácil” e que continuou a manter a escola com bom funcionamento após a sua partida. Ensinava Língua e História Pátria, tendo o seu ensino e auxílio sido recordado com carinho por vários colegas e ex-alunos presentes, incluindo o próprio Silvestre Pereira. “Era uma amiga, era alguém que nos ensinava a ser cidadãos”, frisou. A sessão contou ainda com vários representantes do Agrupamento de Escolas de Alcanena.

"Era uma vez uma boina" são as memórias de uma professora que lecioniou entre o Estado Novo e a Democracia. FOTO: WOOK
“Era uma vez uma boina” são as memórias de uma professora que lecioniou entre o Estado Novo e a Democracia. FOTO: WOOK

O livro “Era uma vez uma boina” tem edição da Colibri. Leonoreta Leitão é licenciada em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa, fez estágio do 8º Grupo do Ensino Técnico e Exame de Estado em 1959/61. Na carreira docente, foi Professora Provisória (1957/61), Agregada (1961/63), Auxiliar (1965/68) e Efetiva (1969/93). Além do seu trabalho em Alcanena, foi delegada da disciplina de Português (1961/83), assistente de Metodologia, orientadora de Estágio de Português e desempenhou funções pedagógicas e inspetivas na Direção-Geral do Ensino Secundário.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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