Alcanena | Faleceu Luís Miguel Pedro, chefe dos escuteiros de Alcanena

Luis Miguel Pedro integrou os Escutas de Alcanena em 1986, data da fundação do agrupamento. foto Luis Miguel Pedro

Faleceu Luís Miguel Carvalho Pedro, aos 48 anos, por doença oncológica. O alcanenense era Chefe do Agrupamento 867 de Alcanena e figura do escutismo a nível regional. O funeral decorre esta quinta-feira, dia 9 de julho, às 10:30, na Igreja de Santa Maria Mãe de Deus, em Alcanena.

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Em 2016 o mediotejo.net entrevistou o responsável, numa ocasião em que este aproveitou para mostrar toda a sua paixão pelo escutismo. Reproduzimos neste momento de pêsames essa entrevista.

Luis Miguel Pedro explicou ao nosso jornal como funciona um acampamento de escuteiros através de uma maquete. foto mediotejo.net

Texto publicado originalmente a 22 de abril de 2016.

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Na semana em que o Corpo Nacional de Escutas (CNE) viveu o luto pela morte de uma jovem de 11 anos da Chamusca durante uma atividade de escutismo (16 de abril), o mediotejo.net falou com Luís Miguel Pedro, grande impulsionador do movimento dos escuteiros em Alcanena e com uma forte ação na direção do mesmo a nível regional. Reconhece que há alguma má fama ligada aos escuteiros e mesmo acusações de algum elitismo. Afirma que o movimento é para todos, semelhante à catequese ou a outro organismo católico, e que as atividades, sobretudo na natureza, pretendem a integração no coletivo e na entreajuda ao próximo. Nos 30 anos do Agrupamento 867 dos Escutas de Alcanena, o objetivo passa por angariar dinheiro suficiente em atividades para levar todo o grupo a Londres de forma praticamente gratuita.

Organismo de natureza religiosa, os escuteiros têm uma mística muito própria e por vezes só percetível a quem com eles convive. Em Fátima, por exemplo, dão apoio aos peregrinos e ajudam em caso de pessoas perdidas. A nível nacional existem 70 mil pessoas ligadas ao CNE, além de um outro organismo, a Associação de Escoteiros de Portugal, que engloba todas as confissões religiosas, para além da católica. Nem todos se mantêm ligados à estrutura após a chegada à Universidade e poucos resistem com a entrada no mundo do trabalho.

O agrupamento de Alcanena chegou a possuir 120 elementos, hoje tem apenas 65. A desertificação e o envelhecimento da população do concelho ajudam aos números, numa instituição com uma história muito própria e que vive também do esforço e da personalidade de quem está à frente dos agrupamentos.

O mediotejo.net quis falar assim com Luís Miguel Pedro, 44 anos, apaixonado do escutismo em Alcanena, que chegou a assumir cargos de chefia na direção regional de Santarém. Foi em 1985 que se deram os primeiros passos na revitalização do movimento e se realizou um primeiro acampamento em Tomar. A estrutura nasceria oficialmente a 7 de dezembro de 1986, com as primeiras promessas a serem realizadas em Alcanena.

Há várias etapas no percurso de escuta, de “lobito” a “caminheiro”, conforme a faixa etária. Luís Miguel Pedro foi “pioneiro” e “caminheiro” e em 1999 tornar-se-ia Chefe de Agrupamento. Acabaria por ser convidado para Secretário Regional, de onde passaria a Chefe Regional Adjunto. “Um percurso que nunca imaginava fazer” e que lhe ocupou 12 anos da sua vida. Desenvolveu programas para adultos, representou em 2003 o CNE na Eslovénia e procurou trazer várias atividades para Alcanena. Há cerca de quatro anos ajudou a reabrir o Agrupamento de Escutas do Pedrógão, em Torres Novas. Após um longo percurso,  “regressei então para o meu agrupamento”.

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No ano em que se celebram os 30 anos do Agrupamento de Escutas de Alcanena, Luís Miguel Pedro é apenas responsável da 3ª secção, os “pioneiros”, e gosta do trabalho que desenvolve junto de adolescentes dos 14 aos 18 anos. Talvez por isso os números do agrupamento tenham vindo a aumentar. “Quando vim para Alcanena tinha cinco pioneiros, em quatro anos tenho 16”.

Reconhece que o passa-a-palavra entre jovens e as atividades ao ar livre, como os famosos acampamentos, se tornam apelativas quando há muita dinâmica. Frisa que “o escutismo é uma escola de formação integral”, onde se exploram as várias facetas do serviço pelo próximo. “O facto de fazer acampamentos e de estar em comunhão com a natureza; o explorarmos zonas paisagísticas…Tudo isso torna o escutismo apelativo”. “Trazem-se muitas amizades”.

Apesar de tudo, Luís Miguel Pedro admite que existe alguma má fama relacionada com os escutas. “Julgo que o escutismo há 30 anos atrás era equiparado à Mocidade Portuguesa”, comenta, assim como era visto como uma estrutura só para “meninos ricos”. Ideia que afincadamente contesta! Um uniforme pode custar, efetivamente, entre 30 a 40 euros, razão pela qual existe um Banco de Uniformes para os que necessitem. As atividades têm um preço relacionado com as despesas de deslocação/alimentação, mas procura-se que sejam muitas vezes gratuitas. Desde a venda de calendários à recente Festa das Sopas, todas as iniciativas de venda destinam-se a colmatar os custos das atividades dos escuteiros.

“Somos um dos grupos da Igreja, como a catequese”, explica, cuja “missão é catequizar as crianças e os pais das crianças”. Tarefa nem sempre fácil, admite, há quem encare os escuteiros como um ATL. “Noto que os pais fogem da relação com a Igreja”, lamenta, mas também constata que entre os 25 e os 40 anos os jovens têm tendência a afastar-se do universo religioso, para voltarem lentamente depois dessa fase. “Aqui também é importante os párocos” e a sua capacidade de irem ao encontro dos fiéis.

Sobre a morte da jovem da Chamusca numa atividade de escuteiros, Luís Miguel Pedro lamenta o sucedido e adianta que não foi a primeira vez que aconteceu algo semelhante. “Não era uma atividade que envolvia esforços físicos”, sublinha, não se sabendo ainda a causa do falecimento da jovem. “Todo o agrupamento e comunidade deve estar num sofrimento enorme”.

O pensamento para já está no futuro e na viagem em setembro para Inglaterra, terra que fundou o escutismo. “Temos feito várias atividades para tentar minimizar o custo e suportar as viagens”, refere, comentando que o espírito da iniciativa é “viver a dimensão internacional do escutismo”. Dos “lobitos”, aos “exploradores”, passando pelos “pioneiros” e os “caminheiros”, esta é uma escola que quer ir ao encontro da natureza, trazendo tanto homens e mulheres para a vivência em comunidade. “Gostávamos de ter fundos monetários para pagar tudo a toda a gente”, afirma.

Os escuteiros lançaram também este ano um desafio à Câmara Municipal de Alcanena: dar o nome de Lorde Baden-Powell (fundador do escutismo) à rotunda junto ao Lidl, neste que também é o centenário do escutismo. Não sabe se a proposta será aceite, mas Luis Miguel Pedro reflete: “somos 10/11 milhões de escuteiros pelo mundo”.

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